Terá Ventura encontrado o seu Ventura?

Defende a alteração da lei do divórcio, que é ‘imoral’, que a laicidade do Estado é uma ‘aberração’ e a separação dos poderes executivo e legislativo um ‘cancro’.

Até Ventura aparecer, o CDS achava-se um muro, uma parede à direita da qual tudo estava salgado. Muita tinta correu, muito se teorizou sobre o nosso excecionalismo. Seria a vacina da ditadura, argumentava-se. Em 2019, a realidade bateu à porta e teimou em mostrar que nada fazia de nós diferentes do resto dos europeus.

Depois de perceber que muro não existia, chegou a teoria do teto. Em 2021, depois das presidenciais e do segundo lugar esforçado de Ana Gomes, havia gente, provavelmente a maioria do comentariado, que jurava a pés juntos que aquele seria o teto. Dos 10% não passaria. Em 2022, era o novo teto. Em 2024 e 2025, os mesmos arautos teorizavam o mesmo.

Já com um pé-direito alto e de alicerces bem fundeados, talvez Ventura tenha caído no mesmo erro de achar que à sua direita nada cresceria. A estratégia é compreensível: para furar o teto precisa de se moderar. Porém, uma e outra vez, não somos diferentes e aquilo que acontece no resto da Europa, atrasado, acaba por chegar. Em Itália, na Polónia, na Hungria, no Reino Unido ou em França os partidos radicais com a chegada ou a aproximação ao poder, viram-se flanqueados por quem os acha agora moderados ou aburguesados.

De resto, na história dos radicalismos nada disto é novo, há sempre quem ache o radical moderado. Cá não deverá ser diferente. Para Ventura, o dilema não é simples. Integrar o ideário do Reconquista pode evitar uma sangria à direita, mas pode afugentar o centro. Forçar o novo partido, por seu turno, pode institucionalizar o Chega, moderá-lo pela posição relativa, mas para além da realocação de votos, na moderação, não preferirão os eleitores o original à cópia? Se Ventura deixar de ser o que é, vale por quê?

O movimento Reconquista é um caso que, confesso, acompanho há mais de um par de anos. Essencialmente, pela falta de vergonha na boçalidade. É algo que me fascina.

Afonso Gonçalves é capaz de defender o cardápio de ideias mais imbecis de que me lembro de ouvir em Portugal. É abertamente racista, xenófobo, machista, homofóbico, chauvinista, caudilhista e podia continuar. Peço ao leitor que repare que isto não é a minha opinião. Se em outros casos é necessário discutir para averiguar acusaçõesdestas, Afonso Gonçalves faz o favor de assumir.

Entre o discurso da remigração – onde é que já ouvimos coisas similares? – é claro a afirmar que acredita na inferioridade intelectual de outras etnias e das mulheres. Aliás, é ao voto feminino que atribui a culpa da decadência ocidental. É, por isso, contra o voto das mulheres e, mesmo entre homens, devia ser censitário. E já é uma sorte. Defende a alteração da lei do divórcio, que é ‘imoral’, que a laicidade do Estado é uma ‘aberração’ e a separação dos poderes executivo e legislativo um ‘cancro’. Sobre o prazer no sexo, ‘é literalmente gay’.

A esta altura estará o leitor, justamente, a interrogar-se sobre a razão deste texto. Para além da evidente gravidade, a primeira, é porque vejo potencial eleitoral nisto. Logo, devemos estar atentos. De uma coisa tenho a certeza, se Marcelo falava das várias direitas, estou certo de que esta não é a minha e que com esta não é possível sequer conversar. Depois, porque algumas das pérolas mais alucinadas já foram apagadas, processo que acredito que, infelizmente, continuará. Contudo, Afonso, uma vez na internet, sempre na internet.

Na verdade, tudo isto não passaria de mais um debate de nicho se não levantasse uma questão politicamente mais relevante: o que acontece a Ventura quando deixa de ser o homem mais à direita da sala? A direita radical já mostrou que, em diferentes contextos, podem ser necessárias diferentes estratégias para crescer. Ventura passou anos a provar que havia vida para lá do muro da direita portuguesa. Pode agora descobrir, da pior maneira, que também há vida para lá de Ventura.

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