Após a fúria de Kristin, fábrica com prejuízos de 20 milhões ilumina-se de esperança em Pombal

Mercadoria que deveria ter saído para o cliente ficou retida devido ao porto da Figueira da Foz e está comprometida. É tal o imperativo da Adelino Duarte da Mota em produzir que mal se olha ao custo.

Cinco horas da madrugada de 28 de janeiro, Rita Carreira dormia, em Alcobaça, quando sentiu lá fora a anunciada depressão Kristin. Àquela hora, em Pombal, uma parte dos cerca de 80 colegas na Adelino Duarte da Mota trabalhavam a criar pasta cerâmica para empresas como a Ikea.

A diretora da fábrica correu até ao telefone, ainda as comunicações em Pombal não tinham cedido a ventos que, segundo as autoridades, superaram os 200 km/h. Da fábrica na freguesia de Meirinhas gritaram-lhe que o teto do armazém das matérias-primas se desmoronava sob a força do vento. Rita mandou-os protegerem-se sob tanques de betão armado no interior desta que foi uma das centenas de fábricas afetadas. Só ali, Kristin deixou pelo menos 20 milhões de euros de prejuízos.

Hugo Amaral/ECO

Uma semana depois, homens elevados por gruas a dezenas de metros de altura tentam apagar as marcas deste dia em que, como dizem os da terra, o diabo esteve à solta no distrito de Leiria. “Consegui falar com eles pela última vez às cinco da manhã e diziam-me que estava tudo a voar e a partir-se. Às 6h10 pus-me a caminho e demorei 3h30 a chegar cá”, conta, à reportagem do ECO/Local Online, a diretora da fábrica que contribui com mais de 20 milhões de euros de faturação para o grupo MCS Portugal.

Avançou, recuou perante estradas bloqueadas por árvores, procurou alternativas, arrastou detritos da via e demorou mais de 200 minutos a fazer um percurso que, segundo o Google Maps, demora tão só 45.

Uma semana após a passagem de Kristin, já há de novo fumo branco a sair das chaminés. Desde sábado que se voltou a ver ali, no IC2 (e bem mais longe) junto à entrada da localidade de Meirinhas, o vapor de 9.000 litros de água expelidos, a cada hora, por cada um dos dois atomizadores que os técnicos conseguiram voltar a pôr em atividade. A fábrica de Meirinhas tem outros dois, mas, no caso do número 1, a passagem de Kristin tornou-o pouco mais que sucata.

O atomizador número um foi o herói: enquanto dois pilares de aço vergaram, a secção superior do atomizador 1, próximo do teto, suportou a estrutura do imponente pavilhão que vemos do IC2.

Em menos de uma hora, a Adelino Duarte da Mota (ADM) acumulou prejuízos que, ainda com as contas finais por fazer, igualam a faturação de um ano inteiro: até ver, são 20 milhões, mas não se exclui que este valor até seja conservador, considerando a dimensão dos estragos.

Não é só chapa exterior. Há estruturas que cederam e os próprios equipamentos produtivos também estão danificados. Temos matéria-prima contaminada

Pedro Roque

Administrador financeiro da Adelino Duarte da Mota

Parte dos danos advém da matéria-prima perdida no pavilhão de armazenamento, após a destruição de uma área considerável da cobertura.

“Não é só chapa exterior. Há estruturas que cederam e os próprios equipamentos produtivos também estão danificados”, diz Pedro Roque, administrador financeiro. “Temos matéria-prima contaminada”, acrescenta Brendan Clifford, co-CEO da empresa do grupo MCS Portugal. A solução para não parar a produção da ADM, vital para uma grande parte da indústria cerâmica nacional, pode passar por ativar espólio mineral que a empresa só costuma explorar no verão, diz Brendan Clifford.

Danos em parte da cobertura no armazém das matérias-primas.Hugo Amaral/ECO

Porto da Figueira da Foz contribui para os prejuízos da ADM

A Autoridade para as Condições do Trabalho já esteve em Meirinhas a colaborar com os responsáveis da empresa para se organizar o trabalho de limpeza do espaço e salvaguarda das matérias-primas não contaminadas, as quais, como verificámos no local, vão sendo retiradas de camião no lado do longo pavilhão que não cedeu. Para limpezas maiores na metade do pavilhão que caiu, só após a obtenção das necessárias autorizações, nota o co-CEO.

Parte desta matéria-prima já nem deveria estar aqui, mas o assoreamento à entrada do porto da Figueira da Foz, onde um navio de carga já ficou à deriva em janeiro, obrigou a reter mercadoria que deveria já ter sido entregue a clientes. Agora, ficou comprometida. “Em condições normais, já não estaria cá”, assume Pedro Roque. “Desde dezembro que temos vários navios adiados. Com os problemas que há, de assoreamento, diminuiu o calado”.

Precisamos de navios de 5 mil toneladas para cima, e com o calado mais baixo, esses navios não entram. As matérias-primas não saem, não vendemos”, nota, resignado, o administrador financeiro.

O plano B preparado pela administração é o transporte via Aveiro, que como nota Brendan Clifford, é um porto de águas profundas.

Não há memória de esta fábrica, erguida pela empresa há mais de 35 anos – altura em que ainda pertencia ao histórico fundador que lhe deu nome – alguma vez ter parado. Nem com o “apagão” de 2025 nem com o furacão Leslie – um acontecimento que todos os empresários e autarcas com quem o ECO/Local Online falou em Pombal e Leiria, citam, quando se fala em calamidades, usando-o para exaltar a dimensão hiperbolizada de Kristin.

O evento mais catastrófico que tivemos aqui foi o Leslie. Na fábrica não fez nada, foi apenas em telheiros onde guardamos matérias-primas. Mas a fábrica nunca parou”, diz Pedro Roque. Até agora.

De quarta a sábado não saiu fumo branco destas chaminés.

"Parou tudo. Todas as infraestruturas físicas que temos foram seriamente danificadas. Conseguiu-se arrancar com o atomizador 4 da unidade 3 no sábado, mas em condições muito precárias", diz Pedro Roque Hugo Amaral/ECO

“Parou tudo. Todas as infraestruturas físicas que temos foram seriamente danificadas. Conseguiu-se arrancar com o atomizador 4 da unidade 3 no sábado, mas em condições muito precárias”, diz Pedro Roque.

A produção implica que a matéria-prima, de características argilosas, percorra a fábrica em passadeiras mais próximas do teto que do chão. Ali, não pode haver humidade extra, mas Kristin foi inclemente: “As telas estão expostas à chuva e ao vento. Tivemos as equipas penduradas em arneses, a tapar telas transportadoras com chapa que saltou das fachadas, para o material poder continuar a ser seco”.

De maçarico em riste, condutores de máquinas industriais habituados a trabalho de mina e de estaleiro improvisaram assim, com as chapas soltas pelo vendaval, um novo “telhado” à medida das passadeiras.

Na visita da reportagem do ECO/Local Online à fábrica, a dedicação dos trabalhadores era patente. Uma semana após a hecatombe há cansaço no olhar de quem não se quer deixar fotografar.

“A seguir a isto são umas férias”, diz o homem que tem liderado a equipa que vem retirando destroços, os arrancados à estrutura da fábrica e outros chegados pelo ar não se sabe de onde, e que já procedeu à retirada das árvores tombadas na fúria de 28 de janeiro, num parque agora desolador, praticamente sem verde, apenas muito vermelho, da enorme “explosão” de pó, aquele que estava dentro dos equipamentos que laboravam na madrugada em que Kristin apareceu.

Brendan Clifford deixa um claro “não o vamos fazer” quando perguntamos se a empresa vai recorrer a lay-off, mesmo que metade da capacidade produtiva esteja debaixo de destroços do teto.

Isso pesa nas pessoas, que já têm dificuldades suficientes neste momento. Vamos ver se conseguimos não ir por aí”, diz, por seu lado, o administrador financeiro. “Precisamos das pessoas. Para a parte da fábrica que está a produzir, precisamos delas. Para as outras, temos muito trabalho para fazer, seja limpezas, seja para ajudar equipas externas. Eletricistas, conservação e reparação, equipas de manutenção, não têm mãos a medir”, enuncia Pedro Roque.

Precisamos das pessoas. Para a parte da fábrica que está a produzir, precisamos delas. Para as outras, temos muito trabalho para fazer, seja limpezas, seja para ajudar equipas externas. Eletricistas, conservação e reparação, equipas de manutenção, não têm mãos a medir

Pedro Roque

Administrador financeiro da ADM

Uma semana depois do evento catastrófico, os trabalhos de reparação da estrutura exterior já decorrem, apesar da chuva copiosa. “A empreitada é gigante”, diz Pedro Roque, que já tem duas empresas de fora do distrito de Leiria em ação. Outras duas vieram ver a obra, mas ainda não apresentaram orçamento.

Dos seguros, o administrador não espera entraves, nem para si nem para os vizinhos que têm proteção contratada. “A dimensão da catástrofe é de tal ordem, e com muita coisa em jogo para as empresas da região, que elas não podem ficar sem acesso a estes fundos nesta altura”.

Já sobre os chamados apoios estatais, que pouco mais são que nova dívida para as empresas, o administrador financeiro da empresa do grupo MCS Portugal espera poder ficar pela parcela que cabe às seguradoras.

“Sim, é dívida”, admite Pedro Roque, relativamente ao que se conhece do lado do Governo até à data. E alerta: “as empresas vão ter que gastar dinheiro extra. Poucas serão as que o têm para construir, quase, fábricas novas. Estamos preocupados em ter acesso a esses fundos para garantir que as obras decorrem o mais rápido possível, e voltamos à normalidade o mais rápido possível. O que gera dinheiro é o trabalho”.

“Se alguma coisa falhar do lado dos seguros, é um problema”, admite. Para o tecido empresarial sem proteção de seguros, “tem que haver outro tipo de apoios, porque senão as empresas não têm capacidade”.

Hugo Amaral/ECO

Produção com a energia produzida em casa quase sem olhar a custos

“Somos o maior fornecedor de indústria cerâmica em Portugal e não parámos ainda a indústria. A cogeração é um custo adicional para nós, mas o mais importante é o fornecimento da indústria. Temos stocks em várias linhas de produção, grés e porcelâmico para pavimento e table ware (loiça de mesa)”, explica Brendan Clifford.

A empresa assegura 40% da pasta cerâmica do total da indústria nacional deste setor, que inclui loiça do Ikea (a ADM fornece a Ria Stone, que produz para as lojas do sul da Europa dos suecos) e também o pavimento que pisamos em casa e no escritório e os azulejos que nos revestem cozinhas e quartos de banho. Já entre os fabricantes de produtos cerâmicos que não fabricam a sua própria pasta, 85% dependem da capacidade produtiva da ADM.

O potencial impacto nas exportações de uma paragem desta fábrica não é negligenciável. Os clientes da ADM, na indústria cerâmica, exportam 70 a 100% da sua produção, nota Pedro Roque.

Quando questionado sobre a eventual escassez de matéria-prima decorrente da incapacidade da empresa em entregá-la ao setor, o administrador exclama: “Espero que não! Estamos a trabalhar em soluções, algumas bastante criativas, com os próprios clientes. Muitos deles mostraram-se muito empenhados em ajudar-nos”.

Exemplo disso, um dos clientes chegou a meio da noite com um gerador pertencente à sua empresa, transportado num camião que, por indisponibilidade de motoristas da companhia de camionagem, era conduzido pelo proprietário desta.

“Tivemos que voltar a produzir para os clientes terem produto para eles próprios não pararem”, diz Pedro RoqueHugo Amaral/ECO

“É nestas alturas que se revelam as boas e as más pessoas. Estamos a trabalhar para que [a paragem] não aconteça, mas estamos numa situação muito inicial e é muito difícil prever todas as consequências disto. Está a correr melhor do que estávamos à espera. Iniciámos mais cedo as operações que já estão a trabalhar, agora, as outras, não sei”. Pedro Roque refere-se aos equipamentos destruídos, calculados em muitos milhões, e à incapacidade de dar sequer uma estimativa de quando essas linhas voltarão a funcionar.

“Tivemos que voltar a produzir para os clientes terem produto para eles próprios não pararem. Estamos a produzir sem olhar a custo”, assegura o administrador financeiro, retificando depois: “fazemos a conta e até determinado custo, mesmo a perder, avançamos”. “Temos centrais de cogeração, que se não forem bem geridas, é mais um custo do que uma ajuda. Temos perdas de exploração por estar a trabalhar nestas condições”, afiança.

Atualmente, sem que a E-Redes consiga assegurar a ligação de Meirinhas à restante rede elétrica nacional, é exclusivamente com as imponentes turbinas de 3,7 Mw que a ADM opera, e, defraudado o mix energético, resta gastar gás. E gasóleo, nos quatro geradores, dois alugados, dois adquiridos pela empresa, o mais potente e caro dos quais com preço a rondar os 100 mil euros.

Aos milhares conta-se também o consumo de Diesel, na ordem dos 1.000 litros por dia – só desde o reinício da produção, no passado sábado, a voracidade dos geradores já significa – num cálculo conservador – 10.000 euros.

Hugo Amaral/ECO

Outra das soluções de recurso foi a viagem ao Porto para adquirir um equipamento de satélite da Starlink, companhia de Elon Musk que está a permitir, em várias partes do distrito de Leiria visitadas pelo ECO/Local Online, contornar a incapacidade das operadoras nacionais de telecomunicações em recuperar as suas redes.

Mas se não tem eletricidade, a ADM não se coíbe de a providenciar para a sua comunidade. Depois de um primeiro teste falhado de pôr as turbinas a fornecer eletricidade a uma parte daquela freguesia de nove quilómetros quadrados no concelho de Pombal, na quarta-feira gritou-se eureka.

Embora o fornecimento a meia-dúzia de ruas e 160 casas pareça coisa menor, a ADM abreviou a espera de mais de uma centena de famílias por algo que todos damos por adquirido, mas que para centenas de milhar de pessoas no distrito de Leiria ainda significa a inacessibilidade a coisas tão simples como carregar o telemóvel, ligar a televisão para ver notícias do que se passa na aldeia ao lado, tomar um banho de água quente e lavar a roupa. Neste particular, a empresa colocou máquinas de lavar e secar, nas quais todos podem cuidar da sua roupa e da família, beneficiando de uma ilha de luz no meio da escuridão que continua a grassar por parte do distrito de Leiria.

No século XXI, num país onde parte da população vê a vida desmoronar-se após uma tempestade, uma camisa lavada ainda é um luxo.

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