Fernando Alexandre não é Sousa Lara

A esquerda, que tem andado perdida nos últimos anos numa guerra cultural errática e que diz pouco à maioria dos portugueses, voltou a escolher a batalha errada.

Nos últimos dias, o debate público tem girado em torno das alterações ao currículo escolar propostas pelo Ministério da Educação, liderado por Fernando Alexandre. E importa começar por aqui: Fernando Alexandre não é António de Sousa Lara. Confundir os dois, ou sugerir que esta proposta tem o mesmo espírito da censura imposta nos anos 90, é desonesto intelectualmente e parece revelar mais sobre quem o diz do que sobre o debate em causa.

O que está em discussão é o fim da obrigatoriedade da leitura de José Saramago nas Aprendizagens Essenciais de Português, surgindo Mário de Carvalho e “Um Deus passeando pela Brisa da Tarde” como alternativa possível. É verdade que toda a escolha curricular é uma escolha política e de gosto. Sempre foi. Mas acusar esta decisão de ser ideológica é difícil de sustentar quando o autor que entra para o programa é igualmente um autor de esquerda, ex-militante do PCP e quando escritores como Agustina Bessa-Luís ou António Lobo Antunes continuam de fora das leituras obrigatórias (e opcionais) do currículo do ensino secundário.

Esta proposta, que está ainda em consulta pública, vai, contudo, muito além desta alteração. Em Português de ensino secundário, são várias as alterações relevantes: desde a admissão de novas leituras de Camilo Castelo Branco (que passa a ser obrigatório) e de Eça de Queirós, à entrada de autores como Natália Correia, Teixeira de Pascoaes e Mário de Sá-Carneiro no conjunto de autores a ler, passando pelo o alargamento dos poetas elegíveis no âmbito da poesia contemporânea. O que o Ministério propõe não é empobrecer o programa, mas sim alargá-lo.

No fundo, aquilo que esta proposta faz é aumentar as opções de escolha de escolas e professores, permitindo-lhes ajustar as leituras ao seu contexto, à sua região, aos seus alunos. Assim, alunos do Douro, em vez de “Os Maias”, podem ler “A Cidade e as Serras” e esta diversidade só pode ser benéfica. Saramago não desaparece, continua disponível e a esmagadora maioria dos professores continuará, muito provavelmente, a escolhê-lo. De resto, a posição sensata e moderada da Associação de Professores de Português passa mesmo por aqui. O que muda é que deixa de ser a única opção, dando lugar a um leque mais amplo de literatura portuguesa.

A esquerda, que tem andado perdida nos últimos anos numa guerra cultural errática e que diz pouco à maioria dos portugueses, voltou a escolher a batalha errada. Ninguém cancelou José Saramago. Ninguém vai cancelar José Saramago. Não é por se dar a entender que vai sair do currículo que isso acontecerá. Ele é, e continuará a ser, um dos maiores escritores portugueses do século XX. Mas transformá-lo em cavalo de batalha político contra uma proposta que, na prática, dá mais liberdade às escolas, é prestar um mau serviço à sua memória, à literatura e ao debate que este tema genuinamente merecia.

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