Editorial

Um regresso ao passado nas universidades?

A língua é parte essencial da identidade cultural. Mas uma universidade pública não é apenas um símbolo identitário, é mesmo um instrumento afirmação numa economia globalizada.

Enquanto Mariana Mortágua passa a diretora do departamento de doutoramentos no ISCTE e Macroeconomia II no ISEG é lecionado por Francisco Louçã, acompanhado de mais dois membros do Bloco de Esquerda — se não há parlamento, há sempre a academia… –, o recém eleito Reitor da Universidade Nova de Lisboa decidiu abrir um confronto público com a Nova SBE. Porquê? Tem autonomia de gestão e usa-a, coisa que lhe permitiu ser uma escola de excelência, com um peso elevado de alunos estrangeiros, e mostra que o ensino superior é uma alavanca da competitividade do país.

O que é que está, afinal, em causa? Um despacho emitido pelo reitor, Paulo Pereira, indica que, no prazo de três meses, as faculdades da Universidade Nova de Lisboa vão ter de escolher: Assumem a designação oficial em português ou juntam uma versão portuguesa à designação inglesa, num modelo bilingue. Admite-se, ainda assim, que nas comunicações institucionais internacionais, seja utilizada apenas a versão inglesa, em particular quando estão em causa comunicações dirigidas exclusivamente a públicos estrangeiros. Subjacente a esta orientação, ou melhor, a esta ordem, está uma certa visão… uma mão escondida atrás dos arbustos, para controlar e uniformizar um projeto universitário que ganhou vida própria e muitas invejas que são, em tantas dimensões, endémicas na academia. E quando se pensava que projetos como a Nova SBE, a Nova IMS, a Nova School of Law ou a Medical School já não tinham volta atrás, eis que chega um Reitor — suportado nos eleitores, isto é, os professores que o elegeram — a querer fazer regressar o país ao ano 2000, com tudo o que isso significa.

A ordem para as faculdades usarem a designação em português nos documentos e comunicações oficiais parece uma coisa menor. Seria, se não houvesse outra agenda, escondida, que acabou por ser verbalizada por Bacelar Gouveia, no apresentação do livro ‘Direito da Língua’, na qual esteve presente, como seria de esperar, o Reitor da Universidade Nova. Estão sentados? “Acho inadmissível que universidades públicas tenham cursos inteiramente lecionados em inglês, isso põe em causa o nosso sistema público de ensino”. Podem ler e reler. O que é que isto significa? Depois da ordem sobre a designação nos documentos, vêm outras, para atacar os pontos que permitiram fazer da Nova SBE o sucesso que e hoje. Uma verdadeira parceria publico-privada, que captou milhões de investimento privado sem qualquer contrapartida que não fosse a criação de condições para uma formação académica ao nível das melhores para os alunos portugueses.

Eis toda uma visão para o Ensino Superior, e para o país. Sou jornalista, a minha principal ferramenta é mesmo o português, e a lingua é obviamente uma dimensão crítica da identidade cultural de um povo (e by the way, o ECO tem uma marca em inglês, o econews.pt) . Mas uma universidade, mesmo ou sobretudo uma instituição pública, como é a Nova SBE, não é apenas uma instituição identitária, é uma oportunidade económica.

A língua é parte essencial da identidade cultural. Mas uma universidade pública não é apenas um símbolo identitário, é mesmo um instrumento afirmação numa economia globalizada. A Nova SBE tem autonomia para contratar docentes estrangeiros, tem um projeto académico que atrai milhares de alunos internacionais de dezenas de nacionalidades, e tudo isso também permite aos alunos portugueses uma experiência internacional dentro de casa. Tudo isto está em causa se a visão do novo reitor não for travada.

(Nota: A afirmação sobre os cursos lecionados em inglês foi da autoria de Bacelar Gouveia e não do Reitor Paulo Pereira, como estava inicialmente citado no Editorial.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Um regresso ao passado nas universidades?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião