Transformar talento não é opção. É condição de sobrevivência

  • Patrícia Bispo
  • 5 Junho 2026

O que começa a distinguir organizações mais maduras é outra lógica, assente no desenvolvimento estruturado do talento interno e na antecipação das necessidades futuras de competências.

Durante anos, em Portugal, o discurso sobre talento foi quase sempre o mesmo: falta de pessoas, escassez de perfis, salários em alta e dificuldade em contratar. Embora, durante muito tempo, muitas organizações tenham aceitado essa leitura como suficiente, hoje, já não é. A diferença competitiva deixou de estar apenas na capacidade de atrair talento e passou, de forma muito clara, para a capacidade de o desenvolver internamente, com intenção e ligação real ao negócio. Depender apenas do recrutamento externo é uma estratégia frágil: é cara e lenta, aumenta a dependência de um mercado instável e, em muitos casos, nem sequer resolve as lacunas críticas de competências.

O que começa a distinguir organizações mais maduras é outra lógica, assente no desenvolvimento estruturado do talento interno, na antecipação das necessidades futuras de competências, na preparação das pessoas para funções em constante mudança e na redução do risco operacional, ao mesmo tempo que se ganha agilidade. Num contexto marcado por escassez estrutural de competências, aceleração tecnológica e pressão permanente sobre resultados, a formação deixou de ser um complemento e passou a ser uma alavanca de negócio.

Investir em upskilling e reskilling já não é apenas uma decisão de desenvolvimento, mas uma resposta concreta a desafios muito objetivos, como aumentar a produtividade, acelerar a adaptação, garantir a continuidade operacional, responder com maior rapidez à transformação das funções e reduzir a exposição a falhas críticas de execução.

Ainda assim, importa clarificar um ponto essencial: perceber a urgência do tema não significa, automaticamente, agir com critério. Muitas organizações continuam a abordar o desenvolvimento de competências de forma reativa. O discurso fala de transformação, aprendizagem contínua e futuro, mas a execução revela frequentemente iniciativas avulsas, fraca articulação com as prioridades do negócio, ausência de métricas claras, pouca evidência de impacto e investimento feito mais por impulso do que por estratégia. É aqui que importa ser direto: formar não é, por si só, transformar. É possível investir muito, mobilizar equipas, preencher agendas e gerar uma boa perceção imediata, sem alterar, de forma relevante, o desempenho. Um dos maiores riscos atuais está precisamente em confundir atividade com impacto.

Também a forma como olhamos para as soft skills está a mudar. Continuam a ser valorizadas, mas deixaram de poder viver apenas como linguagem de catálogo. Hoje, têm de provar utilidade na execução, sendo relevantes quando ajudam as pessoas a decidir melhor, comunicar com clareza, influenciar com eficácia, colaborar sob pressão, adaptar-se mais depressa e liderar em contextos de incerteza. Ou seja, deixaram de ser um fim em si mesmas, para se afirmarem como instrumentos concretos de performance. Em paralelo, cresce a exigência sobre hard skills ligadas à operação, à entrega e ao negócio, com o mercado a procurar cada vez mais competências aplicáveis, conhecimento acionável, aprendizagem com utilidade imediata e domínio técnico orientado à execução.

Essa mudança já se reflete nos modelos de aprendizagem. As organizações querem menos abstração e mais contexto real, procurando experiências que encurtem a distância entre aprender e aplicar. A expectativa é simples: aprender rápido, aplicar depressa, consolidar no terreno e medir o efeito. Assim se explica a crescente aposta em abordagens mais experienciais, interativas e diretamente ligadas ao contexto de trabalho. Não por moda pedagógica, mas por utilidade. Quando o negócio está sob pressão, a formação tem de gerar tração.

Outro sinal relevante é o papel crescente dos Recursos Humanos na agenda estratégica. Quando RH e negócio trabalham de forma mais próxima, torna-se mais provável construir uma gestão de talento mais integrada, coerente e sustentável, e menos dependente de decisões improvisadas. Ainda assim, convém não romantizar esta evolução: estar mais perto da estratégia não garante, por si só, capacidade de execução, e em muitas organizações continua a existir um fosso entre intenção e prática.

A isto junta-se a pressão da Inteligência Artificial, que já entrou definitivamente na agenda empresarial. A adoção continua, em muitos casos, cautelosa e centrada em ganhos de eficiência mais imediatos, revelando simultaneamente uma consciência clara do potencial e alguma prudência na forma de integração. Ainda bem que assim é, porque a questão não é apenas tecnológica, mas também humana, ética e organizacional. O verdadeiro desafio não está em usar Inteligência Artificial por tendência, mas em integrá-la com critério, assegurando propósito, ética, utilidade real e impacto positivo no desempenho.

No fundo, é aqui que a discussão se torna séria. O tema já não é formar mais mas formar melhor. Não é acompanhar tendências, mas fazer escolhas com valor. Não é afirmar que as pessoas são importantes, mas demonstrá-lo nas decisões que se tomam. É isso que separa organizações que apenas reagem de organizações que constroem capacidade interna. Num mercado como o atual, essa capacidade já não é uma vantagem opcional, mas é, de forma cada vez mais evidente, uma condição de sobrevivência.

  • Patrícia Bispo
  • Head of learning and development da GALILEU

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