Quando o consumo começa a falar outras línguas

  • Pedro Pimentel
  • 25 Março 2026

O mercado português já não é apenas o mercado de “dez milhões de portugueses”. É um mercado mais plural, culturalmente mais diverso e economicamente mais dinâmico.

O mercado português está a transformar-se silenciosamente. Nas estatísticas demográficas ou nos debates políticos, mas, acima de tudo, no lugar onde as mudanças económicas se tornam mais visíveis: o consumo. Nas prateleiras dos supermercados, nas cozinhas das famílias e nos carrinhos de compras começa a surgir um novo retrato do país: mais jovem, mais diverso e culturalmente híbrido. A imigração, muitas vezes discutida apenas como fenómeno social ou laboral, está a tornar-se também uma das forças mais relevantes na redefinição do consumo em Portugal.

Portugal está a mudar. E essa mudança já é visível na forma como o país consome. Hoje estima-se que cerca de 1,6 milhões de estrangeiros vivam em Portugal — aproximadamente 15% da população residente. Um número que quadruplicou em poucos anos e que, para além da dimensão demográfica, tem um impacto económico cada vez mais evidente.

Num país marcado por décadas de baixa natalidade e envelhecimento acelerado, esta nova base populacional introduz algo que a economia portuguesa não experimentava há muito tempo: crescimento orgânico da procura. Sem imigração, o consumo em Portugal cresceria menos, envelheceria mais rapidamente e seria estruturalmente mais frágil.

Mas reduzir este fenómeno a uma simples soma de novos consumidores seria uma leitura curta. O que está em curso é uma mudança estrutural no perfil do consumidor.

O consumidor médio em Portugal está a tornar-se mais jovem, mais urbano, mais diverso e culturalmente plural. Traz consigo hábitos, referências e expectativas diferentes, que progressivamente se cruzam com os do país de acolhimento. E dessa interação nasce um novo tipo de consumo, mais híbrido, mais complexo e menos previsível.

Uma das expressões mais claras deste fenómeno são os chamados “carrinhos biculturais”. Muitos destes consumidores integram gradualmente hábitos portugueses, mas mantêm uma ligação forte aos sabores, produtos e referências culturais do país de origem. Não se trata de substituição cultural, mas de acumulação civilizacional.

Tal como os portugueses emigrados no estrangeiro continuam a procurar produtos nacionais, também muitos destes novos residentes mantêm uma relação regular com produtos do seu país de origem. O resultado é um mercado onde marcas nacionais, produtos internacionais e referências culturais antes pouco presentes passam a coexistir.

E não muda apenas o que se consome. Muda substancialmente como se consome.

Nas fases iniciais da integração, os padrões de compra tendem a ser diferentes. Há geralmente maior atenção à gestão do orçamento, maior sensibilidade ao preço e menor familiaridade com marcas ou programas de fidelização. A relação com o sistema de consumo é mais cautelosa.

Com o tempo, essa relação evolui. À medida que aumenta a estabilidade, o rendimento e o sentimento de pertença, os padrões de consumo aproximam-se gradualmente dos do restante mercado. O tempo – ou, melhor, o ciclo de integração – torna-se assim uma variável central para compreender este novo consumidor.

Perante esta realidade, há três erros frequentes que empresas, marcas e retalhistas devem evitar.

O primeiro é tratar “os imigrantes” como um grupo homogéneo. Não são. Existem comunidades com níveis de rendimento, graus de integração e referências culturais muito distintos. A diversidade interna é enorme e qualquer leitura simplista tende a falhar.

O segundo é assumir que se trata de um fenómeno temporário. Não é. Esta população está a criar raízes, a formar famílias, a abrir negócios e a construir futuro. Uma parte significativa dos bebés nascidos em Portugal já tem mães estrangeiras, o que significa que esta transformação é também geracional.

O terceiro é subestimar o peso económico que esta nova base de consumidores já representa. Em várias categorias de grande consumo, os lares de imigrantes são hoje uma parcela relevante do crescimento do mercado.

Para a indústria e para o retalho, esta transformação não é apenas um desafio. É também uma oportunidade.

A primeira é evidente: crescimento. Num contexto em que a demografia nacional limitava a expansão do mercado, a imigração introduz um reforço de procura: mais lares, lares mais numerosos, mais rotinas de consumo e maior renovação geracional.

A segunda oportunidade é inovação. Novos ingredientes, novos sabores, novos rituais alimentares e novas ocasiões de consumo ampliam o universo de referências disponíveis no mercado. Essa diversidade cultural não fica confinada às comunidades de origem, tendendo a difundir-se e a influenciar progressivamente o consumo da população em geral.

E existe ainda uma terceira dimensão frequentemente subestimada: a do empreendedorismo. Muitos destes novos residentes criam os seus próprios negócios, abrindo restaurantes, lojas especializadas ou serviços locais. Isso gera novas redes económicas e novos pontos de contacto com o consumo.

Tudo isto está a acontecer de forma relativamente silenciosa. Sem grandes anúncios ou ruturas aparentes, mas com um impacto cumulativo significativo. O mercado português já não é apenas o mercado de “dez milhões de portugueses”. É um mercado mais plural, culturalmente mais diverso e economicamente mais dinâmico.

Perante esta realidade, as empresas têm dois caminhos. Podem continuar a olhar para o consumidor português através das lentes do passado, mantendo as mesmas segmentações, os mesmos pressupostos e os mesmos modelos mentais. Ou podem reconhecer que o país mudou e que essa mudança está a redefinir o futuro do consumo.

Porque a questão já não é se a imigração vai transformar o mercado português. A transformação já começou. A verdadeira diferença estará entre quem a reconhece a tempo e quem só dará por ela quando o mercado já falar, definitivamente, com outro sotaque.

  • Pedro Pimentel
  • Diretor-geral da Centromarca

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