Sustentabilidade em Portugal: do progresso alcançado ao futuro que ainda temos de construir
Portugal percorreu um caminho considerável. Empresas integraram critérios ESG e algumas tornaram-se referências. Porém, os ecossistemas continuam a degradar-se e desigualdades sociais persistem.
No início dos anos 2000, as primeiras empresas portuguesas começaram a publicar relatórios de sustentabilidade. Faziam-no com uma mistura de entusiasmo pioneiro e alguma ingenuidade estratégica. A sustentabilidade era, na prática, um exercício de comunicação, um inventário de boas intenções e métricas cuidadosamente selecionadas. O planeta não estava a ser medido. Estava a ser descrito.
Nos 25 anos seguintes, Portugal percorreu um caminho considerável. As empresas amadureceram os seus sistemas de gestão ambiental, integraram critérios ESG nas suas estratégias e algumas tornaram-se referências europeias. No entanto, os ecossistemas continuam a degradar-se e as desigualdades sociais persistem com uma teimosia que envergonha. Portugal continua entre os países mais desiguais da Europa Ocidental. A pobreza energética afeta centenas de milhares. O interior despovoou-se. Fizemos muito e não foi suficiente. A questão não é de esforço. É de paradigma.
O problema central dos últimos 25 anos foi que gerámos impactos em vez de regenerarmos sistemas, naturais e sociais. A resposta mais poderosa a este desafio está à nossa volta há milhões de anos: a natureza opera sem desperdício, em ciclos fechados onde a diversidade gera resiliência e a simbiose substitui a extração. A economia circular é a tradução mais conhecida desta inspiração, mas segundo os dados conhecidos, apenas 2,8% da economia portuguesa é hoje circular. Temos o modelo certo. Falta a escala, a urgência e a coragem para o implementar.
É aqui que o conhecimento e a inovação se tornam decisivos. Não a inovação tecnológica convencional, mas a inovação sistémica, capaz de redesenhar modelos de negócio, cadeias de valor e políticas públicas a partir de princípios regenerativos. Portugal tem universidades, centros de investigação e empresas com capacidade para liderar esta transição, se soubermos criar os ecossistemas que transformam conhecimento em impacto real nos territórios e nas comunidades que mais precisam.
A Economia Regenerativa sintetiza o horizonte com clareza: a sustentabilidade mantém o que temos; a regeneração reconstrói o que perdemos. E não há regeneração sem justiça social. Uma transição que deixe para trás as comunidades mais vulneráveis, os trabalhadores dos setores em transformação ou os territórios do interior não é regenerativa, é apenas uma versão mais verde das mesmas desigualdades. A riqueza gerada pela transição precisa de chegar a quem mais precisa, não como distribuição assistencialista, mas como participação genuína na criação de valor.
Isso exige também uma transformação profunda na forma como as empresas medem o seu desempenho. Os indicadores atuais medem a eficiência com que uma organização usa o mundo. Não medem o estado do mundo depois de a organização ter operado. A próxima geração de reporte terá de responder a uma pergunta diferente: qual o impacto real, líquido e verificável das nossas atividades sobre os sistemas naturais e sociais em que operamos?
Os próximos 25 anos não são uma continuação dos últimos 25, são uma rutura necessária. Da eficiência para a regeneração. Dos indicadores para o impacto real. Da economia linear para a circular, e da circular para a regenerativa. De uma sociedade que tolera a desigualdade para uma que a recusa como incompatível com qualquer futuro que valha a pena construir. O futuro da sustentabilidade em Portugal não está nos relatórios. Está na saúde dos sistemas vivos e das comunidades que nos sustentam e na coragem e na inovação para os colocar no centro de tudo o que decidimos.
Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Sustentabilidade em Portugal: do progresso alcançado ao futuro que ainda temos de construir
{{ noCommentsLabel }}