Solvência 2.1: Porto de Abrigo ou Motor de Reconstrução?

  • Nuno Oliveira Matos
  • 14 Agosto 2025

Nuno Oliveira Matos está preocupado com as novas ideias europeias. Trocar resiliência por esperança, disciplina prudencial por conveniência política, não devia ser pedido às seguradoras.

Vivemos tempos que pedem coragem. Coragem política, coragem empresarial, coragem regulatória.

Vivemos também tempos perigosos: instabilidade geopolítica, desglobalização, guerras comerciais, rearmamento massivo, populismos, extremismos, fake news, alterações climáticas, disrupção tecnológica, ameaças cibernéticas, transformação demográfica. E, no centro desta tempestade perfeita, espera-se que o setor segurador seja ao mesmo tempo porto de abrigo e motor de reconstrução e aceleração económica.

Precisamos de um novo contrato entre reguladores, empresas de seguros e sociedade. Um contrato onde se diga com frontalidade: se querem menor capital, terão de aceitar maior risco de insolvência

É neste contexto que nos chega a revisão de Solvência II. E com ela, o debate sobre o nível “certo” de exigência de capital. Reduzir requisitos de capital para libertar investimento? Aparentemente sensato. Mas não será essa uma solução demasiado fácil para um problema difícil?

A Chair da EIOPA (European Insurance and Occupational Pensions Authority) recentemente respondeu em carta aberta com prudência, e com razão: “Três vezes talvez seja motivo de preocupação”, disse. A expressão é mais do que retórica: é um alerta. Quando três premissas cruciais, a de que o capital libertado será investido em infraestruturas críticas e em iniciativas com impacto na economia, em transformação digital e em projetos verdes, permanecem envoltas em incerteza, o risco deixa de ser teórico e passa a ser sistémico.

Talvez esses investimentos venham, de facto, a acontecer. Talvez contribuam para a autonomia estratégica da União Europeia (UE) no mundo e para a necessária transição energética. Talvez até reforcem o papel social das empresas de seguros como investidores institucionais de longo prazo. Mas, também talvez, e aqui está o problema, esse capital acabe diluído em políticas de remuneração acionista, canalizados para ativos com mais risco ou absorvidos por prioridades de curto prazo. E talvez, só talvez, quando o próximo choque económico ou sistémico bater à porta, descubramos que trocámos resiliência por esperança, disciplina prudencial por conveniência política, numa promessa de investimento transformador que nunca se materializou.

“Três vezes talvez” não fazem uma estratégia, fazem um risco. E a Solvência II revista, aprovada pela UE, deve ser precisamente o antídoto contra isso.

O setor segurador não pode cair na armadilha do “curto-prazismo”. A sua razão de existir não é maximizar retornos no trimestre seguinte. É proteger o futuro das comunidades. E isso exige capital. Exige disciplina. Exige responsabilidade.

Querem que o setor invista mais? Muito bem. Mas antes de baixar os requisitos de capital de solvência, façamos primeiro as perguntas difíceis:

  • Por que motivo os fundos próprios “excedentários” não estão já a ser usados de forma transformadora?
  • Que incentivos reais têm os sãos e prudentes gestores das empresas de seguros para mudar o perfil de risco da sua carteira de ativos?
  • Onde está a evidência de que o problema é capital?

A verdade desconfortável é esta: reduzir capital num ambiente de incerteza crescente é como afrouxar o cinto de segurança porque o carro ainda não bateu.

Precisamos de um novo contrato entre reguladores, empresas de seguros e sociedade. Um contrato onde se diga com frontalidade: se querem menor capital, terão de aceitar maior risco de insolvência. E terão de provar, com dados, que esse risco é compensado por benefícios tangíveis para a economia e para os cidadãos.

Menos capital? Talvez. Mas só se houver mais transparência, mais responsabilidade e mais verdade no discurso político.

Porque de boas intenções estão os resgates bancários cheios!

E o setor segurador, que até agora tem sido exemplo de robustez, não pode dar um passo em falso!

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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