Ao quarto dia de presidência aberta na região Centro, Seguro leva um muro de lamentações

No dia em que Seguro completa um mês como Presidente da República, escutou mais uma vez as vozes da região Centro que ainda esperam pelos apoios e querem erguer o território devastado pelo mau tempo.

O penúltimo dia da Presidência Aberta de António José Seguro pela região Centro acabou por estar carregado de uma avalanche de emoções e tornar-se um autêntico muro de lamentações, com pedidos da intervenção do Chefe de Estado para que as seguradoras sejam mais ágeis ou que os apoios cheguem com urgência para munícipes, empresários e autarcas reconstruírem uma região que sentiu na pele a fúria do vento e da chuva, causando um rasto de destruição por onde passaram.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere que foram zonas afastadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

Os estragos provocados pelo mau tempo ainda são bem visíveis no périplo pelas localidades de Pombal e Leiria, neste quarto dia da Presidência da República: casas despidas de telhas, e ramos e troncos de árvores caídos nalgumas vias. Na freguesia de Meirinhas (Pombal) — onde António José Seguro almoçou com munícipes e autarcas, e escutou as preocupações da população – a normalidade continua adiada para muitos dos moradores do concelho de Pombal. Vale-lhes ainda o espírito de entreajuda e resiliência.

Ainda há centenas de pessoas sem rede fixa e televisão passados 72 dias” da passagem da depressão Kristin por esta zona do país, lamenta o presidente da Junta de Freguesia das Meirinhas. “A Altice ainda não se dignou a repor a comunicação. É uma vergonha”, denuncia João Pimpão. Entre as “160 empresas prejudicadas, milhões de euros de prejuízos, imensos postes e fios caídos no chão, e as matas cheias de madeira sem ninguém para as ir buscar”, o rol de preocupações é extenso. “Ninguém quer saber de nada!”, reitera indignado.

Minutos depois, o irmão Pedro Pimpão, presidente da câmara de Pombal, fazia um balanço ao ECO/Local Online: “Neste momento, as dificuldades mais prementes têm a ver com centenas de caminhos florestais por desobstruir em Pombal e as telecomunicações. Ainda há 2.570 clientes das três principais operadoras de telecomunicações sem rede fixa e fibra”.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere, zonas afectadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

É precisamente a urgência de haver mais “reforço efetivo das equipas dos operadores no terreno” que o também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) transmite depois a José António Seguro.

Aproveitando ter o Chefe de Estado no concelho, para se inteirar da real situação depois das tempestades, Pedro Pimpão comunica-lhe igualmente que urge “fazer face às despesas que as empresas têm para reporem a atividade”. E alerta ainda para a necessidade da conclusão da “requalificação do IC2, entre Meirinhas e Pombal, cuja obra a Infraestruturas de Portugal suspendeu porque havia algumas incongruências no projeto”. Com “péssimas condições”, o troço acabou por se tornar uma dor de cabeça para “os mais de 40.000 automobilistas” que ali circulam diariamente, insiste.

Mais tarde, também o presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) da Região de Leiria, Jorge Vala, e autarca de Porto de Mós, deixava um apelo direto a José António Seguro, entregando-lhe em mão um caderno reivindicativo. Pedia-lhe que ajudasse os municípios a erguerem-se do chamado comboio das tempestades, sublinhando a importância do “seu olhar atento para esta região e o seu magistério de influência como, aliás, tem feito nesta Presidência Aberta”.

Não deixou, contudo, o Chefe de Estado seguir caminho sem lhe endereçar um convite em nome dos 10 autarcas que integram esta CIM: realizar as comemorações do Dia de Portugal na região de Leiria, em 2027. Com a sua serenidade que lhe é tão característica, Seguro respondeu que iria “ponderar” o pedido. Estávamos por essa altura no Memorial às Vítimas dos Incêndios de 2017, na chamada “Estrada da Morte”, Estrada Nacional 236-1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos. Da autoria do arquiteto Eduardo Souto Moura, o monumento homenageia as 115 vítimas mortais dos fogos de junho e outubro desse ano, contendo os seus nomes gravados.

Após depositar uma coroa de flores, o Presidente da República defendeu a necessidade de a memória dos incêndios se transformar em medidas de prevenção concretas, para evitar que se voltem a repetir as tragédias de 2017.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere que foram zonas afastadas pela tempestade Kristin. Rui Miguel Pedrosa/ECO

 

“Eu sei que este é um espaço com muitas marcas, com muita dor, com muita memória. É preciso que essa memória se transforme também em medidas de prevenção para não voltarmos a ter situações como as que ocorreram”, notou o chefe de Estado, num momento de intensa carga emotiva, ladeado de autarcas e vítimas que resistiram às chamas. A presidente da Associação de Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande (AVIPG), Dina Duarte, garantiu a Seguro que é para isso que “continuará a lutar sempre”. Ao que o Presidente da República respondeu, emocionado: “Que nunca lhe faltem forças para lutar e para reclamar. Sobretudo reclamações justas”.

Uma das mensagens deixada pelo Chefe de Estado foi precisamente a urgência de se proceder à limpeza dos caminhos florestais, que esperava que “tivesse começado mais cedo”, para evitar uma catástrofe no próximo verão.

Todos desejamos que não aconteça nenhuma catástrofe neste verão, e eu alertei para a necessidade de fazer esta limpeza dos caminhos florestais e dos aceiros há muito tempo e, portanto, eu esperava que tivesse começado mais cedo”, enfatizou já mais tarde, no Quartel dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere que foram zonas afastadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

“É minha obrigação, obrigação do Governo, alertar para que, de facto, este ano temos fatores de risco acrescidos e todos são necessários”, respondia depois o ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves.

Durante todo o dia multiplicaram as manifestações de preocupações por parte das populações e autarcas, como foi o caso do presidente da CIM da Região de Leiria que pediu que “este território continue a ter visibilidade”. Apelou ainda que “as seguradoras sejam mais ágeis” nas respostas às necessidades do território. Seguro foi sempre perentório, garantindo levar consigo as reivindicações e fazer chegar junto do Governo estas inquietações.

Já antes, nas visitas à fábrica de telhas, Umbelino Monteiro, e à empresa Adelino Duarte da Mota — de transformação de matérias-primas para a indústria da cerâmica –, ambas em Meirinhas, inteirou-se do ponto da situação destas empresas bastante fustigadas pelas intempéries. A unidade de cogeração desta última empresa permitiu fornecer energia elétrica a algumas casas que ficaram sem eletricidade devido à depressão Kristin, na semana seguinte à intempérie.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere, zonas afectadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

Os estragos continuaram a ser visíveis durante o dia da Presidência Aberta. No Quartel dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, tachos, panelas e bacias espalhados pelos vários espaços, contendo água dentro, não deixavam margem para dúvidas. “Toda a infraestrutura e cobertura ficaram destruídas pela depressão Kristin, com os estragos avaliados em cerca de 700 mil euros. Não há nenhuma sala onde não chova. Ainda estamos à espera do dinheiro da companhia de seguros para avançar com as obras”, lamenta o presidente da cooperação. E manifestou algum receio que o cenário se agrave na região face à antecipação de um “verão teimoso em termos de incêndios, com a mata a crescer, e sol e chuva”.

Percorremos mais umas dezenas de quilómetros e, na mata do Carrascal, em Alvaiázere, o rasto de destruição da depressão Kristin “é desolador”, como nos diz Alberto Gonçalves, que só nesta visita do Presidente da República teve coragem de circular na mata. “A partir das 3 da madrugada o vento era horrível. Às cinco da manhã a chaminé da minha casa caiu e faltou a luz. Ficamos também sem comunicações”, recorda com os olhos quase a marejar. Mas “pôr os olhinhos agora nesta mata toda destruída é horrível”, atirava enquanto observava centenas de árvores arrancadas pela raiz pela fúria do vento, e troncos espalhados pela mata.

O autarca de Alvaiázere não poupou palavras para agradecer a vinda de Seguro à localidade. “No início do mandato mostra que não está para ficar só em Belém, que vem ao território, provando aqui que não se esquece do Portugal mais interior”, elogiou João Paulo Guerreiro.

À semelhança do que aconteceu constantemente neste dia, em que o Chefe de Estado completou um mês como Presidente da República, também o autarca pediu que interviesse em prol das populações que necessitam de ajuda neste momento difícil que ainda vivem. “Espero que dentro da sua magistratura de influências possa ajudar essa região e em particular o concelho de Alvaiázere”, apelou.

“Mas já me estou a alongar nas palavras, senhor Presidente”, acautelou de seguida, ao que Seguro respondeu: “Está na sua casa”. Já quando tomou a palavra, o Chefe de Estado deixou uma mensagem clara: é preciso refletir sobre “a importância do poder local para cuidar das populações”, por estar na linha da frente quando é mais preciso, como aconteceu aquando das tempestades.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Meirinhas, Pedrogão Grande e Alvaiázere, zonas afectadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

E sem casa ficou um casal com dois filhos que viram as telhas serem levadas pelo vento e o teto desabar. “Estávamos a dormir e ouvimos o estrondoso barulho das telhas a voarem. Foi um susto enorme”, lembrou, ainda emocionada, Vera Santos, com os dois filhos, de 7 e 13 anos ao lado. “Ficámos sem nada. E tivemos de dormir durante três semanas aqui no pavilhão, onde comíamos e tomávamos banho”, contou.

Agora, o casal e os dois pequenos já têm casa nova, cedida pelo município e com direito a seis meses de renda gratuita para conseguirem refazer a vida e os sonhos que o comboio das tempestades numa noite lhes roubou. Também essa história seguiu no balanço que o Presidente acumulou ao longo de todo o dia.

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