Quem tem medo do lobo mau?
Podemos vir a ser substituídos por máquinas, mas o grande exercício é impedirmos que a função também morra no turbilhão da mudança.
Fui jornalista num passado suficientemente remoto para ter saudade daquele tempo. Diz-se que não há ex-jornalistas, como não haverá ex-anões.
Naquele tempo a atividade era bem paga, o setor crescia, havia entusiasmo nas redações e uma competição saudável por mais um bife e uma cerveja no Snob. Éramos (mais) novos e sonhávamos com os grandes exclusivos, as mais bem escritas reportagens, as mais hilariantes ideias. Miguel Esteves Cardoso, Paulo Portas e Vasco Pulido Valente foram mestres e heróis de uma geração de jovens turcos em busca da sua reforma do mundo, muito convencidos de muitas coisas, algumas que o tempo confirmou e outras que o tempo desmentiu — como é normal nestas coisas da fé.
Vasco Pulido Valente foi um professor irrepetível: combinava uma enorme erudição com conhecimento do mundo real; tinha sido conselheiro do Príncipe (Sá Carneiro); escrevia como ninguém e tinha a independência a que apenas alguns deuses podiam ascender. Inspirava reverência e algum temor, mas ninguém levava a mal o estilo, porque Vasco Pulido Valente era único e nós conhecíamos a sorte que tínhamos por podermos constantemente aprender com um sábio que nos desconsiderava para nos estimular, mais do que para nos irritar (pelo menos era essa a nossa crença).
Nestes anos as redações mudaram muito. Ainda restam alguns estoicos, mas, tudo indica, em pouco tempo serão em boa parte substituídos por máquinas alimentadas a IA e o jornalismo, como muitas outras atividades, passará a ser uma coisa feita de modo diferente. O que nunca mudará é a função.
Boa parte das grandes mudanças tecnológicas alteram processos, mas não mudam a função da coisa. A famosa transformação “from horse power to horsepower” ilustra bem a história da passagem do carro a cavalo para o com motor de combustão. Lá está, mudou a tecnologia, mas não mudou o destino: transportar pessoas e bens. Nesse processo muitos cavalos ficaram desempregados, milhares de empresas de carros a cavalo morreram, e outras, como a Ford, nasceram.
No setor da comunicação corporativa — um primo mais velho — também se esperam (e já se notam bem) muitas mudanças. Mas o facto de um qualquer modelo de IA conseguir fazer textos para distribuição bem feitos não significa que o consultor seja dispensado (nem que tenha medo ou vergonha de assumir que quem produziu esse PR foi uma máquina). O exercício é pôr o dito consultor a ser melhor e estar mais bem preparado, precisamente porque tem a máquina que o ajuda.
Pedro Carvalho, professor e CEO da Generali, escreveu recentemente no “Observador”: “As transições nunca são distribuídas de forma uniforme. Os primeiros vencedores serão os que aprenderem a pensar com a IA, não através dela. Os que a tratam como parceiro intelectual, não como oráculo. Os que mantêm agência cognitiva em vez de a cederem.”.
Este é o desafio mais empolgante que as indústrias dos serviços têm de vencer antes que a disrupção destrua tudo o que existe — e, quem sabe, a própria função.
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