Quando o corpo comunica o que a mente tende a ignorar
Quantas decisões poderiam ter um impacto maior se tivéssemos criado espaço para refletir? Frequentemente confundida com incapacidade, a pausa pode ser um momento de grande aprendizagem.
Ao longo do meu percurso como corredor nunca imaginei que uma rotura parcial do tendão pudesse ensinar-me uma lição de vida. Bastaram umas semanas sem correr para perceber que podemos encontrar na pausa as respostas que fomos impedidos de ver pela velocidade.
A sociedade em que vivemos valoriza o movimento e ritmo constantes. No trabalho, somos avaliados pela rapidez com que respondemos, pela capacidade de fazer mais e pela disponibilidade permanente. No desporto é exatamente a mesma avaliação. Procuramos bater recordes pessoais, aumentar a distância/quilometragem e alcançar novos objetivos. Tudo muito bem organizado, até ao dia em que o corpo decide dizer “basta” e fazer o reset.
As estatísticas mostram que esta realidade está longe de ser excecional. De acordo com um estudo publicado recentemente na revista Sports Medicine, entre 20% e 40% dos corredores recreativos/amadores sofrem anualmente, pelo menos uma lesão relacionada com a prática da corrida. A percentagem pode alcançar e até ultrapassar os 50% para aqueles que se preparam para provas de longa distância, como maratonas e meias.
Paradoxalmente, aquilo que para muitos pode ser encarado como um contratempo faz parte do processo. A diferença não é entre quem se lesiona e nunca se lesiona, mas entre aqueles que aprendem com a recuperação e aqueles que insistem em ignorar sinais.
Uma lesão obriga-nos a parar, o que raramente fazemos por iniciativa própria. Para quem vive em velocidade cruzeiro como é o caso dos consultores de comunicação como eu, parar, pode representar um enorme desafio.
O nosso impulso é procurar uma solução imediata, acelerar a recuperação e regressar, assim que possível, à atividade. Uma boa recuperação exige tempo e não atalhos. Ignorar este facto pode prolongar o problema.
Esta lição aplica-se também ao universo profissional. Quantas vezes insistimos em manter o ritmo acelerado e os sinais indicam que precisamos ajustar prioridades? Quantas decisões poderiam ter um impacto maior se tivéssemos criado espaço para refletir antes de agir? Frequentemente confundida com incapacidade, a pausa pode ser um momento de grande aprendizagem.
Rafael Nadal, um dos maiores tenistas de sempre, construiu parte da sua carreira entre vitórias e sucessivos períodos de recuperação. As lesões obrigaram-no a redefinir objetivos, adaptar métodos de treino e, a cada regresso, estar mais preparado. Nunca encarando a recuperação como um desvio do caminho, mas parte integrante deste. É uma lição que ultrapassa o desporto e pode aplicar-se a qualquer profissional confrontado com um momento de paragem inesperado.
A recuperação ensina-nos ainda a competência essencial que é a de confiar no processo. Não existem melhorias significativas de um dia para o outro. Existem pequenos progressos através da consistência e disciplina. O mesmo acontece na evolução profissional. Os resultados mais sólidos raramente resultam de um único evento extraordinário, sendo consequência de uma disciplina silenciosa. Talvez seja uma das mensagens mais importantes que uma lesão nos pode transmitir. Parar não é desistir, significa preparar o regresso mais consciente, forte e inteligente.
Como é do senso comum, na comunicação, como na corrida, existe a tentação de responder imediatamente. A experiência serve para nos ensinar que as boas decisões, na mesma proporção que uma boa recuperação, raramente acontecem à velocidade que gostaríamos.
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