Quando Sócrates ainda acha que Portugal lhe deve desculpas
Mesmo depois de anos de desgaste público, Sócrates continua a falar com aquele tom de quem acredita estar acima de todos os outros: acima dos juízes, acima dos procuradores e acima do país.
Há qualquer coisa de profundamente decadente no espetáculo que se montou em torno da Operação Marquês. E não, não é apenas a lentidão obscena da Justiça portuguesa, nem o desfile interminável de recursos, incidentes, renúncias e interrupções. É mesmo a forma como José Sócrates continua a transformar um julgamento num palco pessoal, onde tudo gira à volta da sua narrativa de perseguição, martírio e superioridade moral.
A polémica recente com o bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, é apenas mais um episódio dessa estratégia. Depois de sucessivas mudanças de advogados e da necessidade de nomeações oficiosas para garantir que o julgamento não colapse por completo, Sócrates decidiu atacar a Ordem dos Advogados, insinuando manipulações, “subserviência” e até a criação de uma espécie de justiça de exceção contra si. O problema é que, a esta altura, já quase ninguém consegue levar esse discurso a sério.
Há mais de uma década que o antigo primeiro-ministro tenta convencer o país de que não está a ser julgado por suspeitas graves de corrupção, branqueamento e fraude fiscal, mas sim perseguido por forças obscuras que não suportaram a sua brilhante carreira política. A tática é sempre a mesma: quando os factos apertam, cria-se ruído. Quando o processo avança, inventa-se um escândalo paralelo. Quando a Justiça tenta andar, levanta-se uma guerra institucional.
E entretanto o país assiste, incrédulo, a um processo que parece nunca acabar. Advogados entram e saem. Sessões são adiadas. Crimes aproximam-se da prescrição. A confiança na Justiça vai sendo triturada aos poucos. E Sócrates continua a falar como se fosse a vítima principal desta história.
João Massano percebeu uma evidência básica: o sistema não pode ficar refém de expedientes sucessivos num megaprocesso desta dimensão. A Ordem dos Advogados tem a obrigação de garantir defesa aos arguidos, claro. Mas também não pode permitir que a figura do advogado oficioso seja transformada numa peça descartável de uma estratégia de desgaste permanente.
Porque é disso que se trata. Não estamos perante um cidadão comum esmagado por um sistema injusto. Estamos perante alguém que conhece o aparelho judicial, domina a comunicação política e sabe perfeitamente como explorar cada fragilidade processual até ao limite. O mais impressionante é a arrogância intacta. Mesmo depois de anos de desgaste público, José Sócrates continua a falar com aquele tom de quem acredita sinceramente estar acima de todos os outros: acima dos juízes, acima dos procuradores, acima da Ordem dos Advogados e, no fundo, acima do próprio país.
Talvez seja isso que mais irrite os portugueses. Não é apenas a demora da Justiça. É a sensação de impunidade permanente. A ideia de que há figuras que conseguem eternamente transformar a lei num labirinto sem saída. E enquanto isso acontece, o cidadão comum olha para tudo isto e conclui o óbvio: em Portugal, a Justiça pode até chegar tarde. Mas para alguns, parece nunca chegar.
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