Sete anos de grande investimento em defesa, e depois?
Na Europa não falta investimento no setor da defesa, mas será o crescimento das empresas sustentável fechada a torneira de investimento?
Ucrânia. A sombra constante da ameaça russa. A relação tensa com o ‘amigo americano’. Irão. Não faltam motivos para que na Europa, quando se pense em orçamentos de defesa, a mensagem seja clara: há que reforçar e ganhar soberania.
Não têm faltado mecanismos de financiamento — os 150 mil milhões do programa de empréstimo SAFE, no qual Portugal garantiu uma fatia de 5,8 mil milhões de euros é apenas um exemplo — para tornar realidade essa independência, com a Europa a querer usar a indústria de defesa como um novo acelerador da economia da região. De outro modo, politicamente, para os países torna-se difícil justificar dinheiro investido em armamento quando não faltam outras necessidades sociais para acudir, como a falta de habitação.
O tema está na ordem do dia e tudo indica que estará nos próximos sete anos. No próximo quadro plurianual, “a Comissão Europeia já sinalizou a intenção de propor cerca de 131 mil milhões de euros para defesa e espaço, um valor cinco vezes superior face ao atual”, lembrou Nuno Pinheiro Torres, secretário de Estado Adjunto e da Política da Defesa Nacional, na conferência do eRadar.
“Os programas ligados à mobilidade militar viram as suas verbas reforçadas em dez vezes, atingindo mais de 17 mil milhões de euros”, destaca. “O programa Horizonte Europa deverá ser reforçado com a dotação de 175 mil milhões de euros”, referiu ainda. Ou seja, “ao longo de sete anos, a Comissão prevê financiar programas que aproveitam a defesa com valor global equivalente ao PIB português”.
No setor há assim uma visibilidade (a possível) sobre o que o futuro reserva e há aqui uma oportunidade para as empresas. “Saber que a defesa é uma área onde o investimento público, isto é, as aquisições, vão crescer, pelo menos nos próximos dez, 15, 20 anos, dá aos empresários a confiança necessária para apostar neste setor”, aponta Nuno Pinheiro Torres.
A indústria portuguesa está a crescer. Apesar de ter um peso residual nas exportações — menos de 1% do total de exportações em 2024 e 2025 —, as vendas para o exterior têm vindo a crescer, com destaque para o crescimento “muito rápido” da venda de drones, que em 2025 representou já 21% do total (18% em 2024), aponta um estudo do Banco de Portugal, inserido no Boletim Económico de março.
“Vamos ter a capacidade de manter este ritmo quando esta torneira for fechada. Ou vamos ser a nova agricultura: ‘se há subsídios e SAFES a gente consegue crescer e pôr satélites no espaço e vender, por aí fora… No dia em que fecharem a torneira, conseguimos ou não conseguimos?”, questionou Francisco Oom Peres (Orion Technik), no debate “Europa à Defesa: O que Ganha a Indústria Portuguesa?”.
“Não querendo ser mal interpretado, [agora] é um momento em que é relativamente fácil vender no curto prazo, mas temos de nos preparar para o que vem a seguir, porque isto não vai durar sempre, como é expectável”, alerta.
Para manter essa dinâmica há que envolver outras empresas que não apenas do setor. “Isto não pode ficar restrito ao ecossistema das empresas de defesa e de espaço. Para que se torne numa tendência de longo prazo, precisamos rapidamente trazer outras áreas da sociedade que, por regra, não têm estado presentes”, defendeu o empresário. “Temos que pensar no sucesso destes negócios daqui a 10, 20 anos e não numa mera capacidade de ganhar negócio no curto prazo e capitalizar os fundos que atualmente estão disponíveis nos diferentes instrumentos.”
Fica o alerta em jeito de reflexão.
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