Se sabes tudo, não aprendas mais
A facilidade extraordinária com que hoje conseguimos obter respostas está a criar uma perigosa ilusão, a de que produzir uma resposta é o mesmo que saber. E não é, pois não?
Começo por alertar os leitores deste texto, que não me conhecem, para uma confissão. Sou docente na Iscte Executive Education, também com funções de direção em dois programas, e na Iscte Business School, tudo ligado ao Marketing e afins. Ao mesmo tempo, trabalho em publicidade há mais de 25 anos, sempre do lado das agências. Portanto, tenho aqui um berbicacho entre mãos. A saber.
A Inteligência Artificial Generativa está a tornar algumas pessoas demasiado inteligentes para precisarem de aprender. É deixarem-se andar, lá está. Afinal, a única coisa que precisam mesmo é de saber fazer boas perguntas, que é o que toda a gente diz por aí. Depois, vem o mais simples, isto é, duas ou três interações com o LLM do momento “et voilà”, têm uma solução instantânea. Um pouco como acontece com o pudim do chinês.
Estratégias de marketing, planos de comunicação, análises de mercado, propostas de valor, ideias para uma campanha, apresentações e por aí fora. Tudo pronto a servir. Para quê perder tempo numa sala, ou via remota, com professores, colegas, livros, artigos, discussões, trabalhos e aquela coisa antiquada a que costumávamos chamar aprendizagem?
É que a facilidade extraordinária com que hoje conseguimos obter respostas está a criar uma perigosa ilusão, a de que produzir uma resposta é o mesmo que saber. E não é, pois não? E talvez este seja um dos maiores desafios que a educação enfrenta desde que alguém decidiu que uma pessoa podia ensinar outras.
A OCDE é bastante clara no seu mais recente Digital Education Outlook, ao referir que a utilização de Inteligência Artificial Generativa pode melhorar o desempenho numa tarefa sem produzir necessariamente aprendizagem. Ou seja, podemos fazer melhor um trabalho sem termos aprendido mais.
E isto devia preocupar-nos. Uma coisa é pedir à Inteligência Artificial para fazer uma análise. Outra é perceber se a análise está certa. Uma coisa é pedir dez ideias para uma campanha. Outra é saber qual das dez faz mais sentido. Uma coisa é perguntar “qual deve ser a nossa estratégia?”. Outra, bastante mais difícil, é saber se a poderemos aplicar.
E aqui está o paradoxo. Quanto mais inteligentes ficam as máquinas, mais importante se torna a inteligência humana. Não necessariamente a inteligência para memorizar mais e mais. Essa batalha está provavelmente perdida. Uma máquina terá sempre mais memória, mais velocidade e uma capacidade absurda para processar informação.
Precisamos, por isso, de outra coisa. Precisamos de pessoas capazes de pensar criticamente, fazer juízos, interpretar contextos, reconhecer contradições, perceber nuances, questionar pressupostos, tomar decisões e assumir a responsabilidade por elas. Precisamos de conhecimento e não apenas de informação.
Durante muito tempo, o valor da escola, da universidade e da formação estava, em grande medida, no acesso ao conhecimento. O professor sabia coisas que o aluno ainda não sabia. O livro continha informação que não estava facilmente disponível. A biblioteca era um lugar de descoberta.
A internet, isto é, a conectividade mudou isso. A Google alterou ainda mais. A Inteligência Artificial Generativa está agora a dar-nos um acesso quase instantâneo a uma quantidade de informação e produção intelectual que seria inimaginável há poucos anos.
Mas há uma coisa que nenhuma dessas tecnologias eliminou. A necessidade de aprender. Aliás, talvez a tenha tornado mais urgente. Porque o verdadeiro valor do conhecimento não está apenas em saber uma resposta. Está em saber reconhecer uma boa resposta quando ela aparece.
Um Marketeer pode pedir à Inteligência Artificial Generativa uma análise sofisticada sobre uma determinada categoria de consumo. Mas se não compreender o comportamento do consumidor, o posicionamento, a concorrência, a economia, a cultura ou a estratégia, como saberá se aquela análise faz sentido? Pode produzir uma apresentação impecável. Mas esse documento pode esconder uma ideia péssima. E esta é talvez a grande armadilha da Inteligência Artificial Generativa, isto é, a facilidade de produzir coisas convincentes antes de termos aprendido a perceber se são boas.
É por isso que não acredito que o futuro da formação seja competir com a Inteligência Artificial. Seria uma batalha ridícula. Uma universidade nunca vai conseguir responder tão depressa como um chatbot. Um professor nunca terá a memória de um modelo de linguagem. Uma escola não conseguirá discorrer, instantaneamente, sobre praticamente qualquer assunto.
Julgo que não será um problema porque esse não deve ser o seu trabalho. O papel da escola e da universidade tem de evoluir de “transmitir respostas” para ensinar a pensar, questionar, relacionar e decidir.
E é aqui que a formação de executivos ganha uma importância particular. Porque um executivo não precisa apenas de saber utilizar ferramentas. Precisa de saber tomar decisões num mundo em que as ferramentas mudam constantemente. Precisa de conhecimento, mas também de experiência. Precisa de modelos mentais, mas também de capacidade para os pôr em causa. Precisa de especialistas, mas também de contacto com pessoas de outras áreas. Precisa de teoria, mas precisa igualmente de discutir casos concretos, ouvir opiniões diferentes, defender uma ideia e perceber porque é que alguém discorda dela.
Parece-me que é difícil aprender tudo isto sozinho apenas à frente de um ecrã, até porque a Inteligência Artificial não substitui facilmente o confronto com outras pessoas.
Uma boa sala de aula não é apenas um lugar onde um professor transmite conhecimento a um grupo de alunos. É um lugar onde alguém levanta uma questão e outra pessoa responde. Onde uma opinião é contrariada. Onde uma experiência profissional muda a interpretação de um conceito. Onde percebemos que aquilo que parecia óbvio, afinal não era. Onde somos obrigados a explicar porque pensamos aquilo que pensamos. E isso, meus caros, é aprendizagem. E é também uma das razões pelas quais a formação para executivos não pode ser apenas uma versão sofisticada de um tutorial do YouTube.
Mas isto não significa que as escolas e as universidades tentem ignorar ou lutar contra a Inteligência Artificial. Iriam perder relevância. A Inteligência Artificial deve entrar na sala de aula. Deve ser utilizada. Deve ser questionada. Deve ser experimentada. Deve fazer parte dos programas. Um aluno de Marketing, para puxar a brasa à minha sardinha, que termine hoje um curso sem saber trabalhar com Inteligência Artificial estará provavelmente mal preparado, da mesma forma que o faça, sabendo apenas usá-la, mesmo que muito bem.
A ferramenta não substitui o conhecimento. Aumenta a capacidade de quem tem conhecimento para a utilizar.
Talvez precisemos, por isso, de recuperar uma ideia que parecia velha e que de repente voltou a ser absolutamente contemporânea: aprender não é acumular respostas. É aumentar a capacidade de pensar porque o verdadeiro problema começa quando deixamos de ser suficientemente curiosos para perguntar.
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