Portugal tem 80 mil empresas sem plano de saída
José Rodrigues debate a sucessão nas empresas familiares e o setor de distribuição de seguros é um dos mais exemplares para o problema.
Portugal tem quase 80 mil empresas ativas constituídas antes de 1995. A maioria dessas empresas continua hoje sob a liderança dos seus fundadores. Empresários que construíram o seu negócio durante décadas e que se aproximam, a passo certo, da idade da reforma.
Estas empresas não nasceram por acaso. Nasceram num momento específico de transformação económica. A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia em 1986 abriu mercados, facilitou o acesso ao financiamento e criou condições para uma geração de empreendedores que foi, literalmente, construir a economia real deste país. Pequenas indústrias, comércio especializado, empresas de construção, distribuidores, prestadores de serviços. Empresas que em conjunto hoje empregam pessoas, pagam impostos e sustentam famílias.
Essa geração está agora a querer sair. O que ficou para trás foi o plano para essa saída.
O problema tem uma geometria conhecida. Em numerosos casos, os filhos destes empresários seguiram outros caminhos. Não há interesse, não há preparação ou simplesmente não há vontade de assumir o que o pai ou a mãe construiu. O fundador quer sair, mas não sabe como. E enquanto a decisão é adiada, a empresa paga o preço: investimento que não acontece, decisões estratégicas que ficam em suspenso, equipas sem perspetiva de futuro.
O contexto torna este problema ainda mais agudo. Segundo dados da Pordata, atualmente cerca de 96% das empresas portuguesas são microempresas com menos de dez trabalhadores. Em grande parte dos casos, o fundador é, ele próprio, a empresa. O conhecimento do mercado, a relação com clientes e fornecedores, a reputação construída ao longo de anos, tudo isso depende de uma única pessoa. Quando essa pessoa sai sem plano, o que fica é apenas uma estrutura jurídica.
Empresas viáveis, com história e com mercado, desaparecem silenciosamente por falta de um plano de saída. Não por falta de valor. Por falta de decisão no momento certo.
Mas este cenário não é apenas um risco. É, simultaneamente, uma das maiores oportunidades empresariais da próxima década em Portugal.
Em vários países desenvolvidos ganhou expressão um modelo de empreendedorismo que parte precisamente deste problema. Em vez de criar uma empresa do zero, com tudo o que isso implica em termos de incerteza e tempo, empreendedores e investidores adquirem empresas já estabelecidas. Com clientes reais, equipas formadas e operações em funcionamento. A lógica é direta: criar demora anos e a probabilidade de insucesso é muito elevada. Adquirir uma empresa ativa permite começar a partir de algo que já funciona.
Uma empresa industrial com vinte anos de atividade, clientela consolidada e uma equipa experiente não é um problema quando o fundador se reforma. É um ativo. A questão é se existe alguém preparado para reconhecer esse valor e para conduzir a transição com competência.
Num país onde as PME representam mais de 60% do emprego e cerca de dois terços do valor acrescentado da economia, esta não é uma conversa apenas entre empresários, é uma conversa sobre o futuro do tecido económico português.
Nos próximos anos, milhares de empresas vão enfrentar esta decisão. Algumas farão a transição de forma estruturada e continuarão a crescer sob nova liderança. Outras vão simplesmente fechar, levando consigo décadas de conhecimento acumulado e os postos de trabalho que sustentavam.
A diferença entre estes dois cenários não está no mercado nem na conjuntura.
Está em saber, com antecedência, o que fazer quando chega a hora de sair.
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