Reforma Laboral erro fatal

Se o país está dependente de Montenegro, Montenegro está refém de Ventura.

Montenegro é um Primeiro-Ministro de plástico. Ventura é mais a doença do que o remédio. O primeiro-ministro naquele estilo leve e sorridente não tem o perfil político para um Governo que tem de ser de confronto e não de consenso. No fracasso da reforma laboral fica visível a falta de estratégia política e a evidência de um exercício político puramente arrogante.

A arrogância é sinal de fraqueza, sobretudo quando a arrogância se apresenta com a autoridade académica da ministra do Trabalho. Como a política não se compadece com uma sala de aula, a autoridade académica sem autoridade política é a receita para o desastre. E o desastre está bem à vista dos portugueses. Nem Reforma Laboral nem consenso político à direita nem consenso político à esquerda, apenas a ingenuidade do Primeiro-Ministro e a incapacidade da Ministra. Nesta fase da discussão política em que tudo falha, sobra apenas a impotência de um Governo que não sabe como governar nem sonha como transformar o país. O Governo está no gabinete, mas o Governo não está no poder.

O chumbo no Parlamento da reforma laboral é a suprema humilhação do Governo. Não importa se a reforma era boa ou se era má. O Governo não soube gerir os mecanismos da negociação parlamentar nem gerar um mecanismo automático de garantias para retaliação política imediata. O Governo assiste à sua própria derrota com um silêncio que envergonha e com um sorriso que compromete. Perante os aplausos de uma esquerda em euforia jubilante, a derrota do Governo mais parece a vitória da República contra a ameaça da Ditadura. A minoria do Governo é cada vez mais absoluta pela incapacidade de um Primeiro-Ministro que pretende durar no gabinete, mas que parece que desiste de governar o país. O resultado é um país ingovernável, um país transformado num drama estático, onde os políticos propagam toda a demagogia política perante a nação que sofre de um autêntico bloqueio político. Não adianta afirmar que o país está polarizado entre um “bloco socialista” e um “bloco reformista” porque o que prevalece politicamente é o bloqueio realista. Portugal está a ser vítima de um boicote ao progresso protagonizado pela própria classe política.

O lema do Congresso do PSD tem alguma lógica perante este cenário desmoralizante. “Fazer Portugal Maior” não significa ‘Fazer Portugal Melhor’ porque a mensagem que passa para os portugueses nada tem a ver com a prosperidade e com a felicidade da nação. Fazer de Portugal um ‘Fracasso Maior’ parece ser a mais correcta interpretação política. E nesta marcha acelerada para o Fracasso haverá espaço político para se cumprir o tempo de uma legislatura?

Falta obviamente uma referência ao Chega. Ventura é mais a doença do que o remédio. Ventura é a figura típica do demagogo que pela manhã decide a agenda política do dia. No primeiro dia, Ventura sonha com o eleitorado sénior e propõe a redução da idade da reforma. Sem a redução da idade da reforma não há voto favorável à Reforma Laboral. No dia seguinte, Ventura decide que é um liberal e que está do lado do progresso dos trabalhadores, logo vota a favor da Reforma Laboral. No terceiro dia, Ventura quer captar o eleitorado de esquerda órfão dos direitos sociais e das soluções políticas progressistas e vota contra a Reforma Laboral. Ventura é um político que celebra um acordo com a sua imagem no espelho só para poder votar contra. Quando Ventura não confia em Ventura, quem pode confiar em Ventura?

Ventura é o bluff do Regime que a República teme. Os deputados do Chega são uma aberração à República, incapazes de mudar o Regime, incapazes de manter o Regime. Tudo começa por um teatro incompreensível de moralidade e insultos. Ventura lidera um partido feito de indecisões, de hesitações, de encenações, tudo para esconder o vazio político que circula nos decibéis parlamentares. Ventura é capaz de tudo porque na realidade não tem a coragem para nada. Ventura é capaz de tudo porque na realidade não tem as convicções para nada. A força do Chega é a fraqueza do Chega.

Todas as variações são ilegitimamente legítimas. Como leio algures e é o perfeito retrato de Ventura: “É como nas telenovelas: o que se passou ou o que se segue é indiferente. Uma coisa é certa: qualquer que seja o enredo, o homem não sai bem. Não consegue evitar acusações de comportamento errático e contraditório, de oscilação vagabunda de sentimentos, de fraqueza de carácter, de medo do combate político incerto e de indecisão sobre coisas essenciais. E não se livra de suspeitas de encenação e de politiquice melodramática, ou até de vaidade”.

Se o país está dependente de Montenegro, Montenegro está refém de Ventura. Com o PS em estágio para a próxima legislatura, o país está adiado pela farsa democrática de uma democracia vegetativa.

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