Stress no trabalho: quando a biologia entra em conflito com a agenda

  • Beatriz Subtil
  • 16 Janeiro 2026

Talvez o verdadeiro desafio do mundo corporativo não seja apenas reduzir as fontes de stress, mas aprender a trabalhar em sintonia com a nossa biologia.

O stress está na origem de muitos sintomas e problemas de saúde que hoje associamos ao mundo do trabalho. Quando essa exposição é prolongada e não acompanhada de recuperação, damos-lhe um nome que se tornou tristemente comum, o burnout. No fundo, trata-se de um esgotamento do sistema nervoso exposto cronicamente ao stress laboral. Mais do que um problema individual, é um fenómeno sistémico, com impacto na saúde das pessoas, no desempenho das equipas e na sustentabilidade das organizações.

Mas afinal, o que é o stress? Do ponto de vista biológico, o stress é uma resposta automática do sistema nervoso a uma ameaça percecionada no ambiente. É um mecanismo ancestral, moldado ao longo da evolução, que prepara o organismo para, literalmente, lutar ou fugir. O sistema nervoso acelera o ritmo cardíaco e a respiração, redireciona energia para os músculos, reduz funções como a digestão e foca a atenção para detetar, evitar ou combater o perigo. Tudo isto fazia sentido quando o risco era físico e imediato.

O problema é que, hoje, as ameaças raramente são predadores ou tribos rivais. São prazos apertados, agendas sobrecarregadas, competitividade entre colegas, excesso de tarefas, conflitos mal resolvidos, pressão constante por resultados, falta de clareza e reuniões sucessivas. O sistema nervoso não distingue uma ameaça física de uma psicológica ou social e reage da mesma forma. O corpo entra em modo de alerta como se estivesse em risco de vida, mesmo quando o «perigo» é um e-mail, uma reunião tensa ou uma conversa difícil.

Quando esta ativação se torna crónica, surgem os efeitos bem conhecidos – mente enevoada, dificuldade de concentração, tensão acumulada no corpo que se transforma em dores persistentes, irritabilidade, alterações de humor, cansaço profundo e perda de motivação. Tudo isto é, paradoxalmente, o oposto do que precisamos para trabalhar bem.

Infelizmente, a forma como tentamos gerir este stress acumulado tende a agravar o problema. Trabalhamos mais horas, descansamos menos, recorremos ao café em excesso e normalizamos a exaustão. Sem nos apercebermos, entramos numa luta contra a nossa própria biologia, uma luta que dificilmente ganhamos.

Gerir o stress começa por compreendê-lo. Para funcionar bem, o sistema nervoso precisa de se sentir seguro e regulado. É nesse estado que emergem o foco, a criatividade, a capacidade de decisão e a colaboração.

Para isso, o corpo precisa de descarregar a energia ativada pelo stress. O movimento é uma das formas mais eficazes para o fazer; exercício físico aeróbico, caminhar, subir escadas, no fundo, qualquer atividade que permita ao organismo usar os recursos mobilizados, completar o ciclo de «luta ou fuga» e regressar ao equilíbrio.

Mas não só. É igualmente essencial recuperar dessa ativação, ou seja, descansar, fazer pausas reais, reduzir estímulos, usar a respiração como aliada, passar tempo na natureza e investir em relações que promovam segurança e pertença.

Talvez o verdadeiro desafio do mundo corporativo não seja apenas reduzir as fontes de stress, mas aprender a trabalhar em sintonia com a nossa biologia. Porque quando deixamos de batalhar contra o corpo, abrimos espaço para trabalhar melhor, com mais clareza, saúde e sustentabilidade.

  • Beatriz Subtil
  • Comunicadora de Ciência e doutorada em Ciências Biomédicas

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