Riscos compostos e resiliência sistémica: Da evidência europeia à realidade nacional

  • Helena Chaves Anjos
  • 2 Junho 2026

Helena Chaves Anjos explica como podem os seguros viver num cenário diferente, marcado por riscos interdependentes, eventos em cadeia e deslocamento das distribuições de referência.

O recente desenvolvimento das iniciativas Europeias, articuladas com os legisladores e supervisores, confirma que a governação dos riscos climáticos deixou de ser apenas um exercício conceptual ou prospetivo, passando a integrar progressivamente a arquitetura operacional da supervisão financeira.

A publicação do estudo do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia1, de 20 de maio, introduz um elemento crítico para a evolução das políticas de adaptação climática e estabilidade económica europeia.

Segundo o relatório, os chamados riscos compostos, no caso das cheias “compound flood hazards” aumentaram cerca três vezes ao longo dos últimos 30 anos. Este fenómeno constitui um indicador de transformação estrutural do risco, além da dimensão climatológica, na medida em que diferentes fatores — precipitação extrema, subida do nível do mar, saturação dos solos e falhas de drenagem — deixam de atuar de forma isolada e passam a interagir de modo cumulativo e amplificador.

  • Na Europa, mais de 70% dos eventos de cheias são eventos compostos, resultantes da combinação de múltiplos perigos, como nível de precipitação, seca prévia, tempestades e saturação dos solos;
  • As perdas económicas associadas a cheias com fatores combinados são 2,8 vezes superiores às cheias isoladas, com eventos severos concentrados sistematicamente na categoria de risco composto.

Este enquadramento é particularmente relevante porque desloca a análise de risco de uma lógica linear para uma lógica sistémica. Não se trata de eventos extremos ocasionais, mas de uma alteração na própria distribuição estatística da normalidade climática, refletindo uma mudança estrutural no perfil de risco. Em paralelo, o destaque do Instituto Nacional de Estatística (INE)2, do mês de maio, no que respeita aos dados do risco de incêndio rural em Portugal, reforça a leitura territorial desta tendência de risco composto.

  • Em Portugal continental, 30,6% do território encontra-se em classes de risco elevado e muito elevado de incêndio rural, especialmente as regiões Norte e Centro, a representar mais de 50% da área territorial.
  • Em termos habitacionais, 1,3% dos edifícios e 0,8% das habitações familiares clássicas situam-se em áreas de risco elevado ou muito elevado de incêndio rural, sendo principalmente de residência permanente.
  • Estas áreas concentram vulnerabilidade acrescida, com cerca de 51.115 residentes (0,5% da população) e forte nível de envelhecimento (210 pessoas com mais 65 anos por cada 100 jovens), com 69,3% da população isolada a residir em áreas de risco elevado, com fraca exposição e localização de infraestruturas críticas.

O país apresenta uma combinação de fatores particularmente sensível, marcada por forte concentração territorial do risco de incêndio, envelhecimento populacional, isolamento em áreas de elevada perigosidade e assimetrias na distribuição das infraestruturas críticas. O ponto central torna-se inequívoco: o risco climático deixou de ser apenas ambiental, passando a assumir uma dimensão estrutural, territorial e social.

Análise concreta e implicações práticas

A leitura cruzada entre evidência europeia e dados nacionais revela uma fratura importante entre o risco real e os instrumentos tradicionais de avaliação e cobertura. No plano europeu, o aumento de eventos compostos altera profundamente três pilares fundamentais da gestão de risco:

  • A modelação atuarial baseada em histórico perde capacidade explicativa. Eventos anteriormente considerados independentes ocorrem atualmente em simultâneo ou em cascata;
  • A precificação do risco torna-se mais instável. O aumento da correlação e da frequência de eventos extremos reduz a eficácia da diversificação espacial e da dispersão temporal, princípios básicos da atividade seguradora;
  • A capacidade de absorção do setor segurador e ressegurador começa a ser pressionada por eventos de maior magnitude e menor previsibilidade.

No caso português, a informação ainda mais granular, evidencia uma exposição territorial não homogénea:

  • Regiões Norte e Centro evidenciam vulnerabilidade acrescida a riscos combinados de incêndio rural, envelhecimento e isolamento populacional.
  • Zonas costeiras apresentam elevada vulnerabilidade a riscos compostos de precipitação intensa e drenagem insuficiente;
  • Áreas ribeirinhas e vales urbanos apresentam risco acrescido de cheias rápidas e episódios de ocorrência frequente;
  • Regiões de elevado crescimento urbano apresentam défices de planeamento hidráulico e adaptação infraestrutural.

Este conjunto de fatores cria uma assimetria relevante entre risco físico real e risco segurado efetivo. Em muitos casos, a cobertura existe, mas a sua precificação não incorpora plenamente o efeito destes riscos compostos. Esta divergência estrutural torna-se progressivamente crítica para a capacidade de absorção do sistema segurador. A análise europeia demonstra a aceleração e interdependência destes riscos, enquanto a estatística nacional evidencia concentração territorial e vulnerabilidades concretas. O setor segurador continua a operar, muitas vezes, com pressupostos assentes na independência de eventos e na estabilidade histórica. O resultado é um desfasamento crescente entre risco efetivamente observado e risco modelado.

Risco estrutural e orientação estratégica

A evolução destes riscos compostos deve ser entendida no contexto da transição de uma economia de estabilidade relativa para uma economia de incerteza estrutural. Neste quadro, o debate sobre seguros de catástrofes deixa de ser apenas técnico e passa a ser sistémico. O setor segurador deixa de atuar apenas como mecanismo de transferência de risco e passa a integrar a arquitetura de resiliência económica e social. Este movimento aproxima-se de outros debates estruturais de longo prazo, onde a pressão resulta da
acumulação de vulnerabilidades ao longo da trajetória de risco e não apenas da ocorrência de um choque específico. A exposição deixa de se concentrar num evento isolado, passando a refletir a acumulação e interação de múltiplas variáveis ao longo do tempo. A aplicação prática à gestão de riscos revela três implicações estratégicas:

  • Do evento isolado ao sistema de risco: A análise de risco deixa de poder ser feita por ocorrência individual. O foco passa a concentrar-se na interação de eventos (precipitação, temperatura, urbanização);
  • Da indemnização à prevenção estrutural: A resposta ex post torna-se insuficiente. A lógica de preparação ex ante de mitigação, prevenção urbana e planeamento territorial ganha centralidade;
  • Da lógica de produto à lógica de ecossistema: Os mecanismos de partilha de riscos deixam de ser apenas instrumentos financeiros ao integrar dados climáticos, planeamento urbano e políticas públicas.

A gestão de riscos assume aqui, inevitavelmente, um papel determinante na governação sistémica.

Nesse sentido o recente seminário temático sobre riscos climáticos para os setores bancário e segurador3, realizado a 1 de junho, envolvendo reguladores e supervisores, reforça a consolidação de uma arquitetura de supervisão baseada nas dimensões centrais de gestão de riscos, para a redução das lacunas de dados e integração do mapeamento de riscos físicos climáticos no setor financeiro, no âmbito do enquadramento regulatório europeu das finanças sustentáveis.

Síntese e recomendações

A evidência acumulada europeia e os dados nacionais atualizados conduzem a um conjunto de implicações que ultrapassam o domínio analítico e entram inevitavelmente, como evidenciado no seminário técnico, no domínio regulatório e estratégico da supervisão de riscos. Três linhas de ação tornam-se particularmente relevantes:

  • Primeiro, reforçar a integração entre dados climáticos, estatísticos e atuariais relevantes. A separação entre ciência climática, estatística nacional e modelação de riscos não é sustentável;
  • Segundo, desenvolver os modelos de mapeamento de riscos e metodologias de supervisão e regulação no sentido de incorporar risco composto, correlação de eventos e cenários não estacionários;
  • Terceiro, promover a articulação ativa entre o setor segurador e financeiro, com o planeamento urbano e as políticas públicas, reconhecendo o papel indireto do seguro como meio facilitador do ordenamento territorial.

O desafio não é apenas técnico. É institucional. O sistema foi desenhado para gerir riscos independentes, eventos discretos e distribuições relativamente estáveis. A evidência atual aponta, contudo, para um cenário diferente, marcado por riscos interdependentes, eventos em cadeia e deslocamento das distribuições de referência.

A conclusão é clara: a resiliência económica não pode ser assumida como resultado automático da eficiência do sistema, nem depender exclusivamente da iniciativa individual, coletiva ou de parcerias público-privadas. Deve constituir um objetivo explícito do desenho institucional, orientando a governação e a supervisão dos novos riscos climáticos, no quadro de sistemas integrados de gestão de risco.

Fontes:

1 Joint Research Centre (JRC) – Floods: compounding hazards increased almost three fold in 30 years, 20 May 2026.

2 Instituto Nacional de Estatística (INE) – Characterization of rural fire hazard areas, 22 May 2026.

3 CopernicusThematic Workshop on Climate Risks for Insurance and Finance.

  • Helena Chaves Anjos
  • Economista e Mestre em Finanças. Especialista em gestão de risco nos seguros

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Riscos compostos e resiliência sistémica: Da evidência europeia à realidade nacional

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião