TAP: quanto custa o frete?

  • Gonçalo Levy Cordeiro
  • 10 Dezembro 2020

Sem acordos escritos, e com a TAP a dar dores de cabeça, o Governo pôs um anúncio no jornal avisando que procurava “freteiros”. Afinal de contas, quanto é que custa o frete?

As eleições de Outubro de 2019 trouxeram uma novidade: a ausência de acordos escritos pelos parceiros da geringonça. António Costa achou que podia governar sem ficar agarrado aos seus parceiros defensores de tiranos. Marcelo, ansioso por ser mais votado nas presidenciais de 2021 do que Soares havia sido nas presidenciais de 30 anos antes, também optou por deixar passar este pequeno “pormenor” e não obrigar a acordos escritos como Cavaco havia feito.

Estava o primeiro-ministro muito satisfeito com o seu tabuleiro de xadrez, eis senão quando ‘Covid happens’ e faz cheque ao rei ainda ia António Costa na sua abertura e é aí que a geringonça desmoronou-se qual castelo de cartas e pôs a nu as rachas que separam PS, PCP e BE: Durante quatro anos, enquanto houve dinheiro para distribuir pelas clientelas do regime, foram todos camaradas. Porém, assim que perceberam que a torneira ia fechar (pelo menos até à chegada da bazuca) e a impopularidade ia subir de tom, as facadas nas costas sucederam-se em catadupa. Passados quatro anos de plácida (romântica?) convivência, bastou uma crise para que comunistas (em quaisquer das suas vertentes mais ou menos historicamente genocidas) e socialistas se chateassem. O PCP chumbou o Suplementar, mas viabilizou o OE 2021, já o BE viabilizou o primeiro e chumbou o segundo. Esta última separação não foi pacífica e teve trocas de ofensas mútuas que não ficam bem a quem partilhou o leito com tanta convicção quando “até as vacas [podiam] voar”.

Chegados a hoje, a geringonça passou da “boa nova” do colectivismo de esquerda a matéria putrefacta. E se é verdade que os comunistas estão habituados ao cheiro a podre que emanava dos corpos que se amontoaram nas ruas durante as suas campanhas de dekulakização, o governo parece ser menos disponível a conviver com odores nauseabundos. Sem acordos escritos, e com a TAP a dar dores de cabeça o Governo pôs um anúncio no jornal avisando que procurava “freteiros” (não de mercadorias). Esse jornal, claro está, é Marques Mendes.

Marques Mendes, esse caso raro de comentador que tem mais furos e exclusivos que qualquer jornalista, anunciou-nos que “o PS não tem maioria absoluta [e] não pode implementar uma coisa que custa tantos milhares de milhões de euros sem respaldo do Parlamento.” Por isso, se a Assembleia chumbar o plano, a TAP vai para liquidação.

Há dois pontos que convêm salientar:

  1. Em Junho deste ano, o Governo votou contra a proposta da IL para que qualquer transferência para a TAP dependesse de aprovação prévia do Parlamento;
  2. Há apenas duas semanas, o Governo rasgou as vestes pelo Parlamento se ter intrometido na injeção de capital do Novo Banco.

Resumidamente, o mesmo partido que, há apenas seis meses, não quis que as injeções de capital na TAP necessitassem da aprovação do Parlamento e que não quer que o Parlamento se meta em injeções de capital de empresas participadas pelo Estado (25% do Novo Banco é do Fundo de Resolução), vem hoje pedir autorização ao Parlamento para injectar mais dinheiro na numa empresa detida em 72,5% pelo Estado. Há coisas engraçadas, não há?

O que PS quer, é fazer aquilo em que António Costa é sempre exímio a fazer, ou seja, passar culpas. O Governo percebeu, com seis meses de atraso e depois de queimar 1200 milhões de euros dos contribuintes (mais 500 milhões orçados no OE 2021) que a TAP é aquilo que foi óbvio para Warren Buffett em Maio. Quando a Covid chegou, este investidor de longo-prazo vendeu os cerca de 10% que tinha em cada uma das quatros maiores transportadoras aéreas americanas, porque as empresas iam consumir muito capital e gerar pouca receita enquanto a pandemia durasse. Pedro Nuno Santos achou que devia fazer o contrário e reforçou a sua participação permitindo um bailout aos accionistas como referiu, e bem, Ricardo Reis no Expresso deste sábado.

Hoje o Governo vê-se a braços com uma decisão, no mínimo, aborrecida. Antes da nacionalização se a empresa fosse ao fundo, sempre podia culpar os privados. Hoje, por facciosismo ideológico de tudo nacionalizar e tudo controlar, só se pode culpar a si próprio. Por isso toca de propor uma votação à AR. Assim, se a empresa for salva e continuar decadente e a despedir pessoal como terá de fazer, sempre pode dizer que não é o único com culpas no cartório e que houve mais partidos a viabilizar. Por outro lado, se a empresa for liquidada na sequência do chumbo na AR, sempre pode dizer que se a TAP faliu foi porque a oposição quis que ela falisse.

Sendo isto claro, fica a pergunta: Quem é que vai fazer o frete? O PCP e o BE, ávidos que costumam ser a defender os “direitos do proletariado” andam a piar fininho quanto ao despedimento de milhares de trabalhadores e quanto aos cortes salariais. Ao votarem a favor, PCP e BE darão o seu aval a estas medidas. Será que isso vai travar o seu ímpeto nacionalizar? O dinheiro da reestruturação não seria melhor empregue no SNS ou na educação? Haverá medo de uma crise política que provoque eleições e a mais que expectável perda de mandatos para reaccionários e saudosistas? Poderão estas razões motivá-los a absterem-se ou a votarem contra? Tenho dúvidas. Porém, não deixará de ser curioso ver o contorcionismo. Que preço, eleitoral ou outro, estarão dispostos a pagar?

Adicionalmente, o que fará o PSD? Não há dúvidas que Rui Rio tem tendência para o frete político. Já acabou com os debates quinzenais ainda nesta legislatura, na esperança de que, ganhando as próximas eleições não tenha de ser sujeitado a essa coisa obtusa a que se chama escrutínio. Também já pôs as CCDRs e o Presidente do TdC no bolso. Votará ele a favor para não ser acusado de querer o fim da TAP? Se sim, em troca de quê?

Não deixa de ser desconcertante que seja um partido nascido em 2017 e com apenas um deputado, a Iniciativa Liberal, o único ter uma postura coerente ao longo de todo este processo na defesa intransigente do dinheiro dos contribuintes. O maior elogio, apesar de não ter sido essa a intenção, foi ter o ministro com a tutela (e a responsabilidade) deste fiasco financeiro, o já referido Pedro Nuno Santos, a denominar os membros da Iniciativa Liberal de “fanáticos”. Bastou meio ano para se perceber que o “fanático” era ele. Pena que seja das nacionalizações.

Como disse Miguel Quintas da Iniciativa Liberal, a TAP, que representa apenas 2% do PIB nacional, recebeu 1200 milhões de euros de apoios do Governo, enquanto os restantes 98% receberam apenas o dobro dos apoios que a TAP recebeu. Será que ser popular junto dos trabalhadores da TAP compensará a impopularidade junto dos restantes portugueses que não trabalham na TAP e que não têm os mesmos apoios? O que farão os outros partidos?

Sendo a TAP uma transportadora, é mesmo caso para perguntar: afinal de contas, quanto é que custa o frete?

  • Gonçalo Levy Cordeiro
  • Analista financeiro

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