Dono do Novobanco quer ser a ‘porta de entrada’ de empresas francesas em Portugal

Será a partir de Paris que o futuro do Novobanco vai passar a ser decidido mas BPCE assegura que Lisboa terá autonomia de decisão. “Gostamos do banco como ele é hoje”, diz CEO do grupo francês.

A sede dos novos donos do Novobanco reparte-se em duas torres, localizadas em Paris, e cuja disposição faz lembrar um casal a dançar tango. Foi lá onde Nicolas Namias, líder do BPCE, recebeu um grupo de jornalistas num encontro que serviu para contar o longo passado do grupo cooperativo francês com dois séculos, mas sobretudo para explicar quais são as ambições para o banco português. “Gostamos do Novobanco como é ele hoje”, assegura-nos logo à partida. Mas as coisas não vão ficar como estão. A ideia é fazê-lo crescer. Como?

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O BPCE, um dos maiores bancos em França com 35 milhões de clientes, acabou de investir 6,7 mil milhões de euros na aquisição do Novobanco. Foi a maior transação na banca europeia dos últimos dez anos e um grande investimento para este grupo que nasceu da fusão do Banque Populaire e da Caisse d’Epargne, na sequência da crise do subprime há quase duas décadas.

Namias, que assumiu a liderança no final de 2022 com um objetivo de alargar os horizontes do grupo francês, acredita que isso pode abrir a porta de Portugal a mais empresas francesas que queiram seguir o mesmo caminho. “Ficarei muito feliz por apoiar empresas francesas que queiram investir em Portugal. Quero ser o banco da relação entre Portugal e França”, salienta.

O objetivo é mesmo apoiar a economia e as empresas nacionais. Tal como o grupo faz em França através dos 29 bancos regionais espalhados por terras gaulesas.

“O Novobanco transformou-se de uma forma muito bem-sucedida nos últimos anos, mas ao mesmo tempo manteve as raízes na economia real. O Novobanco é o banco das PME em Portugal, como nós somos em França. Temos este ADN em comum”, concede.

O Novobanco transformou-se de uma forma muito bem-sucedida nos últimos anos, mas ao mesmo tempo manteve as raízes na economia real. O Novobanco é o banco das PME em Portugal, como nós somos em França. Temos este ADN em comum.

Nicolas Namias

CEO do BPCE

“Portugal é um exemplo para a Europa”

Com mais de 100 mil trabalhadores, o grupo já empregava cerca de 4.000 pessoas em Portugal antes da aquisição do Novobanco, sobretudo no centro de competências do banco de investimento Natixis, localizado no Porto. Agora tem o dobro.

“A escolha do Novobanco é uma escolha de Portugal. Hoje temos 8.000 mil pessoas em Portugal. É segundo maior país para o BPCE. É muito importante para nós”, refere.

O ambiente económico do país foi um aspeto determinante para esta aposta. “É um país com excedente orçamental, tem o dobro da taxa de crescimento da Zona Euro. Portugal tornou-se num exemplo em termos de crescimento económico e de política económica na Europa”, enfatiza Namias.

A aquisição do banco português serve o objetivo de expansão do BPCE, mas também um propósito em que Namias acredita: a soberania financeira da Europa. “Ninguém está a implementar o relatório Draghi. Nós estamos. É por isso que estou orgulhoso da aquisição do Novobanco. É a primeira ação de implementação do relatório Draghi”.

O líder do BPCE não esconde a ambição: “Somos um gigante francês, mas queremos ser um campeão europeu”.

Nicolas Namias, CEO do BPCE.

“Quem se junta ao BPCE é para sempre”

Namias estima que levará cerca de dois anos e meio para completar a integração do Novobanco dentro do grupo. A aquisição foi fechada há apenas dois meses.

O banco vai continuar a ser gerido por Mark Bourke, a partir de Lisboa, mas dentro do enquadramento de risco, estratégia, compliance e visão do BPCE, que é definido a partir da capital francesa. A marca Novobanco também se manterá.

“Gostamos do banco como ele é hoje, mas queremos desenvolvê-lo porque temos uma visão de longo prazo”, afiança.

O compromisso de longo prazo com o Novobanco e o país é mesmo a mensagem a passar: “Somos um grupo cooperativo, quando se junta ao BPCE é para sempre. (…) É assim que queremos desenvolver o Novobanco”.

O BPCE funciona num modelo pouco usual para um banco. Mas é isso que dá consistência ao grupo. “Os últimos acionistas são os clientes. Ou em última instância não temos acionistas. Temos 35 milhões de clientes, dos quais dez milhões são acionistas do grupo. Os nossos clientes são os nossos acionistas, são os acionistas dos bancos regionais. O BPCE é responsável por todo o grupo. Definimos a estratégia, financiamento, risco e compliance a nível do grupo. O facto de sermos detidos pelos nossos clientes, dá-nos uma visão de longo prazo”, diz.

Namias elenca as várias capacidades do BPCE que pretende ‘exportar’ para o Novobanco, desde o retalho, com aposta sobretudo na área de gestão de ativos, até PME e grandes empresas, onde o grupo francês tem grande expertise em termos de soluções de leasing e factoring. E ainda de banca corporativa através do Natixis, outra área que os franceses esperam dinamizar.

Sede do BPCE, em Paris.

“Infraestrutura está no nosso core”

Portugal prepara-se para uma onda de grandes investimentos em infraestrutura, incluindo no novo aeroporto de Lisboa, com um custo estimado de 8,5 mil milhões de euros cujas obras estão a cargo da compatriota Vinci, e na alta velocidade – a ligação Porto-Lisboa terá encargos na ordem dos 4,5 mil milhões.

“Estamos muito interessados”, declara Michael Haize, global head global markets Natixis CIB, numa outra apresentação aos jornalistas. “Infraestrutura está no nosso core”, acrescenta.

Também na área da defesa os franceses estão à espreita de oportunidades no país. Portugal comprometeu-se a investir até 5% do orçamento em defesa e segurança nos próximos anos, com muitos milhões em causa. Haize lembra que o BPCE foi o primeiro banco europeu a emitir defence bonds, um tipo de obrigações desenhadas especificamente para investimentos nesta área. “Somos um banco francês, o setor da defesa está no nosso ADN”, volta a dizer Haize.

O BPCE também pretende reforçar a área dos seguros e está a negociar a aquisição da seguradora Gama Life (ex-BES Vida). Sobre este tema, Nicolas Namias não faz comentários. Lembra, ainda assim, que o BPCE é um banco-seguradora. A ideia é replicar isso no Novobanco e internalizar a atividade seguradora e não apenas distribuir produtos seguradores. “Queremos distribuir os produtos que nós desenvolvemos. É o que fazemos em França. (…) Para fazer isso podemos desenvolver a nossa própria seguradora. Isso demora tempo. Ou comprar uma companhia”, diz.

No fundo, Namias quer o que faz um casal a dançar no tango: ter o Novobanco ao ritmo do BPCE.

*O jornalista viajou a Paris a convite do BPCE

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