Um momento decisivo de liderança para a universidade

O verdadeiro risco não é a língua em que ensinamos. É deixarmos passar a oportunidade de elevar a universidade portuguesa ao nível de ambição que o país merece.

A recente controvérsia em torno do despacho do novo reitor da Universidade Nova de Lisboa coincidiu com o lançamento do livro Direito da Língua, que representa uma perspetiva sobre a universidade e o uso do inglês formada num contexto institucional distinto do atual. A conjugação destes momentos desencadeou um debate público intenso e, por vezes, emocional. Mas mais do que um episódio circunstancial, este momento pode revelar-se decisivo para o futuro das universidades em Portugal.

Quando discussões académicas se transformam em trocas de acusações ou metáforas de rutura, o essencial perde-se. As universidades devem ser espaços de racionalidade crítica, elevação intelectual e ambição estratégica. É precisamente por isso que importa recentrar esta discussão.

Escrevo não para apontar responsabilidades individuais, mas como professor que construiu a sua carreira académica fora de Portugal e que tem colaborado com a Nova SBE com um único propósito: fortalecer a academia portuguesa, formar talento e contribuir para o progresso do país. É nesse espírito – construtivo e institucional – que procuro olhar para este momento não como um conflito, mas como uma oportunidade.

A verdadeira questão aqui não é a língua. É a liderança.

Um novo reitor pode limitar-se a gerir equilíbrios internos. Ou pode assumir a responsabilidade de definir rumo – usando um momento de tensão como ponto de partida para uma reflexão estratégica sobre o posicionamento da universidade num contexto global cada vez mais competitivo.

Nas universidades que competem seriamente a nível internacional, a escolha de um reitor é, em si mesma, uma afirmação estratégica. Resulta frequentemente de processos de busca alargados, com escrutínio externo, orientados para identificar líderes com reconhecimento científico sólido, experiência de gestão em ambientes exigentes e visão clara para posicionar a instituição globalmente. Nesses contextos, liderança não é mera gestão administrativa; é definição de direção e mobilização institucional.

Em Portugal, o modelo é diferente. Os reitores são, na maioria dos casos, escolhidos a partir de dentro da própria instituição, através de processos que privilegiam representação e continuidade. Este modelo assegura estabilidade e conhecimento interno, mas tende também a preservar equilíbrios e estruturas existentes. Num sistema onde a continuidade é valorizada, a ambição reformista torna-se ainda mais exigente – mas não menos necessária.

Merece lembrar que, em boa verdade, a questão estrutural que tem limitado o progresso das universidades em Portugal vai muito além da liderança de um reitor. Persistem ainda várias rigidezes externas e internas que importa reconsiderar.

Entre as externas, destacam-se o teto uniforme de propinas, a forma como o número de vagas por curso é determinado, carreiras académicas fortemente regulamentadas e financiamento largamente dependente de verbas públicas. Este modelo caracterizado por um controle rígido e excessivo do estado garantiu acesso e estabilidade. Mas o contexto internacional alterou-se profundamente. Universidades competem por talento, reputação e financiamento num mercado global.

Ao limitar a capacidade das instituições para ajustar preços, expandir áreas de elevada procura ou reformular ofertas em declínio, o sistema reduz incentivos à diferenciação. A uniformização das propinas, independentemente do rendimento familiar ou do retorno esperado dos cursos, pode ainda gerar efeitos regressivos, dispersando recursos que poderiam ser direcionados de forma mais eficaz para bolsas robustas e mecanismos redistributivos bem desenhados.

Há também rigidezes internas que frequentemente criam tensões entre faculdades com níveis distintos de ambição estratégica e exposição internacional. Diferentes unidades têm missões e públicos distintos. Algumas operam em mercados académicos globais altamente competitivos, disputando talento e financiamento à escala europeia ou mundial. Outras desempenham funções mais diretamente orientadas para necessidades nacionais ou regionais. Ambas são fundamentais para a criação de conhecimento científico e para o desenvolvimento do país. É precisamente essa complementaridade que pode elevar o prestígio e a relevância da universidade como um todo.

Uma governação que ignora esta heterogeneidade e aplica regras uniformes a realidades estratégicas distintas limita a capacidade de cada unidade cumprir plenamente a sua missão. Diferenciação de autonomia não é privilégio; é reconhecimento de diversidade institucional e condição para excelência coletiva.

Vários países europeus enfrentaram desafios semelhantes e optaram por soluções estruturais. Em França, a Toulouse School of Economics ganhou autonomia significativa dentro de um sistema tradicionalmente centralizado. Na Dinamarca, a Copenhagen Business School afirma-se como universidade pública fortemente internacionalizada, com programas em inglês e recrutamento global de docentes. Nos Países Baixos e na Áustria, universidades públicas combinam financiamento estatal com autonomia estratégica considerável. No Reino Unido, instituições como a London School of Economics consolidaram autonomia no seio de uma estrutura federativa, enquanto outras, como o Imperial College, evoluíram para plena autonomia institucional quando entenderam que essa era condição para competir ao mais alto nível.

Nenhum destes casos implicou abdicar da missão pública do ensino superior. Mas todos reconheceram que uniformidade administrativa e controlo excessivo são difíceis de compatibilizar com ambição internacional sustentada.

É neste enquadramento — de diversidade institucional, competição global e necessidade de liderança estratégica — que deve ser lido o recente despacho da reitoria sobre a utilização da língua inglesa.

A língua portuguesa é parte essencial da nossa identidade cultural. Mas uma universidade pública é também um instrumento de desenvolvimento científico, económico e social. Se o objetivo é criar valor para o país, produzir investigação relevante e posicionar Portugal nos circuitos internacionais de conhecimento, a questão central não é a língua em que se leciona uma disciplina. É a capacidade de atrair talento global, integrar redes internacionais de investigação e oferecer aos estudantes uma experiência académica alinhada com padrões europeus e internacionais.

Num sistema académico onde o inglês se tornou a língua franca da ciência e da cooperação transnacional, limitar estruturalmente a sua utilização pode reduzir a capacidade de atrair docentes e estudantes estrangeiros e enfraquecer a inserção institucional em redes globais. Universidades que competem à escala europeia não apenas formam estudantes internacionais; criam ecossistemas de investigação, promovem inovação e reforçam a projeção externa do país. A exposição a ambientes multiculturais não dilui identidade — amplia horizontes.

Este tipo de debate surge num contexto internacional mais amplo. Em várias democracias, temas ligados à identidade — língua, símbolos nacionais, imigração — tornaram-se instrumentos de mobilização política e de polarização social. As universidades não podem cair na tentação de transformar discussões académicas em disputas simbólicas que alimentem lógicas de identidade ou nacionalismo defensivo. A responsabilidade de um reitor é precisamente evitar esse desvio e afirmar a universidade como espaço de racionalidade, pluralismo e ambição internacional.

O lançamento do PULSAR — Universidade e Espaço Público, um ciclo permanente de palestras e fóruns dedicado às grandes questões do nosso tempo — demonstra a preocupação do novo reitor em reforçar o papel da universidade como plataforma de reflexão nacional e espaço de debate qualificado. Esse espaço pode tornar-se também o ponto de partida para uma discussão estruturada sobre as reformas de que o ensino superior português necessita: desde o desenho das licenciaturas que prepararão as próximas gerações para um mercado global competitivo, até aos modelos de funcionamento e financiamento das faculdades, às estratégias de atração e retenção de talento internacional — estudantes e docentes — capazes de criar ecossistemas de investigação dinâmicos e universidades mais plurais, cuja diversidade cultural e intelectual reforça a capacidade do país reter conhecimento e gerar inovação.

Portugal precisa de um reitor que lidere esta conversa. Este pode ser esse momento – e a Universidade NOVA pode sair da controvérsia atual mais forte, tornando-se exemplo de como uma universidade pública europeia pode conciliar ambição internacional, identidade cultural e missão pública.

O verdadeiro risco não é a língua em que ensinamos. É deixarmos passar a oportunidade de elevar a universidade portuguesa ao nível de ambição que o país merece.

  • Colunista convidado. Professor Catedrático de Políticas Públicas e Economia da University of Southern California

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