Talento, tecnologia e o futuro próximo da advocacia

  • António Gaspar Schwalbach
  • 2 Março 2026

A advocacia continuará a exigir rigor, exigência e responsabilidade. O que pode mudar é a forma como lá chegamos. Menos volume, mais foco. Menos horas, mais valor. Menos burocracia, mais advocacia.

Acredito que a tecnologia, e em particular a inteligência artificial (doravante, IA), não nos vai substituir.

Para quem aceitar dar o salto em frente, a tecnologia pode apoiar e bem os advogados em tarefas sem valor acrescentado ou com valor reduzido, tais como, transcrições, preenchimento de fichas, elaboração de tabelas, comparação de documentos, pesquisa de jurisprudência e doutrina, revisões de texto, entre outras tarefas que consomem parte significativa do nosso tempo e dificilmente correspondem àquilo que um advogado anseia fazer profissionalmente.

Não se trata de confiar cegamente na síntese da doutrina ou ainda de delegar na IA a elaboração de documentos jurídicos. Quer os documentos que estão na base da pesquisa como os textos finais devem passar sempre pelo nosso crivo. Contudo, antes desse momento essencialmente intelectual e de foco, existem outros atos ou procedimentos que consomem tempo sem acrescentar valor.

Nas sociedades de advogados, em particular, habituámo-nos a um modelo de trabalho quase industrial – quase uma linha de montagem na qual os colegas mais jovens produzem os rascunhos que vão sendo revistos até culminar em documentos finais que, não raras vezes, são densos, volumosos e desalinhados das expectativas do cliente. Tudo influenciado por objetivos anuais de horas faturáveis…

Seja na prática individual ou numa lógica de prática societária, a tecnologia pode ser decisiva. E sejamos claros, não estamos a falar do futuro, mas do presente.

Porém, acolhendo a tecnologia na nossa atividade, torna-se também necessário mudar a mentalidade e a forma como organizamos equipas e refletimos sobre o talento.

Podemos agora trabalhar com equipas mais pequenas, mais experientes e mais concentradas no essencial.

Tudo isto, com consequências diretas na vida dos advogados. Menos tarefas secundárias significam mais tempo para estudar, refletir e decidir melhor. Significam, também, um maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal e, acredito, maior compromisso com o trabalho. Um advogado exausto raramente é um advogado brilhante.

Este novo paradigma coloca desafios acrescidos à liderança. Liderar deixou de ser apenas gerir pessoas e faturação. É criar um ambiente onde o talento queira permanecer. Não por inércia, mas por convicção. Em que queira crescer e sentir que faz parte de um projeto com visão de futuro que não se esgota na acumulação de horas faturáveis.

Para os advogados em geral, este admirável mundo novo exigirá que aprendam e saibam trabalhar com tais ferramentas. Não se trata de aprender linguagem binária ou programação, mas de compreender e aceitar que é necessário delegar tarefas à IA como o faríamos com um colega menos experiente. E claro, sem renunciar à revisão após o trabalho nos ter sido entregue.

Para os colegas mais novos, a IA não deverá representar uma barreira no acesso ao mercado, muito pelo contrário poderá criar mais estruturas onde poderão ingressar, uma vez que o mercado se deverá atomizar. Ainda assim, a IA impõe um enorme desafio: aprender a interagir com estas ferramentas numa fase em que a capacidade crítica ainda está em desenvolvimento.

A advocacia continuará a exigir rigor, exigência e responsabilidade. O que pode mudar é a forma como lá chegamos. Menos volume, mais foco. Menos horas, mais valor. Menos burocracia, mais advocacia. Um regresso às origens, mas com apoio da tecnologia.

É neste cruzamento entre tecnologia, cultura organizacional e exigência técnica que se jogará, nos próximos anos, a atratividade da profissão para as novas gerações.

  • António Gaspar Schwalbach
  • Sócio fundador da Spear Legal

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