Umas coisas meias feitas e outras tantas por fazer

  • Luísa Schmidt
  • 10 Setembro 2026

Depois de um início de século em que os valores da sustentabilidade pareciam estar em progressivo reconhecimento por governos e sociedades, temos assistido à sucessão de crises.

Depois de um início de século em que os valores da sustentabilidade pareciam estar em progressivo reconhecimento por governos e sociedades, temos assistido à sucessão e entrosamento de várias crises: financeira, pandémica, climática, migratória, democrática, moral… Em suma, deflagraram as guerras e prevalecem as predações. Esta situação internacional, associada às vulnerabilidades próprias do nosso país, tem criado situações agudas em algumas áreas.

Especificamente, nas questões ambientais e de ordenamento do território, destaca-se o problema das zonas costeiras sujeitas aos impactos crescentes da erosão, subida do mar e eventos extremos, com graves consequências na sua destruição por falta de políticas de planeamento, prevenção e gestão adequadas.

O mesmo se pode dizer do desordenamento florestal. Apesar das trágicas catástrofes desde 2017, não têm sido implementadas políticas continuadas e efetivas. Tal como a biodiversidade e as áreas protegidas, anos a fio sem gestão eficaz.

Há, pois, situações críticas em contínuo agravamento devido sobretudo ao desordenamento do território e à ausência de planeamento efetivo, que exponenciam riscos e desqualificam recursos. É esse o retrato do país nas suas zonas costeiras, florestas, áreas protegidas, águas… É-o também na mobilidade, com uma dependência crescente de transportes rodoviários, sem avanços sérios na ferrovia.

Mesmo assim, em Portugal, houve avanços importantes. Foi a partir da primeira década de 2000 que se instalaram os sistemas de recolha seletiva de resíduos urbanos, industriais e hospitalares; que arrancaram as energias renováveis (com destaque para a eólica); que o abastecimento de agua potável para consumo humano se estendeu a todo o país; que conseguimos ter praias fluviais com qualidade; que várias empresas e indústrias adotaram regras ambientais e de sustentabilidade; que a educação ambiental continuou a avançar e consolidar-se, que as novas gerações se tornaram cada vez mais conhecedoras e sensíveis aos problemas ambientais. E a ciência ganhou um lugar decisivo no reconhecimento público, facto crucial para o futuro da sustentabilidade.

É por tudo isto que, para os próximos 25 anos, as nossas linhas de esperança ligam-se à maturidade e avanço destas dinâmicas positivas anunciadas. Com mais força, conhecimento e empenho das gerações mais novas, que, entretanto, tomarão os lugares de decisores.

Com as energias renováveis, que têm de crescer não através de megacentrais desordenadas e destrutivas da paisagem, mas sim de uma forma cada vez mais descentralizada e democrática, sobretudo através da expansão do autoconsumo coletivo e das comunidades energéticas, e ainda de outras soluções devidamente ponderadas tais como a da eólica offshore.

Com a economia circular, pondo a funcionar em rede as indústrias e os produtores de resíduos e aumentando sempre os níveis de separação e reciclagem do urbano ao industrial e hospitalar.

Com o avanço da economia azul, aproveitando a nossa extensa Plataforma Continental e os seus inúmeros recursos marinhos sempre de forma ecologicamente ponderada.

Com a integração inteligente entre valores ambientais e económicos e muito maior eficácia na governação ambiental e de ordenamento do território.

Com novas formas de mobilidade e investimento sério na ferrovia, que nos ligam cá dentro e ao resto da Europa.

E com as dinâmicas absolutamente cruciais assumidas à escala local, envolvendo cada vez mais os municípios e os munícipes em modelos de desenvolvimento participados e dinâmicos.

Mais. Com este tipo de experiências, Portugal poderia assumir-se como promotor das políticas de sustentabilidade à escala europeia e, claro, reforçar estas boas experiências e políticas de sustentabilidade em articulação progressiva aos países da CPLP, os quais, nestes tempos próximos e desafiantes, vão necessitar de perspetivas inovadoras e de novos parceiros.

Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.

  • Luísa Schmidt
  • Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa)

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