Riscos Futuros: Uma leitura estratégica para a resiliência e supervisão
Helena Chaves Anjos analisou o relatório da AXA sobre riscos futuros e ajusta as conclusões a Portugal e à resposta que os operadores devem dar.
Num contexto de crescente fragmentação global, a resiliência tornou-se uma exigência central. As interdependências entre riscos climáticos, económicos, tecnológicos e sociais demonstram que nenhum setor ou país pode agir isoladamente. Mais do que reagir, importa construir respostas coletivas, assentes em conhecimento, inovação e cooperação, capazes de transformar vulnerabilidades em capacidade de adaptação e confiança no futuro.
Contexto e referência do setor segurador
O relatório recentemente publicado sobre riscos futuros, por um dos maiores grupos seguradores lideras na Europai, apresenta precisamente uma atualização da perceção dos riscos globais com base num inquérito realizado a mais de 3.500 especialistas e decisores em 50 países. O relatório amplamente reconhecido como uma referência de monitorização transversal, confirma a persistência de grandes riscos sistémicos que condicionam a agenda política e económica internacional: desde as mudanças climáticas, instabilidade geopolítica e ao ciber-risco permanecem no topo das preocupações globais, sem alterações face ao ano anterior.
Esta estabilidade nas posições de maior risco contrasta com a evolução no final da lista, onde surgem dois movimentos estruturais relevantes: a subida dos riscos macroeconómicos (de 10.º em 2023 para 7.º lugar em 2025) e a entrada de um novo risco — o demográfico, associado ao envelhecimento populacional e ao declínio da natalidade — diretamente para o 10.º lugar. A conjugação destas tendências traduz um reforço das vulnerabilidades de longo prazo e das interligações entre risco económico, social e ambiental, com impactos diretos no desenho de políticas públicas e na governação das instituições financeiras e seguradoras.
O relatório ganha uma especial relevância no contexto europeu, onde tanto o supervisor do setor segurador europeu (EIOPA) como o legislador (Comissão Europeia) têm reforçado a necessidade de uma visão integrada dos riscos de sustentabilidade. A convergência das perceções de risco entre os agentes económicos e os decisores neste documento contribui para uma leitura complementar da supervisão prudencial, em linha com as orientações internacionais em matéria de gestão de riscos sistémicos, para a estabilidade e sustentabilidade financeira do setor.
Riscos com foco ambiental, politico e económico
Os seis primeiros riscos no topo de 2025 permanecem os mesmos de 2024, mas com aproximações nos pesos percepcionados, contudo, a evolução, no final da lista, reforça a relevância económica e social. A análise detalhada revela três blocos de preocupação convergentes, para o papel fundamental do setor segurador no futuro.
1. Mudança climática
2. Instabilidade geopolítica
3. Cibersegurança
4. IA e Big Data
5. Tensões sociais / movimentos sociais
6. Recursos naturais & biodiversidade
7. Riscos macroeconómicos
8. Riscos energéticos
9. Riscos para a estabilidade financeira
10. Risco demográfico (entra pela primeira vez)
- O primeiro é o climático-ambiental, liderado pelas alterações climáticas (1.º) e pela gestão de recursos naturais e biodiversidade (6.º). Estes riscos continuam a ser vistos como os principais fatores de instabilidade económica e social, exigindo da indústria seguradora modelos preditivos mais finos e capacidade de tarifação adaptada a eventos extremos. A pressão sobre o capital, a volatilidade das perdas e a redução dos horizontes de cobertura tornam urgente uma abordagem regulatória que reconheça a natureza estrutural destes riscos e promova mecanismos de partilha e mitigação público-privados;
- O segundo bloco é geopolítico e tecnológico, dominado pela instabilidade global (2.º), ciber-riscos (3.º) e pela crescente presença da Inteligência Artificial e Big Data (4.º). As interdependências entre estes fatores são hoje evidentes: Ciber-ataques com origem em conflitos internacionais, manipulação informacional, desinformação e vulnerabilidades digitais com impacto nas infraestruturas criticas e financeiras. A digitalização e o uso intensivo de dados colocam desafios éticos e operacionais significativos, ao mesmo tempo que abrem espaço para inovação em análise de risco e deteção preditiva;
- Por fim, o terceiro bloco é socio e macroeconómico, refletido nos riscos macroeconómicos (7.º), nas tensões sociais (5.º), nos riscos energéticos (8.º), na estabilidade financeira (9.º) e no risco demográfico (10.º). O regresso dos riscos macroeconómicos ao centro das preocupações evidencia a persistência da incerteza quanto ao ambiente de inflação estrutural e de taxas de juro mais elevadas, com efeitos sobre a solvência e rendibilidade do setor. O risco demográfico, ao entrar diretamente na classificação dos principais riscos, marca uma inflexão importante, apesar de previsível. A sustentabilidade dos sistemas de pensões e a pressão sobre produtos Vida e Saúde passam a estar entre os temas mais urgentes para a regulação e a oferta de seguros de longo prazo.
O relatório permite, assim, analisar e comparar tendências que traduzem uma mudança de paradigma. A concentração dos riscos mais relevantes em áreas com impacto direto sobre a estabilidade financeira e social confirma que o papel do setor segurador não é apenas compensar perdas, mas participar ativamente na prevenção e mitigação dos riscos com impacto socioeconómico.
Risco estrutural e orientação estratégica
A leitura prospetiva dos resultados aponta para um reposicionamento do papel das seguradoras na governação do risco global. A entrada do risco demográfico e a ascensão dos riscos macroeconómicos demonstram que a vulnerabilidade não se concentra apenas em choques ambientais ou tecnológicos, mas estende-se às fundações económicas e sociais.
Neste contexto, a gestão de risco requer uma integração multidimensional ― económica, ambiental, tecnológica e demográfica ―. As seguradoras, pela sua função de intermediárias de risco e de investidores institucionais de longo prazo, têm capacidade para antecipar tendências e orientar capitais para soluções de resiliência — seja em produtos de proteção climática, em seguros de poupança e reforma ou em estratégias de investimento sustentável.
O desafio é também regulatório. A supervisão prudencial baseada no risco deve continuar a evoluir no sentido de identificar as correlações entre riscos aparentemente distintos, promovendo abordagens dinâmicas e incentivos à gestão preventiva do capital. O reforço de mecanismos de cooperação entre reguladores e o setor, especialmente no quadro europeu, será determinante para assegurar uma resposta coordenada contra os riscos sistémicos, por natureza, transfronteiriços.
Para o setor segurador nacional, tal implica repensar o equilíbrio entre inovação, solvência e compromisso social. A integração de critérios de sustentabilidade e de longevidade nas políticas de subscrição e de investimento é uma exigência regulatória e também uma oportunidade de diferenciação estratégica. Ao antecipar riscos estruturais, o setor contribuirá para estabilidade e confiança, valores centrais num contexto global de crescente incerteza.
Recomendações com visão futura
Estes resultados confirmam que o mundo enfrenta riscos simultâneos de natureza climática, tecnológica e socioeconómica, cuja gestão exige visão, coordenação e capacidade de adaptação. Para o setor segurador e para as autoridades de supervisão, o caminho passa por consolidar uma cultura de risco integrada, onde as dimensões prudencial, económica, ambiental e social se reforcem mutuamente.
Assim, recomenda-se o reforço da análise prospetiva no planeamento estratégico, com base em cenários partilhados e avaliação de riscos interligados e vulnerabilidades cruzadas. É igualmente essencial progredir nos modelos e estudos de cooperação público-privados contra riscos catastróficos, e prosseguir na promoção da literacia de risco junto dos agentes.
A contagem decrescente já começou: a inação já não é uma opção. Mais do que reagir, importa agora antecipar. O setor segurador, pela sua natureza de longo prazo e função estabilizadora, está numa posição privilegiada para apoiar a transição para economias mais resilientes e sustentáveis. Compreender os riscos é o primeiro passo para os transformar em novas oportunidades e em novas fronteiras — porque a governação do risco, quando adequadamente exercida, é um pilar de confiança e estabilidade económica para a sociedade.
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