Sucesso empreendedor: Mais verdade e menos mito. Por favor.
Liderança verdadeira não se mede pela capacidade de esconder o que a gente sente, mas pela coragem de se conectar com o que nos torna humanos.
Vulnerabilidade não deveria parecer “sangrar num tanque de tubarões”. Mas, para a maioria dos empreendedores, é bem isso aí. Dizemos que queremos líderes autênticos, mas experimente contar a um investidor que você está à beira de um burnout ou que nunca mais foi o mesmo depois de perder alguém que amava. Puff: o entusiasmo evapora.
Criamos um ecossistema que, na teoria, valoriza a vulnerabilidade, mas, na prática, a pune. “Falar a verdade” é muito bonito em podcasts, mas deixa as reunião de board mais tensas que uma call sobre resultados sem Wi-Fi.
Esta contradição ficou clara para mim quando, em uma conversa off the record, um empreendedor me disse que falar sobre desafios emocionais enquanto escala a empresa era “como sangrar num tanque de tubarões”. Essa frase bateu forte e ficou ecoando.
Na tentativa de usar a comunicação para servir (não só para contar), tenho-me sentado com empreendedores mundo fora para ouvir e falar sobre o que raramente se fala: o peso invisível de escalar um negócio. E assim nasceu o projeto “Untold Stories”: uma coleção de histórias escritas por quem viveu na pele os bastidores do sucesso e decidiu tirar do silêncio o que o pitch deck não mostra.
Criamos um ecossistema que, na teoria, valoriza a vulnerabilidade, mas, na prática, a pune. “Falar a verdade” é muito bonito em podcasts, mas deixa as reunião de board mais tensas que uma call sobre resultados sem Wi-Fi.
A primeira temporada reúne sete empreendedores tão extraordinários no sucesso quanto na capacidade de transformar dor em sabedoria. Eis o que aprendemos até agora:
- Ser humano ainda é risco de imagem
Quando Daniela Binatti, cofundadora da Pismo (o unicórnio mais recente do Brasil, adquirido pela Visa em 2024) começou a construir a empresa, acreditava que a sua força vinha da capacidade de operar em alta intensidade o tempo todo. Movida pelo caos, ela prosperava sob pressão, até perceber que o corpo se tinha habituado a viver em modo de sobrevivência. Quando a calmaria chegou, veio o colapso. E foi nesse silêncio que ela entendeu: vulnerabilidade não é o oposto de força; é o que nos permite continuar inteiros depois da tempestade.
Tony Jamous, fundador da Oyster (outro unicórnio) cresceu no meio da guerra e percebeu que a sua compulsão por trabalho era a sua armadura.
No ecossistema empreendedor, honestidade emocional ainda é vista como risco — o silêncio aparenta ser mais seguro, mesmo quando nos destrói.
- Muitos ainda acham que estão sozinhos
Quando Javier Vallaure vendeu sua empresa Allpago, num dos maiores exits de fintechs da América Latina, esperava celebração. Mas a alegria coincidiu com a morte do pai e o nascimento do segundo filho. O resultado: exaustão, irritabilidade e, por fim, depressão.
Segundo um estudo da Endeavor Brasil, 85% dos empreendedores relatam ansiedade, 40% já enfrentaram burnout e um em cada cinco teve crises de pânico. Mesmo assim, a saúde mental é tratada como problema individual; afinal, quem precisa de apoio quando se tem resiliência no pitch deck, certo? E, nesse silêncio, vai-se quebrando o talento que sustenta o próprio ecossistema.
Até que alguém decide falar. E, de repente, o silêncio deixa de ser regra.
Quando um empreendedor se abre, outro, nalgum lugar, respira aliviado. E quando a equipa entende o peso que ele carrega, consegue dividir um pouco da carga; ou, pelo menos, entender o porquê do stress.
Num mundo que celebra empreendedores como super-heróis, a “Endeavor Untold Stories” nasceu para humanizar a jornada empreendedora. Para mostrar que vulnerabilidade não é o oposto de força, mas parte dela. E que liderança verdadeira não se mede pela capacidade de esconder o que a gente sente, mas pela coragem de se conectar com o que nos torna humanos.
- Empreendedores não sabem a quem recorrer
Nem o melhor terapeuta substitui a escuta de quem já viveu algo parecido. É por isso que círculos de pares, como os do programa Endeavor Outliers, fazem tanta diferença. Ali, não há respostas prontas, apenas sabedoria partilhada.
Por sinal, os dados mostram que empreendedores com mais de dez anos de jornada partilham os seus desafios com muito mais frequência, assim como surtam menos. Coincidência? Acho que não.
Num mundo que celebra empreendedores como super-heróis, a “Endeavor Untold Stories” nasceu para humanizar a jornada empreendedora. Para mostrar que vulnerabilidade não é o oposto de força, mas parte dela. E que liderança verdadeira não se mede pela capacidade de esconder o que a gente sente, mas pela coragem de se conectar com o que nos torna humanos.
Enquanto não conseguimos mudar o ecossistema da noite para o dia, podemos começar a mudar a narrativa, uma história de cada vez. Porque nenhum empreendedor é ninja das emoções. E, quanto mais rápido aceitarmos isso, mais forte será o que estamos a construir.
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Sucesso empreendedor: Mais verdade e menos mito. Por favor.
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