Sub-região Monção-Melgaço, "berço" da casta Alvarinho, está a crescer com novos investimentos no enoturismo e nas vinhas, e a reforçar as exportações, apesar da retração no consumo mundial.
Numa altura em que o setor vitivinícola mundial enfrenta um contexto adverso, marcado pela retração de consumo, a sub-região Monção-Melgaço, “berço” da casta Alvarinho, cuja uva é das mais bem pagas do país, segue em contraciclo. A impulsioná-la, o aumento das exportações e novos investimentos em enoturismo. Os viticultores apostam ainda na plantação de castas autóctones raras, e em vinhos com maior potencial de envelhecimento e perfil mais leve, fresco e com menor teor alcoólico, alinhados com as atuais tendências de consumo internacionais.
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Foi precisamente esta realidade que encontrámos ao trilhar um roteiro por algumas das 16 adegas que, no último fim de semana, abriram as portas no âmbito do evento Monção & Melgaço Open Cellars Edition. Embarcámos numa viagem gastronómica e de provas comentadas de um portfólio diversificado de “vinhos de alta qualidade, e que, por isso mesmo, podem ter um preço médio mais elevado”, como defende Dora Simões, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV). Entidade que organizou a iniciativa em parceria com os dois municípios e o Turismo do Porto e Norte de Portugal.
Numa fase em que os vinhos atravessam um momento muito difícil, há um sucesso coletivo nesta sub-região.
Num contexto desafiante para o setor, a presidente da CVRVV destaca a resiliência deste território, que já conquistou o palato dos turistas. “Numa fase em que os vinhos atravessam um momento muito difícil, há um sucesso coletivo nesta sub-região, berço do Alvarinho”, que conta com 1.900 viticultores e engarrafadores, assinala, depois de um périplo por algumas quintas.
Os números falam por si. Em 2025, a sub-região produziu 12 milhões de litros de vinho. Dos dois mil hectares de vinha plantada, “mais de 1.514 hectares” dizem respeito à casta de Alvarinho, enquanto as castas tintas representam 213 hectares e as restantes brancas são variedades de castas autóctones, aponta Dora Simões.
Mas a singularidade da sub-região dos Vinhos Verdes como destino turístico não se esgota na casta Alvarinho, com “um potencial de envelhecimento extraordinário” e a dar cartas lá fora, nota a presidente da CVRVV. Acresce uma rede de “adegas boutique, de cariz familiar, e uma paisagem vitivinícola distinta da encontrada noutras regiões do país” que torna este território “único” e cada vez mais apetecível para investimento.

Esta sub-região dos Vinhos Verdes tem vindo, por isso, a captar as atenções de “grandes players do mercado que investem no enoturismo”, corrobora João Oliveira, vereador da Câmara de Monção, ao ECO/Local Online, após uma visita ao Museu do Alvarinho. E, de tal forma, evidencia o vereador, que “num curto espaço de tempo, a família Symington” investiu na propriedade histórica Casa de Rodas, e o grupo francês Roullier, através da filial de vinhos em Portugal — a Falua –, comprou a Quinta do Hospital, ambas situadas em Monção.
Por enquanto, o grupo Falua não prevê fazer mais investimentos nesta quinta, uma vez que está mais “concentrado na consolidação do projeto e na análise da melhor estratégia para o desenvolvimento do enoturismo”, explana a enóloga Antonina Barbosa, da Falua, ao ECO/Local Online. “Só depois passaremos à fase seguinte, de possíveis obras” nesta propriedade com 10 hectares de vinha, 13 hectares de monte com 150 oliveiras centenárias, e mais três hectares distribuídos pela casa e jardim.
É desta propriedade que saem “cerca de 50.000 litros de Alvarinho, que são posteriormente utilizados em diferentes marcas e tipos de vinho”, descreve a enóloga da marca que exporta 70% da produção, principalmente para o Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Inglaterra.
Este crescimento do enoturismo nos últimos anos surge a reboque da produção de vinho, um motor da economia local, principalmente alicerçado na casta Alvarinho, que o vereador João Oliveira considera ser um “elemento âncora para o território e o ouro desta região” do Alto Minho. Aliás, reforça o autarca, “a uva desta casta é das mais bem pagas do país, com um valor na ordem dos 1,20 euros por quilograma”, gerando “um forte retorno económico para quem investe” e novas oportunidades de negócio nos dois concelhos.
Na realidade, vinca o governante local, “o vinho Alvarinho pode ser produzido em qualquer região, mas não se consegue levar o terroir de Monção e Melgaço para o Algarve ou Alentejo, pois representa um legado de gerações que não é possível replicar”. Esta posição é partilhada por muitos dos viticultores com os quais o ECO/Local Online falou, durante este roteiro por quintas e restaurantes, e que anunciaram alguns dos investimentos no enoturismo e vinhas que têm em mãos.
Foi o caso do enólogo e viticultor Anselmo Mendes, conhecido no meio vinícola como o “senhor Alvarinho”, que investiu dois milhões de euros na reabilitação da Quinta da Torre, localizada em Monção, com 50 hectares de vinha da casta que lhe dá a alcunha. “É a maior vinha nacional de Alvarinho; e não é por acaso que somos a referência desta casta, porque estudámos a fundo diversas técnicas, inovámos e apurámos a viticultura ao longo destes últimos 30 anos”, conta ao ECO/Local Online.

O projeto contemplou a recuperação da casa senhorial quatrocentista, em ruínas, para turismo rural, e da antiga adega medieval, onde Anselmo Mendes criou um centro de estudo e experimentação dedicado à casta Alvarinho.
A estratégia de expansão de Anselmo Mendes não fica por aqui: “Costuma-se dizer que é na crise que se deve investir. Vamos plantar 15 hectares de vinhas de castas raras – Alvarelhão, Pedral, Verdelho Feijão (tintas) e Cainho Branco, num investimento entre 300 a 400 mil euros em várias parcelas noutra propriedade em Monção”, conta, com entusiasmo. “Também vamos lançar um rosé a partir da casta Alvarelhão. Só nós é que estamos a apostar nessa casta rara”, assegura.
Desde 2012 que Anselmo Mendes aposta na plantação de castas de tintas raras. “Estávamos um bocadinho à frente.” Na altura, o enólogo estava longe de imaginar que, anos depois, estaria alinhado com as atuais tendências do mercado mundial, que descreve como “de abandono dos vinhos mais alcoólicos e muito encorpados”, a favor de “vinhos medianamente alcoólicos, como os claretes, mais frescos, mas que também têm capacidade de envelhecimento”.
Estas características levam especialistas e viticultores a equiparem a sub-região Monção-Melgaço à região francesa de Borgonha, mundialmente reconhecida pela casta Pinot Noir, assinala o enólogo.
A aposta tem dado resultados. “Temos vindo a crescer lentamente e deveremos crescer este ano entre 5% a 10%“, antecipa o empresário, reconhecendo que o seu negócio está “em contraciclo” num setor que atravessa uma fase de retração. Fechou o ano de 2025 com um volume de negócios de 5,5 milhões de euros, dos quais 3,5 milhões de euros resultam do mercado externo, que tem um peso de 70% no negócio. Suécia, Noruega, Canadá, Estados Unidos e Brasil figuram entre os principais mercados de destino. No último ano, o viticultor vendeu cerca de 800 mil litros de vinho, maioritariamente da casta Alvarinho.
No total, Anselmo Mendes explora cerca de 130 hectares de vinha, incluindo 70 hectares dedicados à casta Loureiro, distribuídos por várias quintas entre Viana do Castelo e Ponte de Lima.

Igualmente a Quinta do Louridal, em Melgaço, que já vai na sexta geração, se destaca na região. Aqui já se investiram três milhões de euros no projeto de enoturismo. A nova adega já está a funcionar e o empreendimento de espaço rural de quatro estrelas, com sete quartos e piscina, deverá abrir portas em 2027.
O investimento inclui ainda a expansão da área de vinha, com a plantação de mais três hectares, que acrescem aos cinco já existentes, com o objetivo de duplicar a produção anual de 10 mil para 20 mil garrafas de vinho, nesta propriedade que está na família de Maria de Fátima Teixeira desde 1700. “Produzimos uma edição limitada e numerada do «Poema» no berço do Alvarinho em Portugal”, detalha Maria de Fátima Teixeira, que exporta para países como Estados Unidos, Bélgica, Alemanha e Suécia.
A aposta em vinhos com maior potencial de envelhecimento é outra das características da propriedade. O enólogo Jorge Sousa Pinto fala mesmo numa “mudança de paradigma: antigamente dizia-se que o Alvarinho era para beber logo; agora já não é assim. Hoje, temos um perfil de cliente que procura vinhos verdes mais antigos“. Como é o caso do Poema Alvarinho Reserva, que provámos durante a visita à propriedade.

Também viticultora Maria João Cerdeira, gestora da Quinta do Soalheiro, em Melgaço, aproveitou o Monção & Melgaço Open Cellars Edition para abrir portas aos visitantes e dar a conhecer os próximos passos da empresa. “Vamos investir cerca de um milhão de euros num novo edifício de prensagem e lançar mais três vinhos na cave da inovação“, espaço dedicado à experimentação e ao desenvolvimento de novas referências, avança Maria João Cerdeira ao ECO/Local Online durante um almoço harmonizado com vinhos da marca.
Com um portefólio de 33 referências, que inclui vinhos clássicos, biológicos e espumantes, o Soalheiro exporta cerca de 40% da produção para 55 mercados. Suécia, Noruega, Alemanha, Japão, Dinamarca e Finlândia figuram entre os principais destinos internacionais. Em 2025, a empresa produziu 1,2 milhões de garrafas e faturou 7,5 milhões de euros.
O negócio, que começou numa garagem da casa dos Cerdeira, com as primeiras pipas de Alvarinho, já vai na terceira geração, conta a empresária, enquanto aponta para a parcela Soalheiro à nossa frente, onde o pai plantou, em 1974, a primeira vinha contínua de Alvarinho e de Melgaço, explica. A parcela deu o nome à marca de vinho desta empresa familiar que nasceu em 1982.
Falta agora atrair cada vez mais visitantes à sub-região, desafia Maria João Cerdeira: “Isto tem de ser um destino turístico. Temos pano para mangas para fazer programas e visitas”.

Já na Quinta de Santiago, em Monção, com cerca de 10 hectares, dos quais nove são ocupados por vinha, o vinho narra uma história de regresso às origens para continuar o legado de várias gerações. A enóloga Joana Santiago, que também preside à Associação de Produtores de Alvarinho (APA), trocou a advocacia pela viticultura, e apostou no Alvarinho como casta dominante, a que acrescem parcelas de Loureiro e Alvarelhão.
A primeira colheita, de 2012, foi lançada no mercado dois anos depois, com um vinho de homenagem à avó Mariazinha. Toda a propriedade acaba por ser uma espécie de museu vivo da atividade agrícola da família. “Esta era uma quinta que produzia vinho, cereais e outros produtos para venda”, descreve a empresária.
Apesar da volatilidade dos mercados internacionais e a quebra de vendas nos EUA, a empresa continua a exportar 70% das 50 mil a 60 mil garrafas que produz anualmente, com a Noruega, Suécia e Dinamarca como principais destinos. “Entraram novos mercados como Israel, Japão e Canadá”, avança a enóloga, que antecipa um bom ano de vendas. Em 2025, a Quinta de Santiago faturou cerca de 600 mil euros e, nos primeiros quatro meses deste ano, já atingiu os 380 mil euros, contabiliza.
Com 11 referências maioritariamente da casta Alvarinho, a marca destaca o “Quinta de Santiago Clássico”, mas também produz os vinhos “Sou”, em parceria com Nuno do Ó, e “Santiago na Ânfora do Rocim Alvarinho”, com a Herdade do Rocim (Alentejo).

Viticultores reclamam Denominação de Origem
Joana Santiago considera que a “sub-região Monção-Melgaço fez um caminho de notoriedade e prestígio com a produção de vinhos, espumantes e aguardentes de Alvarinho, e “até já tem um selo, porque tem características especiais”. Falta agora criar uma Denominação de Origem (DO) dentro da grande Região Demarcada dos Vinhos Verdes, tal como acontece em Bordéus e Borgonha.
Esta é, aliás, uma velha aspiração dos produtores de vinho deste território, como é o caso, por exemplo, do enólogo Anselmo Mendes: “A sub-região deveria ter uma Denominação de Origem por mérito, porque valoriza e traz reconhecimento”.
Questionada sobre a matéria, a presidente da CVRVV apenas referiu: “O meu assunto é a Denominação de Origem Vinhos Verdes e há uma sub-região Monção-Melgaço que estamos aqui a promover. Não tenho mais nada a acrescentar”. Dora Simões apelou, contudo, à união dos viticultores, numa altura em que “a sub-região se está a dar a conhecer e a fazer um caminho de sucesso coletivo”.
Igualmente Carlos Codesso, mentor da marca Dona Paterna (1982), que detém 16 hectares de vinha, entende que a DO “contribuiria para uma diferenciação no próprio comércio e na exportação” do Alvarinho, uma vez que é neste território que “a casta assume características únicas”. A Dona Paterna tem levado a sub-região além-fronteiras, arrecadando várias medalhas de ouro e prata nos mais prestigiados concursos nacionais e internacionais, nomeadamente com “Dona Paterna Alvarinho 2024”, “Alvarinho Trajadura 2024” e o “Espumante Bruto Alvarinho 2021”.
Igualmente o genro, o enólogo Márcio Lopes, que produz em Melgaço desde 2010 com uvas que compra a meia centena de viticultores, tem sido premiado pelas suas referências “Pequenos Rebentos Viagem ao Princípio do Mundo 2021” e “Pequenos Rebentos Touché”. Márcio Lopes, que também produz no Douro, aproveitou o evento para mostrar aos visitantes que o “Alvarinho, enquanto casta, tem a capacidade de produzir vinhos que se batem com as melhores referências a nível internacional“.
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Alvarinho atrai investidores e impulsiona exportações a partir de Monção e Melgaço
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