A Arianespace vai fazer 18 lançamentos para a Amazon Leo. O Teleporto de Santa Maria, onde está uma estação da Agência Europeia Espacial, participou no mais recente lançamento do Ariane 6.
A Arianespace lançou esta quinta-feira, a partir da Guiana Francesa, o Ariane 6 para levar para o espaço 32 satélites da Amazon Leo, de Jeff Bezos, com o contributo do Teleporto de Santa Maria, nos Açores. A partir da estação na ilha açoriana são fornecidos dados de telemetria para acompanhar a trajetória do foguetão europeu. Em junho, outubro e novembro acontecem os próximos lançamentos do Ariane 6 que irão envolver a equipa portuguesa.
Na estação da ESA no Teleporto de Santa Maria, pelas 8 horas locais, uma equipa da Thales Portugal aguardou o lançamento do foguetão Ariane 6 a muitas milhas de distância, a partir da estação de Kourou, na Guiana-Francesa. Missão? Fornecer os dados de telemetria do foguetão aquando da sua passagem por Santa Maria, na primeira volta em torno da Terra, e, mais tarde, na segunda órbita, momento em que começam a ser libertados os satélites da Amazon no espaço.
Uma voz com sotaque francês ouve-se no altifalante e faz a equipa reagir. “Está na hora”, diz Vera Carvalho, gestora do Teleporto da Thales Portugal, dando o ‘sinal de partida’ para a equipa dirigir-se para a sala onde, através de diversos ecrãs, vão controlando a informação e os dados que a antena SMA-01, localizada ao lado da estação da ESA, irá recolher no momento da passagem do foguetão. Sentados nas suas estações aguardavam pelo lançamento do foguetão.

Mas houve uma ordem de ‘stand-by‘ de Kourou. Temeu-se que o lançamento pudesse ser adiado, o que provocou alguma preocupação de Michael Ammon, o representante da ESA que avisa: “Se não for hoje o lançamento, o próximo slot só será no domingo”. Falso alarme. Houve apenas um adiamento para as 8h57 (UTC).
Um alívio para a equipa. Desde a uma da manhã que estavam na estação a ultimar os detalhes para garantir que tudo corria sem problemas do lado de Santa Maria. Um adiamento para domingo significava repetir todas essas horas de preparação. Cada missão leva, pelo menos, seis semanas a ser preparada, detalha Vera Carvalho, ao ECO/eRadar.
Terceiro voo do Ariane 6
Com o lançamento, elevam-se para três os voos do Ariane 6 acompanhados pela equipa do Teleporto da Thales nos Açores. Acompanharam o voo inaugural deste novo foguetão da ESA a 17 de dezembro, que levou para o espaço satélites Galileo — o sistema global de navegação por satélite (GNSS) da União Europeia, operacional desde 2016 —, tendo o segundo se realizado a 12 de fevereiro.

O terceiro inicia-se na nova hora prevista. Num ecrã, é possível acompanhar em direto da Guiana Francesa o momento da ignição dos quatro rockets de combustível do Ariane que iluminam tudo à sua volta, enchendo de luz o ecrã. E sobe, sobe, vertiginosamente rumo ao céu a mais de 7,62 quilómetros… por segundo.
A ‘chegada’ a Santa Maria — a primeira estação terrestre a apanhar o sinal do foguetão, através da antena com 5,5 metros, antes disso a telemetria do foguetão é ‘apanhada’ por uma estação naval no meio do Atlântico — está prevista dali a 12 minutos.
É a primeira passagem do Ariane pela ilha, explica Michael Ammon. Depois, cerca de 1h47 minutos depois do lançamento, vai haver uma segunda passagem onde serão libertados os três últimos satélites da Amazon Leo no espaço, precisa o representante da ESA, com um portátil nos braços e de headphones para ir acompanhando todos os momentos da missão.

Ao todo, são mais 32 satélites que se irão juntar à Amazon Leo (de órbita terrestre baixa), o serviço de internet via satélite de alta velocidade e baixa latência da Amazon. Anteriormente, conhecido como Projeto Kuiper, foi projetada para concorrer com a Starlink de Elon Musk.
Recentemente, Bezos comprou por 11,57 mil milhões de dólares (cerca de 9,8 mil milhões de euros) a empresa de satélites Globalstar, dando à Amazon acesso a uma rede de duas dezenas de satélites, reforçando as ambições da empresa de desafiar a Starlink de Musk que já conta com cerca de 10 mil unidades em órbita.
Até 2029, a Amazon quer reforçar a sua rede de duas centenas de satélites e lançar 3.200 satélites em baixa órbita, metade dos quais têm de ser lançados até julho de 2026 por exigências regulatórias, noticiou a Reuters, sendo que o objetivo da companhia é implementar serviços de internet de satélite até ao final do ano.
O próximo lançamento da Ariane será em junho e David Cavaillolès, CEO da Arianespace, no final da missão, anunciou que será um voo que terá Amazon Leo como cliente. A Arianespace vai realizar um total de 18 lançamentos para a Amazon Leo, o seu principal cliente comercial.

Mas voltemos ao nosso voo. Com olhos postos nos ecrãs, todos se concentram na leitura dos dados que estão a surgir em caixas de cores verdes e amarelas. Para os não iniciados, são séries de números e percentagens sem significado. Mas para a equipa são dados relevantes que dão conta se tudo está a decorrer dentro dos parâmetros esperados.
Vera Carvalho vai anotando numa espécie de diário de bordo marcos importantes deste lançamento, para mais tarde serem produzidos relatórios sobre a missão para a ESA. O ‘sinal adquirido’ registado no documento indica o momento em que a antena de Santa Maria ‘apanhou’ o sinal do foguetão.
Lá fora, a antena primeiro começa a mexer-se milimetricamente apontando para a linha do horizonte, mas depois à medida que o foguetão prossegue a sua órbita vai girando mais rapidamente para seguir a sua trajetória até ao ponto que o Ariane deixa o ‘controlo’ da estação de Santa Maria, passa para o ‘controlo’ da estação da ESA em Toulouse, França, e segue o seu destino até regressar para uma segunda passagem por Santa Maria.
Mesmo localizados a alguma distância da estação da ESA, conseguia-se ouvir o matraquear dos geradores que garantiam que, do ponto de vista da energia, nada iria interferir com o sucesso da missão. Antes do arranque, o Teleporto ‘desliga-se’ da rede elétrica nacional e coloca os geradores a trabalhar, protegendo a missão de quaisquer quebras de rede elétrica, comprometendo os equipamentos necessários para que tudo funcione sobre rodas. Ou melhor, sobre antenas.
Lá fora, o tempo estava chuvoso, frio e nublado. E não fosse hora, se o lançamento do Ariane tivesse sido feito de noite, quando passa-se por Santa Maria daria para ver a olho nu um ponto brilhante no céu, conta Miguel Boavida, head of Space & Ground Segments da Thales Portugal. Não foi hoje o caso. É preciso esperar pelos próximos lançamentos: junho, outubro e novembro.
*O ECO/eRadar viajou a Santa Maria, nos Açores, a convite da Thales Portugal
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Arianespace lança satélites Amazon. Teleporto de Santa Maria dá mão no ‘controlo’ da missão
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