Um 2026 “segurado” pela tecnologia
Pedro Santos Gomes considera o setor segurador prudente em dados, confiança e estabilidade. Mas é precisamente essa natureza que torna o desafio da transformação tecnológica tão relevante.
Hoje, as seguradoras portuguesas vivem um momento de viragem: têm um setor capitalizado, resiliente e com provas dadas, mas enfrentam um contexto em que a inovação tecnológica deixou de ser um fator diferenciador para se tornar essencial à competitividade.
Em 2026, é improvável que assistamos a revoluções significativas. Contudo, veremos uma consolidação de tendências, como uma maior clareza estratégica sobre o potencial da inteligência artificial (IA), investimento contínuo na modernização dos sistemas core e um foco redobrado na eficiência e na digitalização das jornadas de cliente. O ritmo pode ser gradual, mas a direção é inequívoca.
A adoção tecnológica traz consigo desafios profundos. O primeiro é a qualidade e interoperabilidade dos dados, ainda fragmentados por silos de informação. Sem dados consistentes, a IA e a automação perdem força. O segundo é o défice de talento especializado, entre profissionais de IT, especialistas de IA e especialistas em automação, num mercado onde a procura supera largamente a oferta. Por último e não menos importante, temos a dimensão ética, exigindo-se o uso responsável e transparente da IA, com reforço da proteção de dados pessoais e da confiança do consumidor.
Em Portugal, as seguradoras estão a integrar IA e machine learning em áreas como a subscrição, a gestão de sinistros e o contacto com o cliente. Chatbots e assistentes virtuais tornaram-se mais humanizados, os processos de sinistros ganham velocidade através da automação e surgem experiências cada vez mais personalizadas. Simultaneamente, o avanço da Internet das Coisas (IoT) abre caminho a novos modelos de negócio: por exemplo seguros automóvel baseados em telemetria, soluções domésticas conectadas e produtos ajustados ao comportamento real dos clientes. Este novo paradigma obriga também a reforçar a cibersegurança, já que quanto mais digital for o setor, maior será a exposição a novos riscos.
Do mediador ao modelo digital-first
O nível de digitalização das seguradoras portuguesas pode ser descrito como “moderado a avançado”, ou seja, há um claro espaço para evolução. As operações internas já beneficiam da automação e da análise de dados, mas os canais digitais ainda não substituem integralmente os tradicionais. Os mediadores continuam a dedicar tempo a tarefas operacionais, que poderiam ser automatizadas, e as vendas online, embora crescentes, ainda representam uma fração do total.
Em capacidades digitais, podemos afirmar que as bases são sólidas, mas há um espaço considerável para a evolução dos modelos de negócio e operacionais, sendo que as insurtechs impulsionaram uma verdadeira disrupção. A principal diferença reside na transformação dos modelos de negócio com redes de mediação e a cultura organizacional tradicionais para um modelo digital-first.
Hoje, podemos afirmar que o setor segurador português entrou numa nova fase: a da IA aplicada ao negócio real. Se antes era uma tecnologia em fase de experimentação, hoje já é uma prioridade de investimento para a maioria dos gestores. A IA está a ser utilizada em centros de contacto, deteção de fraude, gestão de sinistros e cibersegurança, com resultados visíveis em eficiência e qualidade de serviço. Contudo, a maturidade plena ainda está por alcançar. Faltam dados integrados, processos adaptados e talento qualificado. A próxima etapa será escalar estas iniciativas e incorporá-las de forma transversal em toda a cadeia de valor.
As seguradoras mais bem preparadas serão as que conseguirem combinar inovação tecnológica, eficiência operacional e solidez financeira. A IA e a automação permitirão reduzir custos e melhorar rácios de eficiência, mas o verdadeiro diferencial estará na capacidade de personalizar produtos e experiências: seguros “à medida”, ajustados ao risco individual e ao comportamento do cliente.
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