ROI da sustentabilidade: quando a criação de valor é partilhada, o retorno multiplica-se

  • Daniela Lima
  • 7 Maio 2026

Nas organizações, todas as decisões relevantes são, em última instância, avaliadas sob uma perspetiva financeira. A sustentabilidade não pode, nem deve, ser tratada de forma diferente.

Durante demasiado tempo, a sustentabilidade foi abordada pelas empresas sobretudo como um imperativo moral. Essa narrativa cumpriu o seu papel, mas pertence ao passado: quando se trata de decidir sobre a alocação de recursos – humanos, financeiros, de tempo – à sustentabilidade, não é razoável esperar convencer os principais decisores das empresas com um discurso sobre “fazer o que está certo”. Quer estejamos a falar com a administração ou comité executivo, é essencial fundamentar a decisão com métricas financeiras claras: retorno esperado, período de recuperação do investimento, impacto no cashflow e no resultado líquido. Nas organizações, todas as decisões relevantes são, em última instância, avaliadas sob uma perspetiva financeira. A sustentabilidade não pode, nem deve, ser tratada de forma diferente – caso contrário, corre o risco de ser encarada como um tema à margem do negócio.

Isto é especialmente importante neste momento em que o driver do compliance tem estado a abrandar (pelo menos por agora) e porque vivemos um período de elevada volatilidade económica, que coloca especial pressão e escrutínio sobre a alocação de recursos por parte das empresas. É essencial fundamentar, de forma robusta, o business case da sustentabilidade e demonstrar, de forma objetiva, como e quanto valor cria para o negócio.

O desafio surge porque grande parte do valor criado pela sustentabilidade não é imediatamente visível ou simples de quantificar. Existem benefícios “tangíveis” como poupanças resultantes de maior eficiência na utilização de recursos ou como receita adicional proveniente de novas linhas de produtos/serviços. Mas existem ainda os benefícios “intangíveis” e “submersos” que muitas empresas deixam fora deste cálculo. Afinal, sabemos que a sustentabilidade pode conferir melhor atração, retenção e produtividade de colaboradores, melhor gestão de risco, reforço da reputação, atração e fidelização de clientes… Mas sabemos quanto isso vale?

A experiência demonstra-nos que este valor “invisível” pode ser várias vezes superior ao retorno inicialmente considerado. O problema não é a ausência de valor, mas a ausência de ferramentas e capacitação técnica para o identificar, estruturar e quantificar. É neste contexto que ganha relevância a framework Return on Sustainability Investment (ROSI), uma abordagem que procura quantificar o ROI (Retorno sobre o Investimento) de um investimento ao identificar os tópicos materiais da empresa, avaliando as políticas e processos em funcionamento, identificando benefícios através da análise de diferentes drivers de criação de valor – da gestão de risco à gestão de talento, e através da sua quantificação e monetização, ao longo de um período de análise.

Importa sublinhar que medir o ROI da sustentabilidade não exige dados completos ou perfeitos. É importante que as empresas comecem este processo envolvendo diferentes áreas da organização, utilizando a informação disponível, e evoluindo progressivamente.

Mais do que um exercício contabilístico, quantificar o ROI da sustentabilidade é uma ferramenta de decisão e boa gestão. Permite priorizar investimentos, comparar alternativas, reforçar o diálogo entre áreas técnicas e financeiras e tornar visível o valor total – financeiro, ambiental, social e de governança – criado pelas empresas. Se não for identificado, medido e integrado na tomada de decisão, o mais provável é que estejamos a deixar uma parte significativa do retorno simplesmente “em cima da mesa”.

  • Daniela Lima
  • Gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal

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