Aparelhos fabricados em Rio de Mouro são usados em centros de investigação ligados à NASA, medem a força dos drones da Tekever a temperaturas baixas ou a resistência de fardas militares à humidade.
- A Aralab, empresa portuguesa de câmaras climáticas, está a expandir a sua produção e a entrar no mercado chinês, respondendo a uma crescente procura internacional.
- Com mais de 40 anos de experiência, a Aralab fornece equipamentos a diversos setores, incluindo defesa, farmacêutico e investigação, destacando-se pela versatilidade das suas câmaras em mais de 80 países.
- A transição de liderança para a segunda geração da família Araújo visa garantir a continuidade do negócio, mantendo a Aralab como uma referência no setor e evitando aquisições externas.
O telefone toca. A caixa de entrada do email dá sinal de uma nova mensagem. É um empresário na Índia interessado em conhecer as câmaras climáticas que são criadas em Sintra, porque quer simular como seria fazer plantações… no Espaço. Esta podia ser a sinopse de uma obra de ficção científica, mas é o exemplo real de um dia na rotina de Luís Branco, CEO da empresa portuguesa Aralab.
Fabricante de câmaras climáticas há mais de 40 anos, a Aralab reproduz as condições naturais do ambiente, como temperatura, humidade, radiação solar, circulação de ar, velocidade do vento, nível de CO2, neve ou chuva, numa espécie de cabines ou arcas frigoríficas, que podem ter o tamanho de um micro-ondas ou de um armazém. É nesses equipamentos que as empresas dos mais variados setores podem testar os seus produtos, sejam automóveis, roupa, computadores ou peças de aviões. A empresa tem vindo a apostar no setor de defesa, está a aumentar área de produção até aos 60% e tem em curso planos de expansão para o mercado chinês.
A partir da fábrica em Rio de Mouro, mais de uma centena de engenheiros eletrotécnicos e informáticos criam câmaras de testes climáticos vendidas para mais de 80 países. A transversalidade das máquinas não podia ser maior: são utilizadas pela Manteigaria Silva, em Lisboa, para estudar a validade dos queijos, pela AstraZeneca para verificar o estado dos medicamentos feitos na Ásia ou pela Apple, dos Estados Unidos, para analisar a resistência da tecnologia.
Depois de fechar contratos com marcas como a Tesla, a TAP, a empresa de motores da Fórmula 1 Red Bull Powertrains ou com a Louis Vuitton, o gatilho das vendas começou a disparar com a defesa. Hoje, as câmaras made in Portugal são utilizadas em centros de investigação ligados à NASA e testam a força dos drones da Tekever às temperaturas extremamente baixas ou altas ou das armas de empresas internacionais. Por cá, é no CITEVE – Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário que as utilizam para ensaiar a força das fardas para militares, por exemplo.
“São empresas internacionais que compram as nossas câmaras e depois ensaiam o que tiverem de ensaiar. Não sei se são espingardas ou flechas. Por vezes sabemos e noutras não nos contam. Nesses projetos somos contactados — diretamente pelo cliente ou através dos nossos distribuidores nos vários mercados — e vêm com um caderno de encargos já muito específico. Quase sempre são projetos customizados que necessitam de muita adaptação”, começa por explicar Luís Branco, o CEO da Aralab, ao ECO/eRadar.
Dizem-nos: ‘Preciso de testar determinado equipamento para que ele funcione desde menos 50 graus até 60 graus positivos. Saber que quando vou disparar a espingarda, ela dispara tão bem a 40 graus negativos como a 40 grau positivos, independentemente do local onde estiver a ser utilizada e com determinadas condições de humidade.’
Dentro da área da defesa, a Aralab tem trabalhado essencialmente na aviação, fardamento, armamento e munições, sobretudo com privados, mas também instituições públicas. “Sentimos um aumento da procura de unidades pequenas e customizadas por causa da defesa, que precisa de cumprir determinadas normas e fazer rampas de velocidades, que é ir de um ponto ao outro da temperatura em curtos espaços de tempo, muitas vezes, apenas em minutos. Todas essas adaptações acabam por ser os desafios da nossa engenharia”, conta Luís Branco.
A Aralab garante ter flexibilidade para responder a este género de pedidos, até porque apesar de “muitas vezes, cada câmara ser uma câmara”, no final do dia as dimensões que se pretendem testar são as mesmas: temperatura, humidade, precipitação ou neve.
Por entre os corredores de contentores de madeira, veem-se encomendas para destinatários de todos os continentes, desde centros de investigação na Nova Zelândia, empresas em Israel até à Colômbia e uma nova câmara para Vila Nova de Famalicão, onde se localiza o CITEVE.
A câmara mais pequena, com 30 litros de volume, foi precisamente aquela que a terceira empresa mais valiosa do mundo comprou. A Apple utiliza as máquinas produzidas nesta unidade industrial portuguesa para testar os seus equipamentos eletrónicos.
Já a maior câmara alguma vez desenvolvida pela Aralab (embora nunca vendida) teve uma capacidade de aproximadamente 400 mil litros, o que equivale ao tamanho de apartamento. A câmara recordista foi utilizada apenas para um projeto interno de simulação de estufa para produzir vegetais, mas a iniciativa acabou por ser descontinuada porque o aumento dos custos energéticos após a guerra na Ucrânia fez com que se tornasse mais caro continuar a utilizar a energia elétrica para encenar o sol. Dali ainda nasceram verduras que foram entregues ao retalho.

Simular frio, quente, húmido ou gravidade zero
Fundada em 1985 pelos irmãos João e Eduardo Araújo, esta empresa quadragenária começou por prestar serviço de assistência técnica a outras câmaras climáticas que existiam no mercado, mas depressa o apoio técnico evoluiu para produção própria. “Pelas capacidades e pela habilidade que tinham para essa prestação de serviços, os clientes começaram a desafiá-los e a perguntar se não queriam eles próprios fazer as suas câmaras”, conta Luís Branco.

Na visão da companhia “tudo pode ser testado nas câmaras climáticas”. “É preciso garantir que quando estamos a utilizar um bem, independentemente das condições climatéricas, o seu comportamento é o mesmo. Que a porta do carro abre quando tem que abrir, e abre não sei quantas mil vezes ao longo do seu ciclo de vida, conforme está previsto que o faça, que esteja num país muito quente, muito frio ou muito húmido”, afirma.
A Bosch foi a primeira empresa, há dois ou três anos, a desafiar-nos a simular chuva e neve dentro de uma só câmara para testar bombas de calor.
E no espaço? Luís Branco explica que a simulação do ambiente espacial é realizada em parceria com outras empresas devido à complexidade que é replicar a falta da força de gravidade na Terra. “Não fazemos diretamente, mas temos parceiros com os quais trabalhamos, como o ISQ, e conseguimos ter câmaras para simular o ambiente espacial. Já fizemos para ensaiar peças para satélites para a Agência Espacial Europeia (ESA)”, revela o CEO da Aralab.
A Aralab fez parte da comitiva portuguesa na feira internacional Space Tech Expo, que se realizou em Bremen no final de novembro, e foi alvo de uma menção do AED Cluster Portugal. “Especialista em câmaras de simulação ambiental, a empresa projeta e fabrica sistemas de controlo climático de alta precisão utilizados em ensaios de componentes e materiais aeroespaciais, recriando as condições extremas do espaço”, sintetizou o cluster que agrega os setores nacionais da aeronáutica, espaço e defesa.
Outra das aplicações das câmaras nacionais é na área da investigação e desenvolvimento. Os laboratórios científicos e os gabinetes de investigação das universidades utilizam os aparelhos para simular o ambiente para estar plantas exóticas, por exemplo. “Plantas, algas, insetos… Um investigador europeu não precisa de se estar a deslocar para o Hemisfério Sul para perceber como é que determinada planta se comporta nesse clima, quais são os impactos ambientais nas diferentes espécies. Usam-nas para simular temperatura, humidade e luz solar” para estudo da fauna, diz Luís Branco.
Estados Unidos exigem mais certificações
Depois de, no passado mês de novembro, ter anunciado a chegada aos Estados Unidos através de uma parceria estratégica com a alemã Memmert, a Aralab tem dedicado os últimos meses a campanhas de marketing e à presença em eventos do outro lado do Atlântico. O acordo com a multinacional com sede em Schwabach, da qual é concorrente na Europa e parceira no mercado chinês desde 2024, permitiu-lhe iniciar a comercialização de câmaras walk-in (as que dão para as pessoas entrarem lá dentro) para as áreas farmacêuticas e de investigação de plantas, mas ainda há um longo caminho pela frente até ser um nome sonante na maior economia do mundo.
“Estes meses têm sido sobretudo de investimento na promoção, em dar a conhecer a marcar ao público americano. Enquanto na Europa somos relativamente bem conhecidos, e com segmentos nos quais somos claramente líderes, nos Estados Unidos isso não acontece. Não temos muitas referências nem notoriedade da marca. Primeiro é preciso fazer esse caminho das pedras”, esclarece o CEO. Desde logo, pelas diferenças EUA-Europa ao nível do marketing e de validações das câmaras.
O produto precisa de certificações específicas para ser vendido no mercado americano, nomeadamente a UL – Underwriters Laboratories que funciona como a ‘luz verde’ para os Estados Unidos e o Canadá. “Como o conhecemos aqui na Europa, não é comercializável nos Estados Unidos. É exigido que todos os componentes elétricos da máquina tenham características específicas e sejam validados por essa entidade. Isso obrigou a muito investimento, recursos de engenharia, contactos e um processo prolongado e dispendioso”, reconhece Luís Branco.
O CEO da Aralab sabe o significado de “semear para colher mais tarde” e garante que era inevitável e “natural” este passo da internacionalização, apesar de o fazer com a mão germânica e esforço financeiro. “Quando se tem uma presença tão forte no mercado europeu e se começa a estar na Ásia, os Estados Unidos, que são o maior mercado mundial de consumo de câmaras climáticas, têm de estar no nosso radar”, remata.
Novo armazém aumenta até 60% capacidade de produção
É precisamente na Avenida de Santa Isabel, em Rio de Mouro, onde se localiza a sede da Aralab, que vai nascer outra unidade de produção da empresa. O próximo armazém, com mais dos que os atuais 4.000 metros quadrados de área útil, permitirá aumentar a dois dígitos a capacidade de fabrico, atualmente em 400 câmaras anuais.
“Fazemos um bocadinho mais do que uma câmara por dia. Com este novo espaço, diria que aumentaremos a nossa capacidade em 50%, 60% ou, provavelmente, até mais, porque vamos criar uma linha de fabrico para unidades mais pequenas, que será capaz de produzir muitas mais unidades. Está nas obras finais de adaptação para que possamos começar a instalar a parte produtiva das operações”, adianta Luís Branco.
A expectativa é a de ocupar o armazém (novo) na rua (do costume) até ao início do verão. Este será o mais recente edifício da Aralab, além do principal e dos armazéns que tem na margem Sul do Tejo para procedimentos-padrão dos equipamentos. “Ensaiamos em bancada os grupos [condensadores] e os cliques [termostatos] que fazem o clima. Depois, a estrutura chega-nos já feita e é embalada e despachada da margem Sul diretamente para os clientes”, detalha o CEO.
Segunda geração da família Araújo entra na gestão
A Aralab encontra-se numa fase de transição de liderança. No início de janeiro, iniciou-se um processo de sucessão dentro desta empresa familiar com a entrada na administração dos filhos dos sócios fundadores, os primos João, Eduardo e António. A segunda geração da família Araújo está pronta para assumir as rédeas de um negócio do qual tem lembranças desde a infância e, com o passar dos anos, foi conhecendo cada vez melhor.
“Os fundadores integraram os seus descendentes na empresa. É um processo de passagem geracional e evolução, porque eles estão há três anos connosco, começaram por ser responsáveis de alguns departamentos, e agora chegou o momento de chegarem à gestão. A ideia não é ser muito disruptivo, porque a Aralab tem conseguido desenvolver bem o seu trabalho, crescido nos mercados internacionais e, se as coisas estão a correr bem, não vamos quebrar o que existe de uma forma radical”, explica Luís Branco.
O CEO, que se mantém na presidência executiva, auto caracteriza-se como “o ponto de ligação entre o passado e o futuro” da Aralab e mostra-se aliviado por se ter encontrado uma solução interna que evitou terem de ponderar alguma das propostas de aquisição recebidas.
A Aralab sempre foi muito assediada por concorrentes internacionais para entrar em processos de M&A. Fomos sempre dizendo que não, porque o objetivo era dar continuidade ao negócio e manter o centro de decisão aqui em Portugal. Os fundadores não queriam abdicar do princípio de manter a empresa portuguesa. Quando colocaram o desafio aos seus filhos, e eles o aceitaram, foi o casamento perfeito.
O trio composto pelos primos João, Eduardo e António Araújo fez carreira noutras empresas até ao momento em que decidiu arregaçar as mangas e entrar num imensurável mundo dos ensaios climáticos. “Nunca foi óbvio que viéssemos para a Aralab apesar dos nossos pais. Fazia sentido estarmos noutras empresas. Acabou por chegar a altura, tivemos formação e percebemos que todas as coisas que nos rodeiam na vida — telemóveis, óculos, comidas, peças de aviões da TAP ou de carros da Tesla, podem ser testadas. Tudo o que existe pode ser testado em câmaras climáticas”, relata João Cintra Araújo, que ficou com a pasta da relação com o cliente ao assumir o cargo de chief experience officer.
Os patriarcas, os sócios fundadores, assumiram a função administradores não executivos e vão atuar como consultores nesta nova era mais ‘defensiva’ e global da Aralab.
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Câmaras climáticas feitas em Sintra testam armas para militares, iPhones e peles da Louis Vuitton
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