Riscos Inseguráveis
Nuno Matos discute fronteiras entre público e privado. A questão central de quem decide é se eventos gradualmente maiores são risco privado ou são risco coletivo.
A indústria seguradora habituou‑se, durante décadas, a ser a guardiã profissional da incerteza enquanto projetava uma imagem de absoluta robustez, previsibilidade e tradição. Enquanto outros setores oscilavam entre crises, reinvenções e disrupções, o seguro permaneceu como o último bastião de estabilidade.
O setor prosperou apoiado numa narrativa quase mecanicista de analisar riscos, tarifar, investir e indemnizar. Uma coreografia estável, repetida ano-após-ano, que alimentou a convicção de que a estabilidade era estrutural. Hoje essa estabilidade é dogmática, pois: (i)
- Os riscos são crescentemente dependentes;
- Os eventos extremos já não são raros;
- Os custos com sinistros são cada vez menos controláveis;
- A tecnologia não é, e nunca foi, assimilável sem fricção.
O modelo clássico do seguro assenta na poderosa ideia do mutualismo, a que subjaz uma outra, a de que a aleatoriedade pode ser domada pela estatística. Mas esta lógica depende de uma condição crítica, a independência dos riscos. É precisamente esta condição que está a desaparecer. Alguns exemplos poderão ser:
- Os eventos climáticos extremos são recorrentes e afetam simultaneamente grandes extensões do território;
- As infraestruturas digitais criam interdependências profundas a nível global;
- As cadeias de abastecimento propagam falhas em segundos à escala planetária;
- Os ciberataques materializam‑se em massa;
- As tendências demográficas pressionam sistemas de saúde e pensões nos países desenvolvidos; (vi) As crescentes tensões geopolíticas têm efeitos sistémicos.
O que antes eram outliers estatísticos transformam‑se agora em eventos sistémicos regulares. E quando os riscos deixam de se dispersar, o mutualismo deixa de funcionar como amortecedor e torna‑se o espelho da vulnerabilidade coletiva.
Com riscos crescentemente correlacionados, de natureza catastrófica, o capital necessário dispara.
A frequência de eventos extremos altera também a lógica da retenção e do resseguro. A volatilidade crescente torna o seu pricing muito sensível.
O seguro deixa, gradualmente, de ser um negócio de probabilidades para se tornar crescentemente um negócio de resiliência. E resiliência não é só capacidade indemnizatória. É, sobretudo, continuidade operacional. É garantir a solvência das empresas de seguros para que sistemas económicos e sociais não colapsem após um choque.
À medida que mais riscos se tornam sistémicos, a fronteira entre o setor segurador e o Estado esbate‑se. A forma como Portugal está a gerir as consequências da tempestade Kristin é ilustrativa.
Quando as perdas deixam de ser seguráveis, o Estado intervém. Nada disto é novo; o que muda é a escala. E com a escala surge a questão central de quem decide o que é risco privado e o que é risco coletivo? E com que legitimidade?
Se o Estado continuar a exigir que o setor segurador garanta riscos que já não são seguráveis, então talvez seja tempo de assumir, de facto, a pretensão de ser o maior segurador do país, ou terá de explicar aos portugueses porque prefere continuar a fingir que o mercado segurador consegue suportar sozinho riscos que são coletivos.
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