Que segurança e saúde no trabalho na era da IA?

  • Cristina Romariz
  • 28 Abril 2026

Que tipo de trabalho está a IA a produzir, nomeadamente em que condições e com que efeitos sobre o bem-estar dos trabalhadores? Estará a IA a gerar ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis?

O debate público sobre a inteligência artificial (IA) tem sido dominado por uma pergunta quase obsessiva: quantos postos de trabalho vão desaparecer? A quantidade de postos de trabalho tem sido o principal critério para avaliar o impacto da IA no contexto laboral, o que reduz, muitas vezes, a discussão a uma contabilidade simplista entre empregos destruídos e empregos criados. Embora essa preocupação seja (mais do que) legítima, é igualmente essencial preservar a outra metade da questão: qual é a qualidade do trabalho do futuro?

A 28 de abril assinala-se o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, uma data que convida, precisamente, a recentrar o debate naquilo que tantas vezes fica à margem do entusiasmo tecnológico: as condições reais de quem trabalha. Importa, pois, perguntar: que tipo de trabalho está a IA a produzir, nomeadamente em que condições e com que efeitos sobre o bem-estar dos trabalhadores? Estará a IA a gerar ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis?

A introdução de ferramentas de IA representa uma oportunidade relevante para reforçar a segurança e a saúde no trabalho. Com efeito, esta tecnologia pode desempenhar um papel decisivo na identificação precoce de situações perigosas, na monitorização e na adaptação das condições de trabalho e na antecipação de falhas suscetíveis de provocar acidentes de trabalho. Ao permitir uma análise rápida e precisa de grandes volumes de dados, a IA pode ajudar os empregadores e, em particular, as equipas de prevenção de riscos laborais, a adotar medidas mais informadas, direcionadas e eficazes.

Ao mesmo tempo, a automação e a introdução de sistemas inteligentes podem contribuir para retirar trabalhadores de tarefas particularmente penosas, repetitivas ou perigosas, uma vez que reduzem a probabilidade de acidentes e de doenças profissionais e promovem, assim, melhores condições de trabalho. A segurança e saúde no trabalho na era digital é, sem surpresas, cada vez mais tecnológica. Atualmente, as empresas já recorrem a dispositivos vestíveis e a robots colaborativos (designados de “cobots”), a análises preditivas e à monitorização em tempo real.

Claro está que a inovação, por si só, não garante maior proteção, mas, quando colocada ao serviço da prevenção, pode constituir um avanço real na construção de ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis.

Não obstante o enorme potencial da tecnologia – e, em particular, da IA – para reforçar a segurança e a saúde no trabalho, também é certo que esta utilização cria riscos e pode acentuar outros já existentes. Ambientes laborais profundamente marcados pela digitalização e pela automação são terreno fértil para o surgimento destes riscos, que tendem a assumir uma natureza marcadamente psicossocial.

Estamos a falar de situações como a sobrecarga cognitiva decorrente da utilização intensiva de ferramentas de IA; a ansiedade perante a monitorização algorítmica; a sensação de desadaptação tecnológica que gera uma perda de autoestima profissional e tensão no trabalho; o isolamento social (a automatização excessiva pode reduzir a interação humana e afetar a dinâmica entre trabalhadores); a falta de autonomia ou de controlo; a pressão por resultados; entre outros. Aos novos riscos psicossociais acresce a exposição a riscos físicos, designadamente problemas ergonómicos e visuais resultantes de longos períodos passados diante de ecrãs e outros dispositivos.

Na perspetiva da prevenção de riscos laborais, o empregador tem o dever de identificar e avaliar todos os riscos, incluindo os novos riscos psicossociais, entre os quais se incluem a fadiga digital ou o tecno-stresse. As empresas devem, por isso, integrar estes fatores emergentes nas avaliações de riscos já existentes. Em termos práticos, impõe-se a atualização dos protocolos de avaliação de riscos, de modo a incluir expressamente o impacto das ferramentas de IA e de outras tecnologias, bem como dar formação adequada aos trabalhadores para lidar com estes novos riscos.

Voltamos ao início. O verdadeiro teste da transformação digital não está (apenas) em saber quantos empregos subsistem, mas em avaliar se os empregos que permanecem – ou os que surgem – são mais seguros, mais dignos e mais compatíveis com a saúde física e mental dos trabalhadores.

  • Cristina Romariz
  • Advogada da Cuatrecasas

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