Quando o problema nas empresas deixa de ser o absentismo e passa a ser o presentismo

  • Elisabete Braga
  • 1 Julho 2026

Há um fenómeno muito mais difícil de detetar e, potencialmente mais caro: pessoas que continuam presentes, mas não estão verdadeiramente em condições de trabalhar bem.

Durante anos, as empresas habituaram-se a medir um problema de forma simples: quem faltava ao trabalho.

Mas há um fenómeno muito mais difícil de detetar e, potencialmente mais caro, que continua a passar despercebido dentro de muitas organizações: pessoas que continuam presentes, mas já não estão verdadeiramente em condições de trabalhar bem. Estão nas reuniões, respondem a emails, cumprem horários e aparecem online. Mas fazem-no cansadas, com dor, sem foco, emocionalmente desgastadas ou em esforço contínuo para manter o ritmo. A isto chama-se presentismo.

E o presentismo está a tornar-se um dos custos mais silenciosos das empresas modernas.

Durante anos, habituámo-nos a olhar para a saúde no trabalho quase exclusivamente através do absentismo. Quem faltava entrava nos relatórios, nas métricas, e nas preocupações da gestão. Quem continuava presente desaparecia da equação, mesmo quando já não conseguia ter a mesma clareza e energia para produzir, colaborar ou decidir com qualidade.

O problema é que a presença física deixou de ser um indicador fiável de produtividade. É aí que começa o custo invisível.

O presentismo é menos óbvio do que o absentismo e, por isso mesmo, mais fácil de normalizar, não interrompe operações de forma evidente. Não gera uma ausência imediata. Não obriga a uma substituição. Não gera alarmes automáticos. Mas instala-se de forma gradual nas equipas: mais erros, mais lentidão, menor capacidade de decisão, menos criatividade, menos colaboração e maior desgaste coletivo, prolongando problemas que poderiam ter sido prevenidos.

Em muitos casos, o colaborador continua a “cumprir”, mas já não está a render ao mesmo nível e essa diferença entre estar presente e estar realmente apto tem um impacto enorme, ainda que raramente apareça nas folhas de Excel. É hoje um dos custos mais silenciosos no mundo do trabalho.

Os dados ajudam a perceber a dimensão do problema. Um estudo do think tank britânico IPPR concluiu que, no Reino Unido, os trabalhadores perdem, em média, o equivalente a 44 dias de produtividade por ano por continuarem a trabalhar estando mal ou sem condições ideais, contra 6,7 dias perdidos por absentismo. O sinal é claro: uma parte importante do impacto da saúde no trabalho já não está na ausência, mas na presença sem capacidade plena.

O presentismo pode resultar de fadiga acumulada, desconforto músculo-esquelético, stress persistente, ansiedade, dificuldade em desligar ou receio de parecer de falhar. Nem sempre conduz imediatamente a uma baixa médica, mas muitas vezes manifesta-se primeiro de forma silenciosa: decisões mais lentas, menor atenção ao detalhe, mais irritabilidade, menor capacidade de discernimento e de adaptação e uma sensação constante de desgaste, que de forma prolongada significam menor produtividade, mais erro e maior fragilidade das equipas.

É precisamente por isso que este tema deixou de ser apenas uma questão de saúde ocupacional. É hoje um tema de gestão, competitividade e sustentabilidade das equipas.

Num momento em que tantas organizações falam de performance, retenção e produtividade, vale a pena fazer uma pergunta simples: de que serve ter pessoas presentes, se já não estão em condições de dar o seu melhor? A resposta está nos erros evitáveis, no tempo perdido, nas equipas menos ágeis, nas decisões adiadas e no agravamento de problemas que poderiam ter sido evitados.

As empresas aprenderam a medir quem falta. O próximo desafio é aprender a identificar quem continua presente, mas já está em esforço permanente.

Isso exige uma mudança de mentalidade. Exige passar de uma lógica reativa para uma lógica preventiva. Exige integrar saúde física, bem-estar emocional e contexto de trabalho. E exige aceitar que simplificar o acesso à saúde não é um detalhe operacional: é uma condição para prevenir mais cedo, cuidar melhor e proteger a capacidade produtiva das equipas.

Porque no futuro do trabalho, a vantagem competitiva não estará nas empresas que conseguem ter pessoas sempre disponíveis. Estará nas empresas que conseguem manter pessoas verdadeiramente capazes.

Porque cuidar da saúde das pessoas de forma preventiva é verdadeiramente gestão inteligente.

  • Elisabete Braga
  • Psicóloga e Diretora Geral da PreviSaúde

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