Tiremos o elefante da sala

  • Marlene Gaspar
  • 16 Junho 2026

Há pessoas que remam a favor da corrente, outras que remam contra. E há aquelas que navegam ao sabor do vento. São normalmente as mais difíceis de identificar, porque o silêncio também comunica.

A primeira vez que ouvi a expressão “temos de tirar o elefante da sala” foi há muitos anos, numa reunião com um advogado, a discutir um tema particularmente delicado. A determinada altura, ele interrompeu a conversa e disse: “Antes de continuarmos, temos de tirar o elefante da sala.” Confesso que não percebi.

Sorri, acenei afirmativamente e continuei a reunião como se soubesse exatamente do que estava a falar. Não sabia. Registei mentalmente a expressão para ir pesquisar mais tarde. Até perceber que um “elefante na sala” é um problema óbvio, conhecido por todos, mas que ninguém quer abordar.

Desde então, comecei a ver elefantes em todo o lado. É como quando estamos grávidas e, de repente, parece que só existem grávidas à nossa volta. Ou quando compramos um carro novo e passamos a ver o mesmo modelo em todas as esquinas.

Comecei a tropeçar em elefantes. E eu adoro elefantes. A viagem mais extraordinária que fiz foi ao Quénia, num safari. O animal que mais me fascina continua a ser a chita. Pela elegância. Pela beleza. Pela astúcia. Mas o elefante tem qualquer coisa de especial. É uma espécie de “panda dos Big Five”. Impõe respeito, ternura e admiração ao mesmo tempo. Na savana é magnífico. Numa sala de reuniões, é um martírio.

Porque um elefante numa sala não deixa de ser um elefante numa loja de porcelana. Ocupa espaço, condiciona movimento e obriga toda a gente a contorná-lo. E quanto mais tempo fingimos que ele não existe, mais estragos provoca. O primeiro deles é na confiança, porque todos o “veem”, sabem que está lá, mas ninguém fala sobre ele. E a confiança começa a partir-se precisamente aí.

Este texto não é uma fábula. Mas já que comecei com metáforas com fauna, mais vale pegar o touro pelos cornos.

Na comunicação, nas equipas, nas organizações e até nas famílias, os problemas raramente desaparecem porque decidimos ignorá-los. Pelo contrário, ganham dimensão, consomem energia, contaminam conversas e desviam a atenção. Transformam-se num ruído permanente que ninguém consegue explicar, mas que todos sentem.

Aquilo que devia estar concentrado na estratégia, na inovação, no crescimento ou simplesmente em fazer bem o nosso trabalho, acaba absorvido por algo que ninguém teve coragem de nomear.

Vejo isto muitas vezes nas organizações. Há pessoas que remam a favor da corrente, outras que remam contra. E há aquelas que navegam ao sabor do vento. São normalmente as mais difíceis de identificar, porque o silêncio também comunica. E, muitas vezes, é mais ensurdecedor do que as palavras.

A ausência de opinião, a falta de posicionamento, o compromisso seletivo, a capacidade de passar pelos pingos da chuva quando todos os outros estão à chuva é um desafio para a liderança e obriga a uma gestão mais assertiva, porque nem todos os elefantes fazem barulho e alguns limitam-se a ocupar espaço. E o elefante da sala nem sempre é uma pessoa. Às vezes é um medo, uma insegurança, uma mudança inevitável, um incómodo.

Quantas vezes ouvimos preocupações que raramente são verbalizadas de forma clara? Tomemos como exemplo a tecnologia, quem nunca pensou: “E se ela fizer melhor do que eu?”, “E se eu deixar de ser necessária?”, “E se perceberem que algumas tarefas afinal demoravam menos tempo do que imaginavam?, “E se, no final, me derem ainda mais trabalho?”

São receios legítimos e continuam a ser elefantes. Quanto mais fingimos que não existem, mais espaço ocupam. E mais, condicionam a forma como aprendemos, experimentamos e evoluímos.

Talvez por isso uma das competências mais importantes da liderança seja precisamente esta: identificar aquilo que todos estão a pensar, mas ninguém está a dizer. Não para criar conflito, ou para expor fragilidades. Mas para criar clareza.

Porque uma sala sem elefantes continua a ter problemas, continua a ter desafios, desacordos. Mas tem uma vantagem enorme, libertam espaço. E quando há espaço, há conversa, quando há conversa, há entendimento. E, quando há entendimento, normalmente encontramos melhores soluções.

Liderar também é isto, é ter coragem para dizer em voz alta aquilo que todos já sabem, mas nem todos se pronunciam.

E começar por aí. Como disse Desmond Tutu, sobre a neutralidade em situações de injustiça: “Se o elefante tem uma pata em cima da cauda do rato e tu dizes que és neutro, o rato não vai apreciar a tua neutralidade”.

Com este artigo, tirei um elefante da minha sala, porque uso e abuso muito desta expressão, o que de alguma forma também é terapêutico. E, para mim, também serviu para isso.

 

Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.

  • Marlene Gaspar
  • Diretora-Geral da LLYC

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