Trabalhar por Portugal coisa e tal

O PSD pretende durar sem fazer a mais pequena ideia sobre o que fazer com Portugal.

O PSD quer “Fazer Portugal Maior”. Neste programa político os portugueses vão subir mais alto, saltar mais longe, saber mais rápido. O programa de Montenegro é uma união de facto por conveniência entre dois parceiros de sexos diferentes – O Chega e o PS. Não será nunca um casamento de coligação com papel passado e registo em conservatória. No Governo, o PSD será o mais puro dos mais puros em nome de um “Portugal Maior” situado bem ao centro transformado no vazio de um fétiche político. A política para o PSD é uma relação precária e uma variante ao emprego casual com mútuo consentimento e em benefício de ambos as entidades – O PSD em minoria encontra um lugar livre e há uma lei para aprovar. Do elenco de todas as relações políticas haverá de surgir a grandeza de um “Portugal Maior”. Pois.

Está instalada uma dinâmica transaccional em que a política é uma roleta constante ao ritmo dos interesses políticos do momento. Hoje o PSD está próximo do Chega. Amanhã o PSD está próximo do PS. Se a proximidade não é possível levanta-se o fantasma das forças de bloqueio que se unem contra um Governo absolutamente ao centro a governar para fazer “Portugal Maior”. O país tem um Governo de marca branca que se apresenta com um propósito exclusivo de fazer um “Portugal Maior”. Mas maior como, para quê e para quem?

O PSD julga que pode ser tudo e o seu contrário. Portugal tem um Executivo social-democrata, liberal, conservador, tudo em convergência ao centro, porque nesta tábula rasa ideológica existe um único valor prático – Manter o sucesso de ser poder. O PSD só reconhece a ideologia do poder mais a obsessão de ganhar. Ganhar uma maioria absoluta em nome de um “Portugal Maior”? Talvez um Portugal maior do Minho a Timor ou no reconhecimento da soberania da Plataforma Marítima Continental.

O PSD vem afirmar perante o país que é a “referência do reformismo político”. O PSD vem informar o país que recusa a “irresponsabilidade do populismo e da imaturidade do Chega” e que combate a “estagnação do imobilismo e da estatização socialista”. Perante esta afirmação de grande estratégia política vários cenários se colocam. O Governo para obter o consentimento legislativo do Chega terá de ser cúmplice da irresponsabilidade, da imaturidade, do populismo. O Governo para obter o consentimento legislativo do PS terá de aceitar a estagnação, o imobilismo, a estatização. Qual a alternativa a estes dois cenários? A alternativa a estes cenários é a presunção de um Governo que está a dizer ao país que o PSD é a única força política maior capaz de trazer o PS e o Chega à boa razão reformista. O PSD não é apenas um partido, pois o PSD é o destino de Portugal.

Nesta função de salvar o país em nome das reformas que não diz e das reformas que não faz, o PSD escolhe para tema da moção ao Congresso o título “Fazer Portugal Maior”. O título preguiçoso e desinspirado não parece ser um activo político face à responsabilidade histórica e perante uma posição política em que o partido assume a função de pivot ao sistema político democrático. O Chega adora o slogan. O PS detesta o slogan. O país ignora a coisa. O título mais conveniente para o PS seria “Fazer Portugal Justiça Social”. O título mais conveniente para os portugueses seria simplesmente “Fazer Portugal Melhor”.

“Fazer Portugal Maior” é metade de um programa político que não existe e metade de uma aproximação à direita radical para a qual também não existe a coragem política para propor aos portugueses e à nação. O “Fazer Portugal Maior” ocupa o espaço das convicções políticas deixadas na gaveta esquecida de um partido sem visão, sem rumo e em crise de identidade. O “Fazer Portugal Maior” é o que se designa por “dog whistle politics” – Um modo de fazer política em que se sugere uma mensagem em código de modo a garantir o apoio de grupos particulares sem provocar oposição, controvérsia, atenção negativa, polémica. É a política a passear o cão.

Uma referência à teoria política das “cercas sanitárias”. A cerca sanitária não faz sentido porque “todos dialogam com todos e votam em concertação contra o Governo”. Informa o PSD que o “não é não” ao Chega é igual ao “não ao bloco central” com o PS. O Governo suporta-se em colunas que não chegam ao tecto. Entre linhas vermelhas e cercas sanitárias, o PSD apresenta-se como o partido para além da esquerda e da direita que tem uma característica essencial a uma boa governação – O PSD pretende durar sem fazer a mais pequena ideia sobre o que fazer com Portugal.

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