Portugal pode ser um exemplo nos mercados de carbono na Europa

  • Daniela Amorim
  • 19 Dezembro 2025

O carbono tornou-se, paradoxalmente, tanto um resíduo da economia global como uma nova moeda de sustentabilidade.

Nos últimos anos, a expressão “mercados de carbono” deixou de ser apenas jargão técnico para se tornar parte da linguagem de governos, empresas e até consumidores. A razão é simples: o carbono tornou-se, paradoxalmente, tanto um resíduo da economia global como uma nova moeda de sustentabilidade.

A ciência já não deixa margem para dúvidas: para limitar o aquecimento global a 1,5°C, não basta reduzir emissões. Será necessário remover carbono da atmosfera a uma escala inédita, sendo aqui que a captura de carbono, seja por soluções naturais (florestas, solos, oceanos) ou por tecnologias emergentes (captura direta do ar, armazenamento geológico), assume um papel decisivo.

Portugal tem condições únicas para explorar este potencial. A nossa floresta, apesar dos desafios dos incêndios e da fragmentação fundiária, pode tornar-se uma das maiores aliadas na remoção de carbono, desde que gerida com visão de longo prazo. O setor agrícola, ao adotar práticas regenerativas, pode transformar solos empobrecidos em verdadeiros sumidouros de carbono. E na frente tecnológica, a investigação em captura direta e bioenergia com armazenamento de carbono começa a dar sinais de maturidade.

O que distingue a captura de carbono de outras medidas é a sua dupla dimensão: funciona como mecanismo de mitigação e, simultaneamente, como oportunidade económica.

É neste ponto que entram os mercados de carbono. Criados para colocar um preço sobre as emissões, estes mercados oferecem uma forma de monetizar a redução e a remoção de CO₂. Empresas que não conseguem eliminar todas as suas emissões podem adquirir créditos de carbono provenientes de projetos que removem ou evitam emissões.

Mas há riscos. O excesso de créditos de baixa qualidade ameaça a credibilidade do sistema. Projetos que não removem carbono de forma permanente ou que exageram o seu impacto tornam o mercado vulnerável à acusação de “greenwashing”. A transparência e a integridade são, por isso, as palavras-chave para o futuro.

Se forem bem regulados, os mercados podem gerar fluxos financeiros capazes de transformar paisagens inteiras, incentivando agricultores, florestais e inovadores tecnológicos a investir em práticas que regeneram o planeta.

Portugal tem uma oportunidade rara: tornar-se um hub europeu de projetos de alta integridade no mercado voluntário de carbono. Imagine-se num país onde cada hectare de floresta bem gerida, cada quinta regenerativa e cada projeto tecnológico possa gerar créditos reconhecidos internacionalmente, atraindo investimento e criando valor local.

Para isso, é necessário um esforço coletivo: políticas públicas que premiem a integridade, empresas dispostas a investir além do mínimo legal e cidadãos que compreendam que um crédito de carbono de qualidade não é um álibi, mas um contributo para um futuro sustentável.

  • Daniela Amorim
  • ESG Manager da KPMG

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