Editorial

Rio ganhou o debate, mas o que está em causa é uma eleição

Rui Rio ganhou o debate com António Costa, mas o que está em causa é outra coisa, é uma eleição. E o líder do PS comportou-se como aqueles pugilistas que se agarram ao adversário para ganhar tempo.

No debate que poderia decidir tudo, ou melhor, mudar o que as sondagens antecipam, António Costa disse aos jornalistas no final, já na rua, que os eleitores decidirão no dia 6 de outubro. A frase, aparentemente anódina, diz mais do que parece. Costa quis defender a sua posição, confortável, e sabia que Rio tinha ali a sua última oportunidade, por isso só lhe interessava que o “jogo” terminasse depressa. Rio ganhou, sim, surpreendeu, até, e dentro de três semanas se saberá se foi mesmo este o momento em que Costa, mau candidato como em 2015, perdeu a maioria absoluta.

O debate entre António Costa e Rui Rio era muito mais importante para o segundo do que para o primeiro. Na forma e na substância, porque Costa continua a fazer de conta que a maioria absoluta é irrelevante (Mário Centeno, mais do que ninguém, sabe que não), porque está claramente à frente, enquanto Rio arrisca ter o pior resultado de sempre do PSD (e não, não é culpa das sondagens). Por isso, Costa foi para este debate televisivo defensivo, até preocupado. Foi transmitido nos três canais, em sinal aberto, num país em que o chamado “povo”, aquele que decide eleições, continua a decidir muito pelo que vê no tradicional ecrã.

Rio entrou bem e desmontou, como poucas vezes se viu, a teoria das contas certas (equilibradas, escrevi aqui várias vezes), as contas conjunturais e os sinais de alerta, no défice externo por exemplo. Costa não quis verdadeiramente responder, porque queria manter o debate morno. Usou até de alguma superioridade, um paternalismo deslocado por causa do que dizem as sondagens. Mas deu-se mal. Nas contas certas, na enorme carga fiscal, nos serviços públicos. E durante mais de uma hora, só mesmo o tema do aeroporto do montijo e as contradições do PSD puseram Rio à defesa. E mesmo na justiça, o único momento em que Rio deixou falar o coração, Costa só conseguiu balbuciar uma defesa do Ministério Público (porque Rio dá a ideia de que se irrita mais com as fugas de informação do que com os crimes, eles próprios).

É claro que Rio continua a padecer de um problema de fundo: Para o eleitor médio que o líder do PSD precisava de convencer, não há diferenças de fundo entre os dois, e Rio nem sequer foi capaz de dizer que os acordos que assinou com o PS foram um desastre… para o próprio PSD. Rio precisava de marcar uma diferença face ao passado, mas sobretudo face ao futuro. Mas Costa comportou-se como aqueles pugilistas que não querem combater e só tentam ganhar tempo agarrando-se ao adversário.

A partir de agora, será a vez da “rota da carne assada”, dos espetáculos para as televisões, sem contraditório, das festas e das produções partidárias para encher ruas e ruinhas, praças e pracetas. Salvaguardado um caso extraordinário que faça mudar o jogo, ninguém ficará mais bem informado do que está, ou não, hoje. Os indecisos, alguns, vão decidir-se no último dia, mas com o que já sabem neste dia 16 de setembro.

António Costa mostrou em 2015 que é um mau candidato. E até perdeu as eleições para Pedro Passos Coelho. Agora, com o vento favorável, volta a mostrar que é hábil na gestão política, e isto não é um elogio, mas não tem as mesmas competências em campanha.

Rio ganhou debate, mas o que está em causa é uma eleição. E tendo em conta o ponto de partida, Rio só saberá se este debate mudou alguma coisa, ou serviu para alguma coisa, no dia 6 de outubro à noite, se tirar a maioria absoluta ao PS. É o máximo a que Rio pode aspirar.

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