Quando um passo atrás é, na verdade, um passo em frente

  • Joana Saldanha
  • 26 Agosto 2026

Porque quando talento, motivação e escolha se encontram, a sobrequalificação deixa de ser um problema. Passa a ser uma vantagem competitiva.

“Este candidato é demasiado qualificado para a função.” Poucas expressões dizem tanto sobre a forma como as empresas encaram o talento. Embora seja uma preocupação comum no recrutamento, muitas vezes esconde um pressuposto discutível: o de que alguém com mais competências ou experiência do que a função exige será inevitavelmente um problema.

Na maioria dos casos, o receio é conhecido. A empresa teme que a pessoa saia rapidamente, procure crescer mais depressa do que a organização consegue acompanhar, face à função e/ou estrutura organizacional, ou acabe frustrada pela dimensão do desafio. Mas experiência não significa necessariamente ambição desmedida. Significa, por vezes, apenas prioridades diferentes.

Há profissionais que procuram funções com menor pressão/responsabilidade, um ambiente mais alinhado com os seus valores, maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal ou simplesmente um novo começo. As carreiras deixaram de seguir percursos lineares. Hoje são feitas de mudanças, pausas, reinvenções e escolhas conscientes.

Por isso, quando um candidato experiente demonstra interesse genuíno por uma oportunidade, a questão não deveria ser apenas “Porque se está a candidatar?”, mas também “Estamos a compreender as suas motivações?”.

A sobrequalificação raramente é o verdadeiro desafio. O desafio é garantir transparência. Se a função tem um âmbito fechado, poucas perspetivas de evolução ou uma estrutura menos complexa, isso deve ser comunicado claramente. Profissionais experientes sabem avaliar o impacto das suas decisões. Quando avançam, fazem-no de forma ponderada e consciente.

E é precisamente essa intenção que merece ser valorizada. Um profissional que conhece outras realidades e, ainda assim, escolhe determinado projeto está a fazê-lo sabendo o que ganha e o que abdica. Essa escolha tem significado.

Além disso, a permanência numa organização não depende apenas da complexidade técnica da função. As pessoas permanecem onde se sentem valorizadas, respeitadas e alinhadas com aquilo que procuram naquela fase da vida.

Talvez esteja na altura de deixar de olhar para a sobrequalificação como um risco automático. Em muitos casos, representa maturidade, capacidade de escolha e vontade genuína de contribuir.

No fundo, a pergunta não deveria ser: “Esta pessoa é demasiado qualificada para a função?” Mas antes: “Estamos a ser suficientemente transparentes sobre o projeto e confiantes na capacidade de decisão de quem escolheu candidatar-se?”

Porque quando talento, motivação e escolha se encontram, a sobrequalificação deixa de ser um problema. Passa a ser uma vantagem competitiva.

  • Joana Saldanha
  • Senior consultant na área de insurance da Michael Page

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