Resiliência climática e estabilidade económica: o papel dos seguros
Helena Chaves Anjos descreve como os riscos climáticos acabaram por se tornarem o grande condicionador da atividade seguradora em Portugal. E faz recomendações.
O recente comunicado do Banco de Portugal, no âmbito do Boletim Económico de março de 2026, confirma um cenário de crescimento moderado da economia portuguesa, com projeções de 1,8% para 2026, num contexto marcado por elevada incerteza geopolítica, pressões inflacionistas e choques climáticos cada vez mais frequentes. A revisão em baixa do crescimento deste ano, em 0,5 pontos percentuais, fica associada ao aumento dos preços energéticos e à deterioração das condições financeiras internacionais, acompanhada por um elemento adicional que ganha crescente relevância: o impacto de eventos meteorológicos extremos na atividade económica.
Contexto macroeconómico e climático
As tempestades recentes, que assolaram o centro do país, afetaram sobretudo os setores da agricultura, energia e transportes, introduziram perturbações de curto prazo na produção e contribuíram para pressões inflacionistas, ainda que com impacto macroeconómico global limitado. No entanto, a leitura institucional vai além do efeito imediato: reforça a necessidade de mecanismos de resiliência económica e de gestão eficaz de riscos climáticos.
Este enquadramento é consistente com o debate europeu liderado pelos supervisores centrais (EIOPA e BCE), que têm vindo a alertar para a crescente interdependência entre risco climático, estabilidade financeira e proteção socioeconómica. A evidência acumulada aponta para uma realidade inequívoca: os choques climáticos deixaram de ser eventos periféricos e passaram a integrar o núcleo da análise macroeconómica e prudencial. Um acontecimento com impacto direto e indireto estruturalmente relevante para o sistema financeiro e para a economia real.
Análise de impacto: tempestades, economia e proteção
A análise detalhada do impacto das tempestades recentes em Portugal permite identificar um padrão claro. Os efeitos económicos são reais, mensuráveis, mas frequentemente transitórios. O Banco de Portugal estima um impacto negativo no crescimento do PIB entre 0,1 e 0,3 pontos percentuais em 2026, podendo atingir valores superiores em cenários adversos. Estes choques manifestam-se através de perdas na produção agrícola, disrupções no setor energético e danos em infraestruturas críticas.
Contudo, a leitura mais relevante não reside apenas na magnitude do impacto, mas na sua natureza. Estudos empíricos, como o working paper anterior, Banco de Portugal, dezembro de 2025, sobre o impacto regional de choques meteorológicos, demonstra que estes eventos afetam o consumo das famílias e a atividade económica de forma diferenciada no território, com respostas heterogéneas entre regiões como a Área Metropolitana de Lisboa, o Norte e o Algarve. A volatilidade da precipitação, por exemplo, induz padrões de consumo oscilatórios, enquanto o risco de incêndio tem efeitos mais limitados e de curta duração.
Mais do que a intensidade do choque, destaca-se a capacidade de recuperação associada a cada tipo de perigo e variável económica: choques na precipitação tendem a gerar ajustamentos rápidos mas voláteis no consumo, enquanto riscos como incêndios ou temperaturas extremas produzem efeitos mais contidos e de curta duração. Este comportamento evidencia uma característica essencial: a capacidade de recuperação das famílias e empresas face a choques específicos, através de mecanismos de adaptação económica no curto prazo, ajustando consumo, investimento e poupança em função da natureza do risco. No entanto, essa capacidade não elimina o risco — apenas o redistribui ao longo do tempo e entre agentes económicos com implicações relevantes para a estabilidade e para a necessidade de instrumentos de proteção mais robustos.
É neste ponto que surge uma fragilidade estrutural: a insuficiência dos mecanismos tradicionais de seguro para absorver a complexidade e a magnitude dos riscos contemporâneos. A lógica clássica de mutualização, assente na independência dos riscos e na previsibilidade estatística, é progressivamente desafiada por eventos extremos caracterizados por elevada correlação sistémica e efeitos em cadeia.
Na União Europeia, apenas um quarto das perdas associadas a riscos climáticos estão cobertas por seguros. Esta lacuna de proteção tem implicações diretas, transferindo o ónus financeiro para famílias, empresas e, em última instância, para o Estado, amplificando os riscos fiscais e macroeconómicos. É possível concluir e retirar consequências nítidas: os choques são absorvíveis — mas não estão suficientemente segurados.
Visão prospetiva do risco estrutural e orientação estratégica
A crescente frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos colocam o setor segurador no centro de um dilema estratégico: como assegurar a sustentabilidade da oferta num contexto de risco crescente? e, simultaneamente, responder à necessidade de proteção económica e social?
O Banco Central Europeu, no seu recente working paper, de fevereiro 2026, sobre alterações climáticas e macroeconomia, demonstra que catástrofes naturais com impacto equivalente a 1% do PIB podem reduzir o crescimento económico em cerca de 0,2 pontos percentuais nesse mesmo trimestre. Mais relevante ainda é a conclusão de que níveis mais elevados de cobertura seguradora funcionam como amortecedores macroeconómicos, reduzindo a volatilidade da atividade e acelerando a recuperação pós catástrofe. Este resultado tem implicações profundas. O seguro deixa de ser apenas um instrumento de proteção individual e passa a desempenhar uma função sistémica de estabilização económica. No entanto, para cumprir esse papel, é necessário ultrapassar limitações estruturais da oferta atual.
Por um lado, a crescente correlação entre riscos — tempestades, incêndios, e secas — desafia os modelos tradicionais de pricing e gestão de capital. Por outro, a procura permanece limitada, seja por questões de literacia financeira, acessibilidade ou perceção de risco. Este desfasamento entre oferta e procura contribui para a persistência de lacunas de proteção significativas. Neste contexto, torna-se evidente a necessidade de
uma abordagem mais integrada, que combine instrumentos de mercado com mecanismos públicos e soluções inovadoras. A partilha de risco entre setores e regiões, o desenvolvimento de seguros paramétricos e a utilização de dados climáticos avançados são exemplos de caminhos possíveis.
Além da necessária adaptação incremental, está em causa a transformação estrutural do papel do setor segurador. Num cenário de transição climática, o seguro deve ser entendido como infraestrutura financeira crítica, essencial para a resiliência das economias e sociedades, enquanto instrumento privado complementar às políticas públicas de adaptação.
Neste caso, assume particular relevância o desenvolvimento de parcerias público-privadas, capazes de estruturar respostas eficazes a riscos de elevada severidade e correlação. Estas soluções exigem decisões urgentes e coordenadas, nas quais o setor segurador deve participar e aportar um valor distintivo no desenho dos mecanismos, na gestão técnica e financeira dos modelos e na capacidade de resposta pós catástrofe.
Encerramento e Recomendações
Perante este enquadramento, importa afirmar claramente: a gestão do risco climático não pode continuar a ser tratada como uma externalidade. Exige uma resposta coordenada, que envolva reguladores, supervisores, setor segurador e decisores públicos.
- Em primeiro lugar, é fundamental reforçar o enquadramento regulatório e prudencial, incorporando de forma sistemática os riscos físicos nas análises de solvência e estabilidade financeira. A integração de cenários climáticos nas avaliações macroprudenciais deve deixar de ser uma exceção e passar a constituír prática corrente.
- Em segundo lugar, é necessário promover a expansão da cobertura seguradora, através de incentivos à procura e à inovação na oferta. Tal implica melhorar a acessibilidade dos produtos e reforçar também a literacia financeira e a perceção de risco por parte dos consumidores.
- Em terceiro lugar, deve ser incentivada a criação de mecanismos de partilha de risco público-privados, capazes de lidar com eventos de grande escala e elevada correlação. Estes instrumentos são essenciais para garantir a sustentabilidade do sistema e evitar a transferência excessiva de risco para as finanças públicas.
Por fim, importa reconhecer o papel estratégico do setor segurador na transição climática. Mais do que um simples instrumento mitigador de perdas, o seguro deve afirmar-se como catalisador de investimento em resiliência, promovendo comportamentos preventivos e contribuindo para uma economia mais sustentável. A evidência é cristalina: os choques climáticos são inevitáveis, mas os seus impactos podem ser mitigados. É necessário, portanto, definir como atuar, com que instrumentos, com que nível de coordenação e com que ambição. Este tema afirma-se hoje como uma convocatória cívica, prioridade económica e política pública.
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