Powell, o Pai Natal de Wall Street
Não é porque os mercados festejaram a mensagem da Fed que ela se torna acertada. É porque o risco de agir de forma tardia seria muito pior do que agir cedo demais.
“Happy holidays, chairman“. Steve Liesman, jornalista da CNBC, antecedeu uma pergunta a Jerome Powell com esta saudação festiva, mas o presidente da Reserva Federal (Fed) reciprocou com ainda maior espírito natalício ao dar o presente que os investidores mais queriam no sapatinho.
Em Wall Street, há semanas que a pausa que dura desde julho nas subidas das taxas de juros já não satisfazia os desejos. Ignorando por completo as mensagens da Fed sobre cautela e até mesmo um eventual e final aumento do custo do dinheiro em dezembro, a aposta dos participantes nos mercados passou a ser numa série de cortes nos juros em 2024, com início já em março. Um otimismo que resultou em várias semanas de ganhos nos principais índices acionistas.
Dada essa posição agressiva nos mercados, a expectativa era que Powell viesse acalmar os ânimos na conferência de imprensa a 13 dezembro, com uma mensagem de cautela, evitando prometer oferendas, até porque a boa saúde do mercado de trabalho e uma ligeira travagem na descida da inflação o permitia.
No comunicado, a pausa foi confirmada. Mas já se avistava uma ligeira nuance. Nos discursos e comunicados dos banqueiros centrais, o diabo está quase sempre no detalhe do palavreado. A inclusão ou a omissão de um termo, por mais inócuo que pareça, pode representar mudanças tectónicas na política monetária. Neste caso, o acrescentar da palavra “qualquer” em relação a eventuais novos aumentos nas taxas serviu para sinalizar que a taxa de juro está no pico do ciclo atual, ou perto desse ponto. Nas novas projeções, os membros do comité da Fed apontavam para uma queda três quartos de ponto percentual no próximo ano, do intervalo atual de 5,25% a 5,50%.
Mas o melhor ainda estava para vir. Powell desceu a chaminé da Fed com o saco carregado de prendas, a maior das quais foi a novidade que o tema de quando será apropriado começar a cortar as taxas não é só discutido no mundo em geral, mas também o foi na reunião do banco central.
A surpresa foi recebida com euforia, levando os principais índices em Wall Street a baterem recordes sucessivos ou prolongarem séries de ganhos semanais que não eram vistas há anos. Os preços das obrigações, do ouro, das criptomoedas e de outros ativos também dispararam. Os americanos têm uma capacidade inigualável de dar nomes aos fenómenos e não desiludiram: é o everything rally, ou uma corrida para comprar tudo até ao final do ano.
Numa conferência de imprensa com maior clareza que o habitual, Powell teve o cuidado de alertar que não dá a vitória na luta contra a inflação como garantida, mas também de destacar a dificuldade em calcular o tempo certo para começar a aliviar as restrições monetárias e o risco de aguentar os níveis altos das taxa muito tempo, um erro a evitar.
E este é o ponto principal que justifica a escolha da Fed de abrir o jogo. Não é porque os mercados receberam a mensagem em delírio que ela se torna acertada. Não é porque estamos todos cansados de pagar muito pelo dinheiro e queremos respirar melhor. É porque o risco de agir de forma tardia seria muito pior do que agir cedo demais. No caso dos Estados Unidos, manter os cortes das taxas como o elefante na sala teria sido irrealista e até perigoso do ponto vista dos mercados e dos agentes económicos.
As decisões da Fed são normalmente tiros de partida para outros bancos centrais seguirem pelo mesmo caminho. Neste momento a velocidade de reação pode ser crucial para o sucesso da inversão da política. Deste lado do Atlântico, no dia seguinte à conferência da Fed, Christine Lagarde aparecia na conferência de imprensa do BCE visivelmente abalada por uma bronquite aguda provocada pela Covid, como se já não tivesse problemas suficientes para enfrentar. Na zona euro, a subida das taxas em reação ao acelerar da inflação provocada pela guerra na Ucrânia foi tardia, o que coloca o bloco em atraso em termos da travagem da inflação e do alívio monetário.
Lagarde foi clara, o Conselho do BCE não discutiu cortes, vai continuar a combater a subida dos preços, com decisões baseadas em dados. Não se vai de estado sólido para gás sem passar pelo estado líquido, disse Lagarde, numa imagem algo estranha para ilustrar a passagem de subidas para cortes. Tem toda a razão, mas esperemos que o BCE não volte a reagir tarde demais novamente.
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