Resposta a Joana Bordalo e Sá

Por esta altura, já não estamos a discutir nada. Estamos a discutir espantalhos ou bonecos de palha. Todo o artigo é um belo exemplo da conhecida falácia da derrapagem.

Opiniões há muitas. Umas mais fundamentadas, outras mais descabeladas, outras cumprem apenas o propósito de nada querer dizer. Estou certo de que, ao longo deste ano e meio em que aqui tenho escrito, já estive de todos os lados. Dito isto, o que mais me irrita são aqueles atos de pura desinformação e demagogia que, sob a capa de um qualquer argumento de autoridade, se tentam mascarar de substância. Por vezes, é também nossa função apontar o dedo para esses exercícios.

Há dias, Joana Bordalo e Sá, sindicalista, apoiante do PCP e médica, creio que por esta ordem, decidiu brindar-nos com a sua opinião sobre a lei laboral. O texto, em si, é uma mescla. Há uma sucessão de chavões, direitos coartados e a ideia de que, com tais disrupções na vida dos profissionais, a consequência natural é menos produtividade e piores serviços. Daqui segue, logicamente, que a Lei Laboral, para além de todos estes efeitos nefastos, trará a todos os portugueses um pior serviço de saúde.

Por esta altura, já não estamos a discutir nada Estamos a discutir espantalhos ou bonecos de palha. Todo o artigo é um belo exemplo da conhecida falácia da derrapagem: de pequeno salto em pequeno salto acabamos com a sensação de que a rutura está à vista. É exatamente essa a ideia. No fim, o objetivo é o mesmo para todo os tipos de demagogos: inquinar a discussão. Levá-la para o nível do ridículo, disfarçando argumentos duvidosos de encadeamento lógico. Atentemos no seguinte exercício, que creio espelhar bem o texto:

Todos nos preocupamos com a exaustão laboral. A exaustão laboral é prejudicial e pode aumentar a probabilidade de erros profissionais. A lei laboral degrada as condições de trabalho e cria instabilidade, gerando desgaste. O desgaste no setor da saúde prejudica o paciente, quiçá leva a mortes. Logo, a lei laboral é responsável por deteriorar o estado de saúde do utente.

Proponho que levemos o argumento a sério, apesar de todos os saltos de fé. O argumento é replicável para qualquer profissão: professores, motoristas, lixeiros, etc. A ideia subjacente é: qualquer reforma que flexibilize o mercado de trabalho é responsável por piores hospitais, piores escolas, pior atendimento ao público, e podia continuar. Mas alguém acredita na correlação? Já nem falo na pretensa causalidade.

Há sempre um teste de realidade que gostava de propor a quem acredita neste tipo de farsas. Se somos um dos países da OCDE com lei laboral mais rígida, como é que será que os outros países se aguentam? Com certeza, os pacientes devem ser muito mais mal atendidos, com mais tempos de espera nos hospitais ou piores índices de satisfação. Ou talvez não. Talvez não haja relação.

Só entram no domínio do medo os populistas e os desesperados. Aqui, vemos um misto dos dois. Contudo, não é muito diferente daquilo a que assistimos em muita opinião publicada. A discussão, estruturalmente pouco informada e baseada em preconceitos, estava, desde o início, condenada. Condenada porque se instalou a ideia de que qualquer flexibilização só pode resultar da vontade deliberada de prejudicar os trabalhadores. Logo, da vontade de más pessoas. Esta moralização, característica de ambos os extremos, prejudica qualquer discussão.

Teria sido tão mais interessante que tivéssemos ouvido especialistas em economia do trabalho falar sobre o tema. A favor e contra, há para todos os gostos. Contudo, não sei porquê, a Economia é como o futebol, todos achamos que sabemos o suficiente para sermos treinadores de bancada. Com a diferença de que no futebol, não ouvimos comentadores que não sabem o que é o fora de jogo.

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