Portugal até exporta bem. Marcas, nem por isso

  • Daniel Sá
  • 12 Maio 2026

Sem marcas fortes, um país não escala valor. Escala esforço. E esforçar‑se mais para ganhar menos nunca foi uma estratégia sustentável.

Portugal exporta cada vez mais. Os números são frequentemente celebrados. Crescimentos sucessivos, novos mercados, setores resilientes. Olhando para os dados, poderíamos concluir que o país está finalmente a ganhar escala económica. Mas há um detalhe que raramente entra nesta conversa e que muda tudo: Portugal exporta bem, mas cria muito poucas marcas com verdadeiro impacto internacional.

O indicador é simples e brutal. No ranking das 100 marcas globais mais valiosas do mundo da Interbrand, não aparece uma única marca portuguesa. Nenhuma. Num ranking dominado por marcas europeias de países com dimensão económica comparável à nossa, Portugal é completamente invisível. Espanha tem a Zara. A Itália a Ferrari. A Suécia a IKEA e a Spotify. A Irlanda construiu marcas tecnológicas globais. Portugal continua fora do jogo.

Este dado não mede capacidade produtiva nem volume de exportação. Mede brand equity. Mede o valor económico da marca enquanto ativo estratégico. Ou seja, mede a capacidade de uma empresa capturar margem, preferência e poder de negociação nos mercados internacionais. É aqui que o país falha sistematicamente.

O contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para dentro. Segundo a Brand Finance, as 25 marcas portuguesas mais valiosas, todas juntas, valem pouco mais de 12 mil milhões de euros. Para termos uma ordem de grandeza, a marca mais valiosa do mundo vale, sozinha, dezenas de vezes mais do que esse total. O problema não é talento. Não é capacidade técnica. Não é falta de empresas. É ausência de estratégia de marca com ambição global.

Criámos uma economia treinada para produzir, vender e adaptar. Mas pouco preparada para diferenciar, significar e liderar. Muitas empresas portuguesas exportam com excelentes padrões de qualidade, mas como fornecedores invisíveis. Produzem bem. Vendem bem. Mas não são escolhidas por aquilo que representam. E quando não se é escolhido pela marca, compete‑se sempre por preço.

Há também uma questão cultural. Criar marcas globais exige foco, investimento e tempo. Exige escolhas. Exige dizer não. Em Portugal, muitas empresas querem crescer sem perder ninguém, falar com todos os públicos e estar em todos os mercados. Esse alargamento dilui posicionamento. E sem posicionamento claro, não há marca forte.

O marketing, em demasiados casos, continua a ser visto como comunicação e não como decisão estratégica. Um custo, não um ativo. Uma camada final, não o ponto de partida. Enquanto assim for, continuaremos a ter boas empresas sem marcas memoráveis, produtos sólidos sem significado global e exportações que crescem sem criar verdadeiro poder económico.

Sem marcas fortes, um país não escala valor. Escala esforço. E esforçar‑se mais para ganhar menos nunca foi uma estratégia sustentável.

Portugal não precisa de exportar menos. Precisa de significar mais. Porque no jogo global, quem não constrói marcas acaba sempre a trabalhar para as marcas dos outros.

  • Daniel Sá
  • Diretor executivo do IPAM

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