Trocaram os impostos pelo Dubai e voltaram num Uber do Estado português
Fugiram aos impostos, gozaram com os que ficaram e, quando os mísseis chegaram, estenderam a mão ao mesmo Estado que tinham descartado. Bem-vindos ao maior cinismo fiscal de que há memória.
Era de manhã cedo. O homem chegou à Guerra de 1908 às sete da manhã e a guerra estava ainda fechada. Havia uma mulherzinha à porta a vender castanhas. Comprou umas, esperou, perguntou a que horas abriam aquilo.
Foi a Solnado que ficámos a dever esta crónica do absurdo português, a do herói que vai à guerra sem perceber bem porquê, que chega atrasado, que espera que alguém lhe diga o que fazer, e que, ao menor sinal de perigo, invoca a família, a saúde e o patriotismo pela ordem inversa à que os praticou.
Os nossos chicos-espertos do Dubai de 2026 – influencers, empresários e figuras públicas que trocaram Portugal pelos impostos zero dos emirados – fizeram o caminho inverso. Chegaram ao emirado quando a guerra ainda estava bem fechada e trataram de se instalar mesmo à beira da porta.
Porém, desta vez, quando a guerra abriu, não havia castanhas. Havia mísseis e, preso algures entre o pânico e a vergonha, um número de telefone que jamais pensaram ter de marcar: o da Embaixada de Portugal em Abu Dhabi. Aquela que funciona com os impostos dos “crédulos”.
“A que horas pensam atacar?”, perguntava o personagem de Solnado ao chegar à guerra. Os nossos chicos-espertos chegaram à pergunta equivalente pela positiva: a que horas saem os voos para Lisboa?
Na rábula de Solnado, o tio Gustavo chegava a casa com um jornal com um anúncio: “precisa-se de soldado que mate depressa.” Nos últimos anos, o anúncio que circulou nas redes sociais foi diferente, mas igualmente sedutor: “precisa-se de residente fiscal no Dubai. Oferece-se salário isento de impostos. Mordomias incluídas. Portugueses a pagar IRS não precisam de se candidatar.”
E lá foram eles. Aos centos. Armados não de cavalos comprados na feira, como a mãe de Solnado queria, mas de smartphones de última geração, contas bancárias nos Emirados Árabes Unidos e uma certidão de residência fiscal que lhes dava direito a exibir nos reels do Instagram aquilo que, no Portugal dos crédulos, nunca conseguiriam: piscinas infinitas, supercarros no estacionamento e o sorriso largo de quem descobriu o segredo do universo. O segredo, afinal, era simples: não pagar impostos.
Quem percorrer os canais de YouTube, os TikToks e os Instagrams dos nossos influencers emigrados para o deserto (alguns deles figuras públicas com passagem pela televisão) encontra um catálogo notável de sabedoria fiscal sob um tom comum: a glorificação da isenção de impostos no Dubai, a vida de luxo como prova de inteligência, e os que ficaram em Portugal a pagar impostos retratados como crédulos que não perceberam o jogo.
Só que a 28 de fevereiro os EUA e Israel lançaram uma ofensiva sobre o Irão que matou o Ayatollah Khamenei e pôs todo o Médio Oriente a arder. E, de repente, os emirados deixaram de ser aquela “vida de luxo” que prometiam nos thumbnails com palmeiras ao fundo. O Dubai, outrora sinónimo de segurança e bonança, acordou com a realidade de estar geograficamente encravado numa das regiões mais voláteis do planeta.
Havia quem estivesse disposto a regressar a uma zona de conflito ativo para garantir que não pagava impostos em lado nenhum. A guerra era inconveniente, mas o IRS era inaceitável.
Os vídeos pararam e os reels também. Mas os pedidos de repatriamento, esses, não pararam: chegaram a cerca de 400 pedidos de portugueses só nos primeiros dias. E aí veio o momento que a história não perdoa: os antigos apontadores do dedo, os que nos chamavam de crédulos por pagar impostos e sermos incapazes de “entregar metade dos lucros ao Estado português”, pegaram nos smartphones e, em vez de gravarem um reel numa mansão na Palm Jumeirah ou do cimo do Burj Khalifa, escreveram uma mensagem no grupo de WhatsApp da Embaixada de Portugal em Abu Dhabi.
“A que horas pensam atacar?”, perguntava o personagem de Solnado ao chegar à guerra. Os nossos chicos-espertos chegaram à pergunta equivalente pela positiva: a que horas saem os voos para Lisboa?
A maioria dos passageiros nesses voos de repatriamento eram turistas, portugueses que foram de férias e ficaram apanhadas pelo pior dos cenários possíveis. A esses, toda a solidariedade. Não escolheram viver no Dubai, nunca construíram uma identidade pública à volta de não pagarem impostos, nunca olharam para os que ficaram cá com a condescendência de quem descobriu um segredo que os outros são demasiado pacóvios para perceber. Mas entre os pedidos de ajuda contavam-se também residentes, os verdadeiros protagonistas desta história.
A resposta do Estado português foi, diga-se, perfeitamente razoável com todos os que pediram ajuda, e estava na lei antes de qualquer míssil ser lançado.
O Regulamento Consular, aprovado em 2021, é claro no artigo 32.º, ao descrever que a repatriação faz-se mediante compromisso de reembolso ao Estado das despesas suportadas. Nesta operação, o Governo fixou esse valor em 600 euros por pessoa, o equivalente, grosso modo, a um jantar de celebração num restaurante do Dubai pelo estatuto fiscal que tanto promoveram. Ninguém paga à saída e a fatura chega a casa, nos 30 dias seguintes. Tal como o IRS que, ao contrário deste, nunca chegou.
A reação de alguns residentes no Dubai foi imediata e reveladora. “Temos de pagar para sermos protegidos”, disse um português residente no emirado à Now, indignado. Curiosamente, é exatamente essa a lógica que os contribuintes que ficaram em Portugal aplicam todos os meses quando olham para o recibo de vencimento: pagamos impostos para sermos protegidos. A diferença é que eles o fazem antes da crise, e não durante.
Mas foi em França que a cena ganhou a dignidade que merecia, embora tenha precisado da ajuda da IA. Enquanto os influencers desembarcavam – bronzeados, atordoados e com o ego ligeiramente amachucado -, os guardas fronteiriços esperavam-nos com cartazes feitos à mão: “A todos os influenciadores e outras pessoas em paraísos fiscais como o Dubai, as autoridades fiscais desejam-vos um regresso tranquilo a França.” Uma receção digna de uma rábula. Solnado teria aplaudido de pé.
A mãe de Solnado dizia: “O meu filho vai a pé mas vai limpo.” Os nossos chicos-espertos do Dubai têm uma versão atualizada: “O meu filho vai para a zona de guerra, mas vai isento de impostos.”
A guerra não só esvaziou de gente o Dubai, como foi a demonstração de que construir uma vida fiscal sobre areia do deserto tem um risco que os reels de vida de luxo não costumavam mencionar nos primeiros trinta segundos de vídeo. E aqui entra o momento verdadeiramente sublime desta história, o twist que nem o genial Solnado teria imaginado quando criou a sua rábula.
Enquanto uma parte dos residentes portugueses no Dubai pedia desesperadamente voos para regressar a Portugal, outra parte, a mais abastada, a que primeiro fugiu quando os primeiros mísseis iranianos soaram sobre os emirados, estava a tentar fazer o caminho contrário: regressar ao Dubai.
Não por patriotismo emiradense ou por amor às palmeiras. Mas porque a residência fiscal nos Emirados Árabes Unidos exige uma presença mínima de 90 dias por ano no país, acrescida da posse de um cartão de residência. Ultrapassem esse limite no sentido errado – fiquem fora demasiado tempo – e o estatuto fiscal que tanto custou a construir, e que tão lucrativo foi, pode evaporar-se como água no deserto.
Por outras palavras: havia quem estivesse disposto a regressar a uma zona de conflito ativo para garantir que não pagava impostos em lado nenhum. A guerra era inconveniente, mas o IRS era inaceitável.
A mãe de Solnado dizia: “O meu filho vai a pé mas vai limpo.” Os nossos chicos-espertos do Dubai têm uma versão atualizada: “O meu filho vai para a zona de guerra, mas vai isento de impostos.”
No final da sua rábula, Solnado chega à guerra, enquanto aquela não abria, e compra castanhas à mulherzinha que esperava à porta. É uma imagem deliciosa: a guerra como espetáculo, o conflito como conveniente, o perigo como algo que acontece aos outros.
Os residentes portugueses no Dubai viveram durante anos com essa mesma ilusão: o mundo em convulsão era um problema dos ingénuos que não tinham tido a sageza de se mudar para um emirado sem impostos. As guerras eram uma abstração, o Estado era um parasita e a cidadania era um passaporte.
Depois a guerra abriu e descobriram que o passaporte serve para alguma coisa. Que o Estado, esse “palerma” coletivo, tem embaixadas, tem aviões, tem funcionários consulares que trabalham de noite e ao fim de semana para repatriar cidadãos. Que os impostos que os crédulos pagam também servem para financiar exatamente isso.
As papas de serrabulho que a mãe de Solnado preparou para o caminho eram feitas com amor. Os voos de repatriamento são feitos com dinheiro dos contribuintes. A diferença é que desta vez, ao contrário da rábula, a fatura chega e tem o nome de quem a deve pagar. Pelos vistos, afinal, não somos assim tão palermões.
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