Portugal tem uma oportunidade histórica no quadro da “nova defesa”
Nos últimos anos começaram a surgir startups portuguesas a desenvolver tecnologias com impacto militar, num país que praticamente desmantelou a sua indústria de defesa durante os anos 90.
Portugal pode estar a assistir ao surgimento de um novo ecossistema tecnológico ligado à defesa, um fenómeno ainda pouco discutido ao nível estratégico e político, mas com implicações económicas relevantes. Nos últimos anos começaram a surgir startups portuguesas a desenvolver tecnologias com impacto militar, num país que praticamente desmantelou a sua indústria de defesa durante os anos 90.
Durante décadas, a narrativa dominante foi a de que a indústria de defesa era um setor contracíclico e pouco alinhado com o futuro económico do país. Muitas empresas foram encerradas ou desmanteladas e o investimento público nessa área praticamente desapareceu. A ideia de uma “paz kantiana”, em que os conflitos armados deixariam de ser centrais nas relações internacionais, levou a um desinvestimento estrutural nestas capacidades com a consequente perda de tecido industrial e conhecimento técnico.
Por estas razões, não era óbvio que Portugal viesse a assistir ao aparecimento de empresas tecnológicas com ambição neste domínio. Ainda assim, nos últimos anos começaram a surgir várias iniciativas, algumas já com projeção internacional, que demonstram que existe talento, capacidade tecnológica e interesse em desenvolver soluções. Este movimento acompanha uma transformação mais ampla no setor da defesa, onde a inovação tecnológica, o software, a inteligência artificial e os sistemas autónomos começam a ter um peso cada vez maior nas capacidades militares.
Curiosamente, o nosso país pode ter aqui uma janela de oportunidade. Ao contrário de outros países europeus, estamos relativamente afastados dos principais teatros de operação e conflito, temos acesso privilegiado a áreas de teste, principalmente a nível marítimo e aéreo, o que nos coloca numa posição diferente para desenvolver tecnologia e inovação. Ao mesmo tempo, Portugal formou ao longo das últimas décadas uma base sólida de talento, em particular nas áreas de engenharia, software e inteligência artificial, que alimenta um ecossistema tecnológico cada vez mais dinâmico. Devendo continuar a ser dinamizado com ofertas formativas específicas nas áreas tecnológicas de defesa.
O desafio, no entanto, não parece estar no talento ou na capacidade tecnológica. A dificuldade está na forma como este setor se organiza e na ausência de uma estratégia institucional e política clara para o desenvolvimento da chamada “Nova Defesa”. Esta é caracterizada por ser desenvolver produtos rapidamente e iterados todos os dias, em oposição à “velha Defesa” que demora 20 anos a desenvolver um novo caça. Apesar de nos últimos anos se ter falado muito de startups e inovação, o setor da Defesa tem ficado praticamente fora desse radar estratégico. Isto cria um problema estrutural. Ao contrário de outras áreas, a Defesa não funciona num mercado livre tradicional, sendo que o principal comprador é o Estado. Trata-se de um mercado em que as Forças Armadas e as instituições públicas representam os clientes centrais. Sem canais claros de interação entre startups e utilizadores, muitas empresas acabam por desenvolver produtos sem validação de mercado ou sem acesso aos operadores que realmente precisam dessas soluções.
O atual contexto geopolítico europeu está a levar muitos países a aumentar significativamente o investimento em Defesa, e o país terá inevitavelmente de acompanhar esse movimento. A questão estratégica é simples: esses recursos serão utilizados apenas para importar equipamento estrangeiro ou podem também contribuir para desenvolver indústria e inovação no país?
Na prática, isto significa que algumas startups desenvolvem tecnologia “às cegas”, e investem tempo e capital sem saber se o produto responde a uma necessidade concreta das forças armadas. Em muitos casos, só depois de eventos pontuais ou iniciativas informais conseguem estabelecer um primeiro contacto com potenciais utilizadores. Este desalinhamento entre inovação tecnológica e necessidades operacionais não só aumenta o risco de falha das startups como desperdiça recursos que poderiam estar a contribuir para a construção de uma base industrial mais sólida.
É precisamente aqui que uma estratégia pública se torna fundamental. Países como a Finlândia e outros países escandinavos têm vindo a desenvolver programas estruturados para apoiar startups e empresas tecnológicas no setor da defesa, o que cria mecanismos entre indústria, forças armadas e centros de investigação. Estes programas incluem aceleração tecnológica, testes operacionais e parcerias industriais que permitem reduzir o risco e acelerar a adoção de novas soluções.
Estes são exemplos que indicam o caminho a seguir por Portugal. O atual contexto geopolítico europeu está a levar muitos países a aumentar significativamente o investimento em defesa, e o país terá inevitavelmente de acompanhar esse movimento. A questão estratégica é simples: esses recursos serão utilizados apenas para importar equipamento estrangeiro ou podem também contribuir para desenvolver indústria e inovação no país?
Se Portugal conseguir posicionar-se ao nível internacional, sobretudo nas áreas onde já possui vantagens competitivas, como software, drones, e sistemas autónomos, poderá transformar investimento público em crescimento económico, inovação tecnológica e maior autonomia estratégica. Caso contrário, iremos continuar essencialmente na posição de comprador e operador de tecnologia desenvolvida noutros centros de decisão.
O aparecimento destas startups demonstra que existe talento e iniciativa para desenvolver tecnologia de defesa a partir de Portugal. Falta agora aquilo que sempre foi determinante no desenvolvimento de qualquer setor estratégico e de interesse nacional: uma visão clara e uma política pública capaz de transformar uma oportunidade histórica numa verdadeira indústria nacional.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
Portugal tem uma oportunidade histórica no quadro da “nova defesa”
{{ noCommentsLabel }}