Roteiro eleitoral europeu: Serão estes os anos da direita europeia?
Uma União mais clara nos seus objetivos, mais coerente nas suas prioridades e menos refém de equilíbrios táticos será sempre um ganho líquido para todos os europeus.
Com o mundo de olhos postos nas eleições presidenciais brasileiras e nas intercalares americanas, na Europa, a densidade de eleições decisivas é assinalável. Depois dos algo surpreendentes resultados na Eslovénia e ainda sem conhecer os desta terça-feira na Dinamarca, o próximo ano e meio é crucial não só para o futuro da direita europeia, como para a união da própria União.
Já no próximo 12 de abril, o reinado de Viktor Orbán à frente dos destinos húngaros pode chegar ao fim. Nos últimos 28 anos, Órban liderou o governo magiar durante 20, sendo Primeiro-Ministro há uns espantosos 16 anos ininterruptos. Para além de figura de proa da extrema-direita europeia, é nele que Putin conhece o seu maior aliado no Conselho Europeu. Contudo, entre 2000 e 2023, a economia húngara caiu da 19ª posição europeia, em PIB per capita, em PPP, para a 22ª entre os 27 e os escândalos de corrupção perseguem o governo do Fidesz.
Nestas eleições, Orbán enfrenta um ex-aliado, Péter Magyar, que concorre numa plataforma aparentemente mais moderada e europeísta. De resto, os contornos destas eleições mereciam um texto próprio. Magyar está longe de ser ideal para Bruxelas, mas significará, a acontecer, uma melhoria significativa. Para além de ser uma derrota estrondosa para os PfE, a vitória de um partido do PPE, depois do retorno ao poder de Donald Tusk, volta a provar que o centro-direita é o setor mais preparado para derrotar a extrema-direita depois do seu fracasso na governação.
Chegados a 2027, em França, o macronismo chega ao seu fim. Numa segunda volta imprevisível, se Marine Le Pen não pode ser candidata por razões judiciais, o jovem Bardella parece ter presença cativa. As sondagens indicam também que apenas Philippe, o candidato do macronismo de direita, pode impedir a vitória do Rassemblement National. Mais uma vez, é o centro-direita o último tampão que pode impedir a chegada ao poder da direita mais radical.
Na segunda metade do ano, esperam-se eleições legislativas em Itália, na Polónia e em Espanha. Em Itália, a pragmática Meloni, depois de conquistar o respeito europeu, de servir de ponte entre a direita mais conservadora e a direita moderada e de estabilizar o sistema partidário italiano, terá de voltar a ir a votos. A escassos meses de liderar o governo mais duradouro do pós-guerra, pode tornar-se a primeira, depois de Berlusconi II e III, a completar uma legislatura. Os impactos da derrota no referendo constitucional ainda são incertos, mas quando se debate a aliança Merz-Meloni, estas eleições revestem-se de grande importância.
Na Polónia, os sinais são contraditórios. Se em 2023, Tusk e o centro-direita regressaram ao poder, nas últimas eleições presidenciais, a eleição de Nawrocki significou um travão às políticas da coligação governativa. Ao mesmo tempo que as tensões entre Primeiro-Ministro e Presidente aumentam, a balcanização do bloco que sustenta o governo pode ser um problema eleitoral significativo. Se Tusk permanecer na liderança do governo, a direita moderada terá mais uma grande vitória.
Em Espanha, espera-se que chegue ao fim o governo Frankenstein da nova coqueluche da esquerda europeia, Pedro Sánchez. Depois de inúmeros casos e casinhos envolvendo Sánchez e a sua entourage, depois de várias derrotas regionais e com a oposição dos senadores do próprio partido, como Felipe González, só o CIS não antecipa um governo liderado pelo PP de Feijóo. Mais uma vez, contra o extremismo, a rolha é e continuará a ser a direita moderada.
Todavia, talvez estejamos a assistir a algo mais do que o potencial reforço da direita europeia: o colapso silencioso das outras alternativas. E quando a escolha é entre o medo do radicalismo e o cansaço do centro, se a direita moderada é o último tampão, a questão é quanto tempo aguenta a barragem. Se tudo pode correr bem ao centro, também pode tudo correr mal: Orbán, Bardella e o PiS podem ganhar, Sánchez pode não perder e Itália pode voltar à ingovernabilidade.
Ainda assim, com mais eleições no horizonte e um calendário político longe de se esgotar nesta dinâmica, há um ponto que não deve ser ignorado: uma União mais clara nos seus objetivos, mais coerente nas suas prioridades e menos refém de equilíbrios táticos será sempre um ganho líquido para todos os europeus. Esperemos pelos próximos episódios.
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