Trump e o Irão. Resultado final será TACO ou MAGA?
Os 'bullies', lá no fundo, são fracos e inseguros e têm de recorrer à violência para completar falhas no ego. Na maioria das vezes, só param quando embatem na realidade. Donald Trump não é exceção.
Donald Trump já há muito que nos habituou ao seu comportamento errático, pleno de tiradas de autoelogio (“eu sou o melhor de sempre a fazer x, y ou z”), insultos aos adversários (“és lento/burro/aldrabão/comunista”) e invenções tragicómicas (quem não se lembra do “Cofveve” do primeiro mandato?). Mas, infelizmente, o presidente americano continua a superar-se neste campo. A conferência de imprensa que deu na segunda-feira antes de embarcar no Air Force One foi um novo ponto alto (ou baixo, dependendo da perspetiva) da bizarria do republicano.
Depois de, no sábado, ter lançado um ultimato, dando 48 horas para o Irão reabrir o crucial Estreito de Ormuz sob pena de ver as suas infraestruturas de energia “obliteradas”, Trump anunciou na sua rede social que afinal ia dar mais tempo, cinco dias, pois os Estados Unidos estão em negociações com o Irão sobre um acordo que será firmado muito em breve. Surpreendente? Sem dúvida. Bom para os mercados? Sem dúvida.
Mas à medida que Trump ia explicando a situação à porta do seu avião, as dúvidas começaram a voar. Questionado sobre com quem os EUA tinham falado, Trump ofuscou, dizendo que não foi com o aiatola Khamenei, cujo paradeiro ninguém parece conhecer, mas sim com alguém de topo da liderança iraniana, ou pelo menos de que resta dela. Sobre os termos do acordo, foi igualmente vago. Quantos pontos são? Atirou para o ar que são 15, mas elencou menos de uma mão cheia – a proibição total de o Irão ter armas nucleares e a obrigação de desbloquear de imediato o Estreito por onde passava um quinto do petróleo mundial. Esse canal deverá ser gerido de forma conjunta. Por quem? Pelo próprio Trump, talvez, com o próximo aiatola, seja ele quem for, disse, numa referência muito vaga sobre a mudança de regime.
Os acontecimentos que se seguiram a (mais) essa bizarra intervenção do republicano reforçaram as dúvidas. O Irão negou qualquer contacto com os EUA, com algumas fontes do regime chegando até a ironizar, dizendo que Trump já sabe que perdeu a guerra e que ficou a falar sozinho. É difícil, claro, dar grande credibilidade ao que dizem oficiais de um regime brutal e ferido como o iraniano, mas o ponto de análise tem de ser mesmo este. O que é que motivou o volte face de Trump e qual é o seu endgame para a guerra?
Mesmo pondo de parte a especulação que alguém perto de Trump possa ter registado ganhos significativos com a queda do preço do petróleo e a subida das ações com operações feitas momentos antes do anuncio das conversações, a resposta pode residir ainda nos mercados financeiros. Cada vez que uma invetiva de Trump impulsiona de forma significativa a taxa de juro da dívida soberana a 10 anos no mercado secundário (as ‘treasuries‘) o presidente recua.
Há um histórico. Em abril de 2025, quando essa yield ultrapassou os 4,5%, Trump começou a falar de pausar as agressivas tarifas comerciais e a procurar acordos. O mesmo aconteceu com a pressão a Jerome Powell, o presidente da Reserva Federal (Fed) que Trump queria despedir por ser lento a descer as taxas de juro. Os investidores, não só na dívida mas também em ações, começaram a manifestar preocupações sobre o impacto da interferência da Casa Branca na política monetária e começaram a vender os ativos. Resultado: Trump foi forçado a deixar Powell no cargo até ao final do mandato em maio, ficando-se por uma investigação governamental sobre eventuais irregularidades.
Mesmo a escolha de Kevin Warsh, o mais ‘independente’ de quatro candidatos para suceder a Powell na Fed terá sido orientada pela necessidade dos investidores da manutenção de pelo menos alguma separação do poder político do monetário. Também na tentativa de anexar a Gronelândia, o presidente americano acabou por negar (noutro discurso frenético, em Davos) a intenção de usar força para conquistar o país ártico, mas apenas depois de os mercados terem reagido de forma negativa às ameaças de tarifas adicionais aos países europeus que não cooperassem.
Em maio do ano passado, os recuos do presidente americano até ganharam uma sigla própria. Num artigo de opinião no Financial Times, Robert Armstrong, cunhou o termo ‘Trump Always Chickens Out’ (TACO), algo que se pode traduzir como ‘Trump Acobarda-se Sempre’, para descrever uma estratégia de mercado de comprar ativos que perdem valor quando o presidente anuncia medidas combativas e depois revender mais caros após o recuo
Em maio do ano passado, os recuos do presidente americano até ganharam uma sigla própria. Num artigo de opinião no Financial Times, Robert Armstrong, cunhou o termo ‘Trump Always Chickens Out‘ (TACO), algo que se pode traduzir como ‘Trump Acobarda-se Sempre’, para descrever uma estratégia de mercado de comprar ativos que perdem valor quando o presidente anuncia medidas combativas e depois revender mais caros após o recuo.
Todos os presidentes americanos têm de ter um olho no dinheiro e nos mercados, claro. No caso de Trump, para além da sua ligação óbvia ao mundo das finanças durante a carreira empresarial, o regresso à Casa Branca foi muito alavancado pela promessa de fazer crescer a economia (por exemplo através das tarifas e de cortes nos impostos) de forma a reduzir o rácio da dívida face ao PIB e de fazer descer o custo de vida dos americanos. Qualquer política que afete este dois fatores terá de ser condicionada, especialmente à medida que se aproximam as eleições intercalares. Voltando ao Irão, a escalada da guerra teve um impacto direto nos dois – abalou o custo da energia a nível global (e embora os EUA tenham independência energética acabam por pagar o preço via aumento dos preços de importações de outros produtos) e assustou os mercados financeiros.
Nem todos os recuos de Trump têm a ver com mercados e dívida. A travagem das deportações em massa de imigrantes pelo ICE no estado do Minnesota só aconteceu depois de mortes de cidadãos americanos, pressão judicial e resistência a nível local. No caso das tarifas comerciais teve de ser o Tribunal Supremo a dizer não. Os apoiantes do movimento Make America Great Again (MAGA), dizem que é a estratégia de Trump para atingir objetivos – atacar com força e depois sair por cima numa negociação. Há outra forma de ver isto tudo. Trump é um ‘bully’ impulsivo que age para insuflar o ego e só pára quando atinge a parede da verdade. Como todos os ‘bullies‘, é fraco e inseguro, e por isso é que tem de usar a violência e ataque para impor as suas posições. Como qualquer valentão de recreio, tem de ter os seus sidekicks, neste caso os insaciáveis Benjamin Netanyahu e Pete Hegseth.
Vamos ver o que vai acontecer no Médio Oriente. Israel continua a a atacar o Líbano e os EUA estão a enviar mais tropas para o terreno. Uma operação no terreno seria muito difícil de explicar aos cidadãos americanos, ainda traumatizados por Iraque, Afeganistão e Vietname, portanto esse envio deve servir para pressionar o Irão, que está a avaliar a proposta de Trump. Mas é difícil acreditar que o regime da república islâmica aceite um acordo que implique a sua própria queda, portanto um eventual acordo irá ser uma divisão de ganhos e perdas. Pode mesmo acabar por ser uma derrota TACO que Trump irá tentar pintar de vitória MAGA.
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