Um ano depois do apagão: para estarmos on, precisamos de água — e para termos água, temos de estar on
Onde estavas tu no dia do apagão? Eu estava no centro de operações da EPAL.
Faz agora um ano que ficámos às escuras. Às 11h33 de 28 de abril de 2025, a Península Ibérica perdeu, de forma generalizada, o fornecimento de eletricidade — com impactos diretos na mobilidade, nas comunicações e nos serviços essenciais.
Mais tarde, ficou claro que se tratou de um evento sem precedentes: falhas em cascata, associadas a problemas de controlo de tensão e de potência reativa e a desligamentos de geração em Espanha.
Este texto não é sobre a “anatomia” do colapso elétrico — essa análise é necessária e, em grande medida, já foi feita.
Este texto é sobre o que o apagão revelou: a nossa dependência do nexo eletricidade–água.
Onde estavas tu, no dia do apagão?
A pergunta tornou‑se ponto de encontro e conversa de jantares. Grandes falhas sistémicas dão sempre boas histórias — certo? Cada pessoa guarda uma imagem desse dia: o semáforo apagado, o elevador parado, o rádio como linha de vida.
Eu fui para o centro de operações da EPAL.
Fui porque, num evento desta natureza, há dois setores que deixam de ser “infraestrutura” e passam a ser “condição”: energia e água. E porque há uma regra simples que, em dias normais, quase não se nota:
A água não “corre” sem energia. E a energia não é resiliente sem água.
O que vi: resposta pronta — na medida do possível.
No centro de operações, vi o setor da água fazer aquilo que faz todos os dias, mas sob pressão extrema: garantir um serviço público essencial com recursos limitados e num contexto de incerteza elevada. Vi, sobretudo, três coisas: pessoas a darem prioridade ao essencial — operar sistemas críticos, gerir reservas, proteger qualidade e segurança; competência operacional e capacidade de decidir sob incerteza.
O apagão mostrou‑nos, de forma particularmente clara, que a falha elétrica cria uma cascata de dependências que custa (mesmo!) antecipar quando tudo funciona.
Já depois do apagão, e às claras, a ERSAR recolheu informação junto das entidades gestoras e partilhou lições aprendidas: reforço da capacidade de operação manual; identificação de fontes alternativas de energia e de comunicações; definição rigorosa de clientes prioritários; garantia de meios de abastecimento de emergência; realização de exercícios; e melhoria do registo de eventos e impactos.
E sim, houve desconforto.
Nem todas as entidades gostam quando a realidade é posta em checklist. E a verdade é que a resiliência entra, por vezes, em tensão direta com estratégias de eficiência e de otimização operacional que custam a conceber, financiar e implementar.
Mas a regulação serve precisamente para isto: transformar aprendizagem em melhoria estrutural, e não em boas intenções.
O setor pode não gostar da fotografia. Ainda assim, precisa de a usar para corrigir o que for necessário.
O apagão ajudou, também, a tornar evidente que o nexo água–energia tem múltiplos significados, com sentidos de marcha distintos.
Ora falamos da energia necessária para produzir, tratar e distribuir água; ora falamos da água necessária para produzir, transportar e distribuir eletricidade.
No primeiro sentido da marcha, vale a pena falar da dessalinização, sobretudo por osmose inversa. Trata‑se da produção de água doce a partir de água do mar. É tecnicamente viável, mas energeticamente exigente e, só por isso, não resolve todos os problemas de escassez que se imaginem para Portugal. As relações variam por projeto, mas é comum trabalhar com ordens de grandeza de ~3 kWh por metro cúbico de água dessalinizada, em condições eficientes.
A tradução direta é esta: quanto mais cara for a eletricidade, mais cara é a água dessalinizada.
Bombar, tratar água e distribuí‑la também consome eletricidade. O Grupo Águas de Portugal é o maior consumidor público de eletricidade em Portugal. Aposto que não sabiam. Isto não é uma curiosidade estatística. É sinal de escala: a política energética afeta diretamente a sustentabilidade económica do ciclo urbano da água.
No sentido inverso da marcha, importa recordar que, na reposição do sistema elétrico português após o apagão, foi determinante a capacidade de arranque autónomo (black start), a partir da central hidroelétrica de Castelo de Bode. O debate pós‑apagão conduziu, aliás, ao alargamento do número de centrais com essa função, incluindo outras infraestruturas hídricas.
Mais, a digitalização de todos os setores — incluindo o energético — assenta em data centers. E data centers precisam de energia e água para arrefecimento e operação. Mesmo quando se fala de eficiência e boas práticas, o tema é inequívoco: o crescimento da infraestrutura digital cria pressão adicional sobre os recursos hídricos.
A eletrólise que produz hidrogénio tem, também ela, um pré‑requisito material: água. A molécula indispensável é a mesma que tratamos, distribuímos e protegemos todos os dias. Por isso, qualquer estratégia séria de hidrogénio precisa de integrar o tema hídrico — disponibilidade, qualidade e custo.
Isto para nem falar do mix de renováveis (onde se incluem, claro, as hídricas) e do bem que tem feito a Portugal, e à nossa conta de eletricidade, nestes tempos de grande, grande incerteza e tensão no médio oriente.
Enfim. Um ano depois do apagão, se tivesse de resumir, diria isto em cinco pontos diretos e operacionais:
Resiliência não é um PowerPoint; é treino e redundância testada.
Água e eletricidade devem planear em conjunto — antes da crise.
A autonomia energética das infraestruturas críticas tem de ser real e verificável.
A digitalização e a descarbonização aumentam interdependências — não as reduzem.
E… o apagão foi um ensaio involuntário. O próximo não pode apanhar‑nos no mesmo ponto.
Volto à pergunta: onde estavas tu no dia do apagão?
Eu estava no centro de operações da EPAL. E vi, com enorme clareza, que o futuro “mais verde”, “mais digital” e “mais eletrificado” só será robusto se for também mais resiliente.
Para estarmos on, precisamos de água. E para termos água, temos de estar on.
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