Quando a tarifa não tem juízo, pague-se o sinistro

  • Nuno Oliveira Matos
  • 17 Maio 2026

Nuno Oliveira Matos afirma que, se o setor segurador não estiver disposto a usar a tarifa de incêndio como instrumento ativo de prevenção, está apenas a financiar a próxima época de fogos.

À medida que nos aproximamos de mais uma época estival, o setor segurador português volta a entrar num ciclo conhecido. O risco de incêndio aumenta, a incerteza instala‑se, os sinistros tornam‑se previsíveis na sua imprevisibilidade e, ainda assim, os modelos que sustentam a cobertura de incêndio e outros danos continuam, em grande parte, assentes em pressupostos de conveniência. Sabemos que o risco vai materializar‑se. Sabemos que não é aleatório. E sabemos que não está uniformemente distribuído. O paradoxo é continuarmos a tratá‑lo como se estivesse.

Durante demasiados anos, o seguro viveu confortavelmente com “atalhos”. Uma morada, um código postal, um ponto genérico no mapa, foram aceites como representações suficientes do risco. Em Portugal, esta simplificação tornou‑se estrutural. Permitimos que o risco fosse agregado e nivelado por zonas administrativas, que pouco ou nada dizem sobre a exposição real ao fogo. Do ponto de vista operacional, foi eficiente. Do ponto de vista atuarial, foi uma simplificação. Do ponto de vista do risco, foi ilusório.

No incêndio, a geolocalização não é uma variável acessória. É a principal determinante da frequência esperada e, sobretudo, da severidade condicional. Poucos metros podem separar uma construção resiliente de outra exposta diretamente à continuidade da carga combustível. A relação com a mancha florestal, o uso do solo envolvente, a topografia, a existência de acessos para meios de combate e a fragmentação do território moldam a função de perdas de forma decisiva. Ignorar esta granularidade equivale a assumir que a exposição é homogénea, quando ela é estruturalmente assimétrica.

É aqui que a questão deixa de ser tecnológica e passa a ser conceptual. O que significa falar de risco segurável quando a variável mais explicativa da perda está mal medida? Nenhum modelo atuarial é robusto, se o principal fator explicativo estiver enviesado. E, no entanto, continuamos a aceitar que riscos com perfis claramente distintos partilhem fatores territoriais idênticos, como se o espaço fosse neutro e o fogo indiferente à geografia.

Esta fragilidade torna‑se ainda mais evidente nas propriedades rurais e florestais. O sistema de tarifação atual trata hectares como unidades equivalentes, quando representam realidades de risco profundamente diferentes. Terrenos lavrados, contínuos e com investimento regular em prevenção são tarifados de forma semelhante a terrenos abandonados, compartimentados e com carga combustível. Em termos atuariais, isto não é mutualização de riscos. É incentivo à anti‑seleção e ao risco moral.

Ao manter uma tarifação indiferenciada, o seguro abdica do seu papel mais poderoso. A cobertura de incêndio e outros danos continua excessivamente ancorada numa lógica ex post. O sinistro ocorre, a provisão técnica líquida de resseguro responde, o capital absorve o excesso do choque. Mas o seguro não é apenas um mecanismo de pagamento de perdas. É um instrumento económico de sinalização de risco. A tarifa, mais do que qualquer campanha de sensibilização, tem a capacidade de alterar comportamentos e deslocar decisões.

Uma tarifação baseada em geolocalização rigorosa não serve apenas para melhorar o rácio de sinistralidade esperado. Serve para alinhar incentivos ao longo da cadeia de valor da prevenção. Serve para traduzir investimento em limpeza, em descontinuidade de carga combustível e em gestão ativa do território numa redução mensurável de risco. Serve para deslocar a fronteira eficiente dos riscos em carteira. Quando o prémio reflete a exposição real, o tomador recebe uma mensagem clara e quantificável. Este comportamento reduz o risco e o prémio reflete essa redução.

Portugal é particularmente vulnerável à persistência do modelo atual. O risco de incêndio é cada vez mais concentrado espacialmente e mais correlacionado temporalmente. Os benefícios clássicos da diversificação são limitados. Isso aproxima este risco de uma natureza catastrófica. Continuar a tarifá‑lo com modelos excessivamente agregados é comprometer a estabilidade técnica das carteiras e reforçar a dependência de anos benignos (cada vez menos frequentes) para aparentar equilíbrio no médio prazo.

A tecnologia para fazer diferente já existe. Existem dados sobre ocupação do solo, informação sobre implantação real dos edifícios e capacidade analítica para trabalhar com múltiplos níveis de exposição.

O verdadeiro bloqueio é cultural. Exige aceitar que o prémio tem de refletir o risco real, mesmo quando isso o torna desconfortável. Exige aceitar uma subscrição de risco mais exigente. Exige aceitar uma explicação ao cliente menos simples.

À medida que o capital se torna mais sensível ao risco climático e o resseguro mais seletivo, a geolocalização deixará de ser uma vantagem competitiva para se tornar um requisito mínimo de boa subscrição. Quem continuar a tratá‑la como um detalhe operacional arrisca construir carteiras estruturalmente frágeis, excessivamente voláteis e mal preparadas para choques catastróficos sucessivos.

Se o setor segurador não estiver disposto a usar a tarifa de incêndio como instrumento ativo de prevenção, então terá de aceitar que está apenas a financiar a próxima época de fogos e não a gerir o risco que diz segurar.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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