Rio, o protocandidato a Primeiro-Ministro (1)premium

Rio tem de ser mais ambicioso nas propostas económicas com que se vai apresentar ao eleitorado se quer realmente mudar Portugal para melhor. Os portugueses merecem isso.

As eleições no PSD foram importantes para o país porque delas pode resultar o futuro Primeiro-Ministro de Portugal. Na verdade, e face à alternativa existente - mais 4 anos de socialismo estagnado – espero sinceramente que o vencedor traga mudanças e que elas sejam na direcção do interesse dos portugueses.

À primeira vista, Rangel parecia uma melhor opção. Rio demonstrou inoperância na oposição durante seis anos e pouco propôs em termos de alternativas. A sua imagem está associada a combinações de bastidores com Marcelo e Costa que são pouco transparentes para os eleitores, deixando a ideia de que um governo seu faria o mesmo que os socialistas (o nome da sua moção, “Governar ao Centro”, indica exactamente isso). E ainda por cima tem ideias rocambolescas sobre o que deve ser o funcionamento da democracia, tendo apoiado a redução do número de debates quinzenais com o Primeiro-Ministro e defendido a diminuição do número de deputados.

Tudo isto indicia que Rio não quer perder muito tempo com o Parlamento se chegar à chefia de governo, demonstrando mesmo um certo desdém pelo funcionamento do sistema democrático, o que não deixa de ser caricato numa pessoa que afirma que já era democrata antes do 25 de Abril. Por todas estas razões, parecia vantajoso para o país que o PSD votasse no candidato alternativo.

A verdade é que os militantes do PSD escolheram Rio e ele será o protocandidato a Primeiro-Ministro. Mas para ser Primeiro-Ministro terá que lutar contra muitos interesses instalados, mesmo dentro do seu partido, até conseguir criar uma dinâmica de vitória e de alternativa ao poder socialista que leve os eleitores a quererem uma mudança.

Na área económica, a moção que apresentou aos militantes do PSD tem boas intenções e algumas ideias para Portugal, mas muito terá de ser esclarecido. Esta semana destaco, nas ideias de Rio, aspectos que me parecem positivos e outros que poderão ser negativos para o país na área económica:

1. A mensagem positiva é a correcta e é a mesma de Rangel – dar esperança e apostar na criação de riqueza para colocar Portugal a crescer: “mudança para uma política de liber­tação da economia e da sociedade portuguesas de forma a retomar um crescimento mais rápido e competitivo que permita criar mais riqueza, melhores salários e mais oportunidades que respondam às aspirações pessoais e sociais dos Portugueses”.

Ambas as moções fazem um diagnóstico correcto da situação de Portugal, que pode ser resumida nesta frase de Rio: “Após seis anos de governação socialista sem que se tenha concretizado qualquer reforma estrutural que responda de forma sustentada aos problemas de Portugal, agravam-se os indicadores de bloqueio”. A contradição de Rio é que continua a dizer que pode apoiar um governo socialista, mesmo que este não faça qualquer reforma.

2. A ambição é um defeito quando não olha a meios para ser alcançada. Costa queria ser Primeiro-Ministro e como não o conseguiu de forma limpa, optou por fazer um pacto com o diabo para se manter 6 anos no governo. Rio parece ser de outra cepa, mais sério e honrado, e a sua ambição corresponde a uma vontade muito grande. A ver vamos.

O mais importante é que ter o objectivo correcto não chega. É preciso explicar como é que vai ser alcançado. Neste aspecto, a moção de Rio é vaga. Refere os diferentes documentos que a sua equipa já apresentou, onde inclui o programa de 2012 de Passos Coelho, e fala de uma “estratégia renovada” e da “estabilidade das grandes opções”, supostamente contidas nos tais documentos, mas a realidade é que pouco concretiza.

A única solução referida é muito insuficiente para um protocandidato a Primeiro-Ministro: “… precisamos urgentemente de fazer crescer a riqueza gerada em cada ano a ritmos mais elevados, a valorizar os recursos próprios e inovar nas ofertas e nos processos produtivos, nomeadamente pela maior integração na economia digital e pelo recurso às novas tecnologias. ... A digitalização e as novas tecnologias são meros instrumentos que aplicados a estruturas e organizações obsoletas não geram acréscimos significativos de produtividade. Por isso, é necessário associar a inovação tecnológica à inovação organizacional que conduza à mudança de processos e culturas empresariais.”

Tal como a de Rangel, a moção de Rio faz um bom diagnóstico da situação económica de Portugal, mas ao contrário da primeira, apresenta poucas respostas para os desafios que elenca. É pena. Rio pode ter uma oportunidade de mudar o país apostando na criação de riqueza pelos portugueses e não com o dinheiro que os outros nos dão. Esta mudança de atitude é uma condição essencial para que o crescimento económico acelere, mas na moção não é evidente se Rio o quer fazer ou se prefere continuar dependente de fundos da UE. Nesta questão terá de ser bem mais assertivo até às eleições se quiser a chefia do governo.

3. No mercado imobiliário, Rio repete a “lenga-lenga” socialista de que a “liberalização do mercado imobiliário e o aumento da procura por parte de fundos de in­vestimento nacionais e estrangeiros têm produzido um aumento significativo dos preços no centro das cidades, … com as famílias da classe média, os casais mais jovens e os segmentos de menor rendimento a serem remetidos para zonas cada vez mais afastadas do centro”.

A solução que Rio defende na sequência deste diagnóstico, estranhamente, é que “serão decisivos os investimentos na mobilidade eléctrica e, com especial urgência, na ferrovia”. É muito pobre, e se Rio critica, e bem, o anticapitalismo primário que capturou os movimentos ambientalistas, não é capaz de reconhecer que foi a liberalização imobiliária que permitiu recuperar as cidades portuguesas degradadas e com os centros abandonados, sendo a “sua” cidade, o Porto um dos principais exemplos. Com as medidas de Rio, como com as do PS, nunca teríamos lá chegado.

É pouco em termos de Economia, e o PSD tem muito mais para oferecer, pelo menos se depender de alguns dos seus quadros, como Joaquim Miranda Sarmento. Rio tem de ser mais ambicioso nas propostas económicas com que se vai apresentar ao eleitorado se quer realmente mudar Portugal para melhor. Os portugueses merecem isso.

Esta insuficiência de propostas é também o mesmo problema nas ideias de Rio no que respeita à delegação de competências que os portugueses e a sociedade civil devem fazer a favor do Estado, e qual a sua relevância nos diferentes níveis de governação. Este será o tema a abordar na próxima semana.

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