Ressaca financeira do verão: o regresso à realidade e o momento de rever subscrições
As férias terminam, mas permanecem as prestações, o saldo do cartão de crédito e as despesas de setembro, agravadas pelo início do ano letivo. A contabilidade oferece dois instrumentos simples.
Notícias recentes, baseadas em dados do Eurostat, indicam que cerca de um em cada três portugueses não conseguem pagar uma semana de férias fora de casa. Quando o orçamento familiar não comporta esta despesa, o crédito é a forma de assegurar o merecido descanso para muitas famílias. O problema surge no regresso: as férias terminam, mas permanecem as prestações, o saldo do cartão de crédito e as despesas de setembro, agravadas pelo início do ano letivo.
Para evitar uma ressaca dolorosa com o aumento dos gastos, o fim de férias deve ser acompanhado por um regresso à realidade financeira. A literatura sobre literacia financeira associa a capacidade de planear, compreender os juros e avaliar o risco a melhores decisões de poupança e endividamento. O primeiro passo é, por isso, conhecer a verdadeira posição financeira da família.
A contabilidade oferece dois instrumentos simples. O primeiro é uma “fotografia” do património (dinheiro disponível, poupanças, bens que podem ser vendidos e todas as dívidas existentes). O segundo é uma previsão de tesouraria para os meses seguintes, confrontando rendimentos com pagamentos previstos. Importa registar não apenas as despesas mensais, mas também as prestações das férias, o saldo dos cartões e outras despesas assumidas. Ignorar os números não reduz a dívida, apenas adia as decisões, normalmente agravando-as com juros, por isso quanto mais cedo for tomado o primeiro passo, melhor.
Na construção de um orçamento realista, as despesas devem ser classificadas entre necessárias e dispensáveis, mas também entre fixas e variáveis. Esta distinção permite identificar a rigidez do orçamento. Por exemplo, uma subscrição pouco utilizada pode parecer insignificante, mas as várias mensalidades acumuladas dessa subscrição reduzem todos os meses a margem disponível para enfrentar imprevistos. O regresso das férias, é, por isso, o momento indicado para rever mensalidades, subscrições e serviços que, com o hábito, se tornaram invisíveis, mas continuam a sair da conta todos os meses.
Perante recursos limitados, é necessário estabelecer prioridades: habitação, alimentação, energia, saúde, transportes e educação devem ser protegidos. Nas despesas escolares, deve-se fazer o inventário do material existente, reutilizar, comparar preços e distribuir as compras ao longo de várias semanas. Desta forma, evita-se transformar setembro num ‘segundo mês de férias’ no que diz respeito ao esforço financeiro.
Depois das despesas essenciais, deve dar-se prioridade à dívida mais cara. No crédito, o indicador relevante não é apenas a prestação mensal, mas a TAEG e o montante total a pagar. Sempre que possível, deve-se pagar acima do mínimo do cartão para reduzir o período de endividamento e os juros suportados. Uma prestação mais baixa, conseguida através do prolongamento do prazo, por exemplo, pode aliviar o mês atual, mas encarece significativamente a dívida. Se existir risco de incumprimento, o contacto com a instituição financeira deve ocorrer antes do atraso no pagamento e deve ser feita uma negociação das condições do crédito.
A reorganização financeira deve envolver a família, sem transferir ansiedade para as crianças. As conversas sobre escolhas, limites definição de metas e diferença entre necessidades e desejos devem ser adequadas à idade e podem, efetivamente, transformar o regresso às aulas numa oportunidade de literacia financeira.
Vender roupa, equipamentos ou outros bens sem utilização pode igualmente libertar espaço e gerar liquidez. Os mercados de segunda mão permitem, ao mesmo tempo, ‘destralhar’ a casa e reforçar o rendimento familiar, numa lógica de economia circular. Contudo, trata-se de um rendimento pontual: ajuda a reduzir dívida ou a financiar despesas escolares, mas não resolve um défice mensal permanente.
Há também uma dimensão comportamental. Richard Thaler mostrou, através do conceito de “contabilidade mental”, que tendemos a colocar o dinheiro em compartimentos imaginários. Podemos tratar o subsídio de férias como dinheiro para gastar, esquecendo que, do ponto de vista económico, cada euro utilizado no verão deixa de estar disponível para a escola, para amortizar dívida ou para criar uma reserva. A sensação de merecimento, a pressão social e o desejo legítimo de proporcionar experiências à família explicam decisões que, vistas a frio, seriam incompatíveis com o orçamento. Reconhecer estes mecanismos não significa condenar o lazer, mas integrá-lo num plano sustentável e de maior consciência para as férias seguintes.
Por fim, setembro é um bom momento para rever os objetivos definidos no início do ano. Tal como numa análise contabilística, importa perceber o que já foi alcançado, ajustar o que deixou de ser realista face às circunstâncias atuais e retomar, com disciplina, o que continua a fazer sentido. A definição de metas concretas e mensuráveis é, segundo a literatura sobre comportamento financeiro, um dos fatores que mais contribui para a sua concretização. Com a energia renovada pelas férias e alguma disciplina, a ressaca financeira de verão pode, afinal, tornar-se o ponto de partida para um novo começo.
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